Publicado em 2 de março de 2026 às 19:08
Daqui a pouco mais de 100 dias, os Estados Unidos serão um dos três países anfitriões da Copa do Mundo de futebol masculino. E o Irã é uma das seleções classificadas para a disputa.>
No sábado (28/2), os Estados Unidos atacaram o Irã, em uma operação conjunta com Israel que segue em andamento, despertando ataques retaliatórios em todo o Golfo Pérsico.>
O que o conflito pode significar para os países envolvidos, para a Fifa e para uma Copa do Mundo que já estava altamente politizada?>
Esta seria a quarta Copa do Mundo consecutiva com a participação do Irã. Seus três jogos na fase de grupos estão marcados para os Estados Unidos: contra a Nova Zelândia e a Bélgica, em Los Angeles, e contra o Egito, em Seattle.>
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O Irã não desistiu da competição no ano passado, quando os Estados Unidos bombardearam três instalações nucleares iranianas.>
Mas, em vista da maior seriedade da convulsão atual, o presidente da federação iraniana de futebol teria levantado dúvidas sobre a participação do país.>
"Com o que aconteceu... e com aquele ataque dos Estados Unidos, é improvável que possamos olhar para a Copa do Mundo à nossa frente, mas os dirigentes do esporte são quem deve tomar a decisão", teria dito Mehdi Taj à televisão iraniana.>
Em meio à morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), e às imensas incertezas sobre o futuro cenário político do país, é impossível prever qual será essa decisão — e até mesmo quem irá tomá-la.>
"Para Teerã, esta não é uma guerra curta de 12 dias, nem uma escalada contida que possa sofrer uma pausa e, depois, reiniciar", afirma Sanam Vakil, diretor do Programa de Oriente Médio e Norte da África do grupo de estudos sobre assuntos internacionais Chatham House.>
Para ele, "este novo estágio de conflito é existencial e claramente sobre a sobrevivência do regime. É também improvável que ele termine rapidamente.">
A Fifa, que dirige o futebol mundial, declarou estar acompanhando os acontecimentos. Mas, neste momento, as autoridades estão afirmando de forma privada que esperam que o Irã participe da Copa do Mundo.>
No sábado (1/3), o secretário-geral da Fifa, Mattias Grafstrom, declarou que "o nosso objetivo é ter uma Copa do Mundo segura, com a participação de todos".>
Pelas regras da Fifa, no caso da desistência ou exclusão de uma equipe, a entidade pode "tomar qualquer ação que considerar necessária" e "pode decidir substituir a associação participante por outra".>
A BBC Sport entrou em contato com a Fifa, pedindo esclarecimentos sobre as sugestões de que o Irã poderia ser substituído por outra equipe da Confederação Asiática de Futebol (AFC, na sigla em inglês).>
Se isso acontecer, os favoritos seriam o Iraque, que ainda poderá ganhar uma vaga na repescagem intercontinental a ser disputada no final deste mês, ou os Emirados Árabes Unidos, que foram desclassificados nas eliminatórias.>
O presidente americano, Donald Trump, assinou no ano passado uma ordem executiva proibindo a entrada nos Estados Unidos de cidadãos de 12 países, incluindo o Irã. O motivo indicado foi uma tentativa de gerenciar ameaças à segurança americana.>
Os jogadores e a equipe técnica das equipes que irão disputar a Copa do Mundo são exceções, mas o Irã ameaçou boicotar o sorteio da Copa, realizado em Washington no mês de dezembro, quando os pedidos de visto de parte das suas autoridades foram rejeitados.>
Mas, se o Irã jogar a Copa, provavelmente haverá um escrutínio ainda maior em relação à segurança dos jogos da equipe e da base de treinamento planejada pelo Irã, no Arizona.>
Os jogos da seleção iraniana na Copa do Mundo do Catar, em 2022, ocorreram em um cenário de protestos em massa contra o governo no Irã. As partidas incluíram uma derrota por 1x0 frente aos Estados Unidos.>
Na segunda partida da seleção iraniana, contra o País de Gales, houve confrontos entre torcedores com visões opostas sobre o governo do país.>
E, considerando as esperanças de Trump em relação a uma possível mudança de regime no Irã, é possível que ocorra uma situação parecida na Copa deste ano. Afinal, Los Angeles, que irá receber duas partidas do Irã, abriga uma das maiores comunidades iranianas do planeta.>
"Estamos em território desconhecido, a apenas pouco mais de três meses do início da Copa do Mundo e com os anfitriões lançando uma guerra de agressão contra um país participante", afirma Nick McGeehan, do grupo de defesa dos direitos humanos FairSquare.>
"Se o Irã retirar sua equipe da Copa (uma decisão que parece totalmente plausível), a Fifa provavelmente irá suspirar de alívio, considerando a possibilidade de protestos e distúrbios.">
Mesmo se o Irã não comparecer, as tensões poderão aumentar, especialmente considerando que o evento fará parte das comemorações dos 250 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos. Espera-se que Trump seja uma presença muito visível no evento, como ocorreu no Mundial de Clubes de futebol e na Ryder Cup de golfe, no ano passado.>
