Publicado em 3 de fevereiro de 2026 às 14:09
Os milhões de novos documentos sobre o criminoso sexual condenado Jeffrey Epstein, divulgados na última sexta-feira, 30/01, dão indícios sobre uma possível atuação e interesses que o empresário tinha no Brasil.>
Os documentos citam depoimento que afirma que ele teria uma conexão no Brasil com uma "agente", que conseguia garotas menores de idade quando ele estava no país a trabalho.>
Mencionam também que ao menos quatro garotas brasileiras, inclusive adolescentes, teriam sido levadas para ele em uma festa, em uma de suas casas, nos Estados Unidos — a BBC News Brasil mostrou, em dezembro, que uma das vítimas de Epstein disse que ao menos 50 brasileiras estiveram em sua mansão.>
Há ainda conversas em emails sobre uma ideia de criar um concurso de beleza para atrair garotas jovens no Brasil e o interesse em adquirir uma revista de moda para atrair modelos.>
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Ao todo, a BBC News Brasil identificou cerca de 4 mil menções ao país em documentos até o momento, incluindo trocas de emails e mensagens de Epstein com amigos e auxiliares, identificadores em fotos e notícias sobre o país.>
A reportagem mostrou nos últimos dias, por exemplo, elogios ao ex-presidente Bolsonaro e menções a Lula.>
Ser mencionado ou ter sua imagem incluída nos arquivos divulgados pelo governo americano não implica, necessariamente, um delito.>
Um depoimento feito à Justiça da Flórida em junho de 2010, que está entre os documentos divulgados pelo governo americano, afirma que Jeffrey Epstein fazia viagens ao Brasil para falar com clientes e que, quando estava no país, possuía contato com uma mulher que lhe fornecia garotas para prostituição, inclusive menores de idade.>
O nome da pessoa que traz as informações é tarjado, mas ela diz, ao longo do depoimento, que trabalhou para Jean-Luc Brunel, ex-agente de modelos francês e conhecido parceiro de Epstein. >
Brunel foi acusado de ter traficado mulheres e foi encontrado morto na prisão em Paris, na França, em 2022. Estava detido desde o início de uma investigação formal, após ser acusado de assédio sexual e estupro contra jovens com idades entre 15 e 18 anos na França. Ele negava as acusações.>
A ex-funcionária da agência de modelos alegou no depoimento que a companhia não dava lucro, que era sustentada com apoio de Epstein e que acreditava que o financista só tinha interesse em se envolver com a empresa por causa das meninas, inclusive menores.>
No depoimento ela cita que quatro garotas do Brasil foram levadas por Brunel à casa de Epstein para uma festa e que ao menos duas delas eram menores de idade, entre 13 e 15 anos.>
Segundo esse depoimento, era Epstein quem pagava pelos vistos para que as meninas pudessem entrar nos EUA.>
As garotas teriam sido apresentadas a Brunel por uma "amiga muito boa" dele no Brasil, chamada de "agente mãe" (mother agent, no original). O nome dela não é citado.>
O documento com o relato também cita que Brunel tinha contato com uma mulher que conseguia prostitutas para ele e Epstein no Brasil "quando precisasse". >
A testemunha diz ainda que seria difícil conseguir informações no Brasil e sugere que poderia haver pagamentos por silêncio.>
"Cinco mil dólares no Brasil é muito dinheiro. Dá pra comprar uma casa." >
E continua, em outro trecho: "Jeffrey Epstein tem todo o dinheiro que tem, ele podia calar todo mundo".>
As visitas de Jean-Luc Brunel ao Brasil são conhecidas. Diversas reportagens publicadas nos últimos meses, inclusive pela BBC News Brasil, mostram que ele esteve no país em busca de modelos.>
Em outra troca de e-mail, em 2016, Epstein discute com outra pessoa a ideia de comprar uma agência de modelos no Brasil. >
"Não tenho certeza se isso seria viável sem alguém lá para gerenciar que você possa confiar 100%, mas estou passando, caso você esteja interessado", diz o interlocutor.>
Em outra mensagem, ele afirma: "Não tenho certeza se você quer ser dono de 100% de qualquer agência, a não ser que você encontre algum outro incentivo para manter as principais pessoas que estão lá gerenciando o negócio. Estou presumindo que você está mais interessado no acesso às...[emoji de uma garota loira]">
O remetente cita ainda a possibilidade de se fazer uma competição para modelos no Brasil.>
"Isso envolveria pagar ao organizador e, então, ele encontraria patrocinadores e eles vasculhariam o país em busca de modelos em potencial. Você estaria interessado nisso? Dessa forma, você conseguiria garotas mais jovens e menos cansadas da indústria da moda. Rostos novos, basicamente. Então, essa é outra opção.">
O concurso envolveria milhares de garotas e um investimento de US$ 500 mil.>
"Eles basicamente vasculham o país e muitas garotas aparecem. Foi assim que eles descobriram a maioria das principais modelos brasileiras que fizeram sucesso em Nova York.">
Segundo esta mensagem enviada a Epstein, "isso implicaria ter acesso a todas as garotas, com as quais você poderia decidir o que fazer.">
O interlocutor afirma então: "Você poderia basicamente levar essas garotas para qualquer lugar nos EUA (há uma agência brasileira que cuida dos vistos para os EUA), ou para Paris ou o Caribe.">
Ao voltar a falar sobre a opção de adquirir uma dessas agências, ele pondera:>
"Seria um bom investimento se você quisesse construir uma marca já estabelecida e, é claro, muitas oportunidades de conhecer modelos. Mas acho que não é o mesmo acesso direto que o concurso, onde as garotas são na maioria caipiras e não modelos experientes.">
Outra conversa que se estendeu por uma série de e-mails, em agosto de 2016, tratava do interesse de um parceiro de Epstein em comprar uma revista de moda com ele no Brasil.>
"Uma revista de moda brasileira está à venda. Se conseguirmos comprá-la por um preço baixo, você gostaria de comprá-la conosco? Todos os castings podem ser feitos em Nova York, então você poderia facilmente ter de 20 a 30 garotas tentando a capa todos os meses. É só uma ideia...">
A ideia, segundo as conversas, seria usar a publicação para atrair modelos.>
Epstein demonstra interesse inicial e o homem vai buscar mais informações. A conversa mostra que ele teria pensado em fazer uma oferta de US$ 200 mil por 25% das ações da revista.>
A negociação teria esfriado em dezembro, quando surge a dúvida sobre se o negócio daria prejuízo. "Fique longe", sugeriu Epstein, segundo as mensagens.>
O homem então lamenta.>
"Grrrrr... pense em todas as garotas que eu teria... ok, vou deixar passar... talvez só compre o Brasil por algumas centenas de milhares; isso garantirá um fluxo constante de mulheres." (o termo exato usado é mais explícito).>
Em outra conversa, em 2017, esse mesmo homem diz a Epstein que conseguiu um acordo melhor: ao invés de comprar a revista, ele teria supostamente pago um editor da revista ("I have the local Brazilian publisher in my pocket").>
"Então, sempre que quero que eles fotografem uma garota, eu simplesmente dou a ele alguns milhares. É muito mais barato assim... não ia dar lucro mesmo", disse, segundo as mensagens que aparecem nos arquivos divulgados pelo governo americano.>
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