Publicado em 29 de outubro de 2025 às 08:34
Apesar de estar caminhando para a frente, a parte de cima do corpo de Oleksandr Volobuev parece estática enquanto ele atravessa um campo cheio de fumaça e destroços.>
Ele está concentrado. Volobuev, major-general do Serviço de Proteção Civil da Ucrânia, segura firmemente o que carrega nas mãos. Da parte inferior do casaco que ele mantém junto ao corpo, despontam dois sapatinhos cor-de-rosa.>
É uma imagem marcante do dramático resgate de uma creche na cidade de Kharkiv, no leste da Ucrânia, após um devastador ataque com drones realizado pelo Exército russo.>
Com 48 crianças presas em um abrigo dentro do prédio em chamas, o ato de Volobuev não foi o único gesto de bravura naquele dia — longe disso.>
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Mas poucas fotografias resumem de forma tão completa o impacto crescente da invasão em larga escala da Rússia sobre a vida cotidiana dos ucranianos, especialmente das pessoas mais vulneráveis — como as crianças — expostas às consequências.>
"Recebemos uma ligação informando que um jardim de infância havia sido atacado", contou Volobuev à BBC.>
"E, claro, saber que havia meninos e meninas naquele local tornou tudo um pouco mais complicado", acrescentou.>
Mal podia imaginar que, ao final do dia — depois de carregar aquela menina até um lugar seguro — ele seria chamado de herói nacional.>
Naquele instante capturado pela câmera, os ucranianos não viram apenas a realidade da nova estratégia russa — baseada em atacar a infraestrutura civil —, mas também uma clara definição de sua própria resistência.>
É impossível saber por que a Academia Miel, localizada em um prédio de tijolos em Kharkiv, foi atingida por um drone.>
O zumbido baixo e ameaçador dessas armas de fabricação iraniana — que podem carregar mísseis de até 50 quilos — já é muito familiar não apenas para os soldados na linha de frente, mas também para todos os ucranianos.>
Embora possam ser bastante precisos, o uso massivo desses drones, com diferentes alvos possíveis em cada ataque, pode fazer com que alguns não funcionem corretamente.>
A Rússia negou estar atacando áreas residenciais, mas o fato é que o mapa não mostra nenhum alvo militar evidente nas proximidades do jardim de infância.>
A Ucrânia, por sua vez, deixou claro que considera o episódio um ataque deliberado.>
"Não há qualquer justificativa para atacar um jardim de infância. Isso nunca deveria acontecer. Está claro que a Rússia está se tornando cada vez mais descarada", disse o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.>
Fedir Uhnenko também se juntou às equipes de resgate que saíram para atuar após o ataque.>
Normalmente, como oficial de imprensa do Serviço de Defesa Civil, ele não está envolvido na linha de frente.>
"Houve uma forte explosão e o horror estava nos olhos das crianças", explicou sobre a situação em que encontraram os menores no porão do prédio.>
Felizmente, o alarme que tocou antes do ataque fez com que os meninos e meninas buscassem refúgio na parte mais baixa do local.>
Mas, com o prédio ainda em chamas, o teto destruído e as salas cheias de poeira e fumaça, eles ainda corriam risco.>
Então, os colegas de Uhnenko, assim como outros vizinhos que haviam chegado para ajudar, formaram uma fila para retirá-los de lá.>
Assim como Volobuev, Uhnenko foi fotografado carregando uma das crianças. No caso dele, um menino.>
"Eu ficava dizendo a ele o tempo todo que ficaria tudo bem, que não precisava se preocupar com nada", explicou.>
"Quando saímos do prédio, havia um veículo em chamas. Nossos homens apagaram. Mas o menino não chorou. Fiquei surpreso que não chorasse, embora tivesse muito medo nos olhos", contou Uhnenko.>
"Eu disse a ele para me segurar firme. Como se pode ver na foto, ele está segurando o mais forte que consegue", acrescentou.>
No final, o responsável pela imprensa desempenhou dois papéis naquele dia: o resgate e seu trabalho normal.>
Com sua câmera, registrou grande parte do que aconteceu, e esse conteúdo acabou se tornando viral.>
As crianças resgatadas foram levadas a um ponto de emergência em uma área segura, a poucos metros da creche.>
Felizmente, todas saíram ilesas e pareciam compreender o perigo que haviam enfrentado naquele dia.>
Um adulto que trabalhava nas proximidades morreu no ataque, e outros nove ficaram feridos, sendo um com queimaduras graves e outro com a amputação de uma perna.>
Todos os resgatistas, explicou Uhnenko, tinham plena consciência não apenas dos riscos de incêndio, desabamento e fumaça, mas também da possibilidade de um novo ataque.>
Sabe-se que a Rússia já atacou o mesmo alvo duas vezes, estratégia que os ucranianos consideram deliberada para matar os trabalhadores de resgate que vão socorrer as vítimas.>
No dia seguinte ao ataque à creche, um desses chamados "impactos duplos" matou um bombeiro e feriu cinco de seus colegas em uma vila próxima a Kharkiv.>
Todas as salas de aula da escola foram danificadas pelo ataque.>
A Ucrânia acredita que a Rússia tem focado em alvos civis por desespero, diante da incapacidade de obter avanços significativos no campo de batalha.>
Tanto Volobuev quanto Uhnenko afirmam que o que viram lá não mudou sua opinião sobre o inimigo.>
"Desde o início, tive apenas a sensação de que precisávamos superar tudo isso e vencer", explicou Volobuev.>
E, ao ser questionado sobre o futuro que imagina para as 48 vidas jovens que ajudou a salvar, disse: "Claro, apenas boas e felizes perspectivas. Mas não só para nossos filhos. Eu gostaria que todas as crianças vivessem em paz".>
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