O conflito começou poucos dias depois que autoridades do governo americano foram alertadas de que poderá haver consequências "catastróficas" para a segurança se as 11 cidades-sede norte-americanas não receberem o dinheiro que foi congelado em meio a um fechamento parcial do governo do país. Afirma-se que o cronograma das preparações está atrasado.>
Também existem preocupações cada vez maiores sobre a possibilidade de uso de autoridades do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE, na sigla em inglês) durante o torneio e com um surto de violência dos cartéis no México, país vizinho e outro anfitrião da Copa.>
Além disso, as relações entre os Estados Unidos e o terceiro anfitrião, o Canadá, também sofreram tensões, com Trump impondo uma série de tarifas de importação para o vizinho do norte.>
Durante o fim de semana (28/2-1/3), o chefe da força-tarefa da Casa Branca para a Copa do Mundo, Andrew Giuliani, elogiou os ataques de Trump ao Irã. Ele postou nas redes sociais que suas ações iriam "fazer do mundo um lugar seguro".>
"Cuidaremos do futebol amanhã", acrescentou ele. "Esta noite, comemoramos a chance de liberdade" do povo iraniano.>
Mas o conflito no Oriente Médio provavelmente aumentará as críticas ao presidente da Fifa, Gianni Infantino, sobre seu relacionamento próximo com Donald Trump.>
Em dezembro, a Fifa concedeu a Donald Trump seu primeiro "Prêmio da Paz", durante a cerimônia do sorteio da Copa do Mundo de 2026.>
A entidade declarou que o presidente americano "desempenhou papel fundamental" no estabelecimento de um cessar-fogo entre Israel e os palestinos, além de buscar pôr fim a outros conflitos.>
Desde a entrega do prêmio, os Estados Unidos realizaram ações militares na Venezuela, Nigéria e Irã, além de indicarem possíveis operações na Groenlândia, no México (outro país-sede da Copa do Mundo) e na Colômbia, que também participa do torneio.>
Em janeiro, Trump também disse a Cuba que "faça um acordo" ou enfrente as consequências. >
Trump vem defendendo intensamente sua política externa. Ele insiste que está agindo no interesse dos Estados Unidos.>
No mês passado, Infantino defendeu a concessão do "Prêmio da Paz". Ele chegou a comparecer à primeira reunião do Conselho de Paz do presidente americano, usando um boné temático de Trump, com as inscrições "USA" e "45-47" (Trump, com dois mandatos não consecutivos, é o 45° e 47° presidente americano).>
A decisão de Donald Trump de atacar o Irã foi objeto de apoio e de condenação. Mas o certo é que ela irá gerar maior escrutínio sobre a decisão da Fifa de se alinhar com o presidente americano.>
Críticos defendem que este posicionamento gerou o risco de politização do órgão que dirige o futebol mundial.>
Em janeiro, 27 políticos britânicos trabalhistas, liberal-democratas, do Partido Verde e do Plaid Cymru (o Partido do País de Gales) subscreveram uma moção no parlamento nacional convocando as organizações esportivas a considerar a expulsão dos Estados Unidos das principais competições internacionais, incluindo a Copa do Mundo de futebol.>
A moção afirma que esses eventos "não devem ser empregados para legitimar ou normalizar violações do direito internacional por Estados poderosos".>
Também no mês passado, uma autoridade da Federação Alemã de Futebol declarou que está na hora de considerar um boicote à Copa do Mundo de 2026, em vista das ações de Donald Trump.>
Essas demandas poderão ser repetidas. E os Estados do Golfo Pérsico também podem pedir a punição do Irã pelos ataques retaliatórios ao seu território.>
A Fifa defende que, como organizadora de eventos futebolísticos, sua obrigação estatutária é permanecer neutra.>
Neste sentido, Infantino declarou no ano passado que a Fifa "não pode resolver problemas geopolíticos", em meio às pressões para sancionar Israel, quando uma comissão das Nações Unidas concluiu que o país cometeu genocídio contra os palestinos na Faixa de Gaza. >
O Ministério das Relações Exteriores israelense rejeitou categoricamente o relatório, considerado "falso e distorcido".>
Alguns críticos acreditam que as regras da Fifa devem ser fortalecidas, para que a entidade possa reagir adequadamente a eventos geopolíticos sérios. E esta não é a primeira vez que o organismo sofre pressões devido a ações tomadas por um país-sede da Copa do Mundo.>
Em 2018, o torneio foi realizado na Rússia, quatro anos depois que o país anexou a península da Crimeia. A Rússia também foi acusada de ciberataques, interferência em eleições ocidentais e de realizar o ataque com o agente nervoso Novichok em Salisbury, no Reino Unido.>
A Rússia acabou banida da Fifa em 2022, após a invasão da Ucrânia. Diversos países europeus se recusaram a competir contra o país.>
Mas Infantino declarou recentemente que a punição não funcionou. O presidente da entidade afirmou que ele deseja considerar a suspensão da medida e alterar o estatuto da Fifa para evitar boicotes.>
Certamente, não há sinal de que ele tenha qualquer disposição para criar sanções contra os Estados Unidos, por mais controversa que possa ser a política externa americana.>
O que fica claro é que, nos últimos dias, o que já era um cenário político complicado para a Copa do Mundo se transformou em um desafio ainda maior.>
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