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Irã diz que Estreito de Ormuz foi fechado: qual é sua importância e quais podem ser as consequências

Irã diz que Estreito de Ormuz foi fechado: qual é sua importância e quais podem ser as consequências

Após ataques coordenados dos EUA e Israel, Irã anunciou nesta segunda-feira o fechamento do Estreito de Ormuz e disse que vai incendiar navios que tentarem passar pela via.

Publicado em 2 de março de 2026 às 20:08

Imagem BBC Brasil
null Crédito: Nicolas Economou/Reuters

É uma das rotas marítimas mais importantes e estratégicas do mundo.

Cerca de um quinto do consumo mundial de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz, uma via comercial que conecta os produtores de petróleo do Oriente Médio com os principais mercados da região da Ásia-Pacifico, Europa e América do Norte.

Trata-se de um estreito canal que, em seu ponto mais apertado, separa Omã do Irã por apenas 33 quilômetros.

Nesta segunda-feira (2/3), um alto funcionário da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) declarou que o Estreito de Ormuz foi fechado e ameaçou atacar qualquer navio que tentasse passar.

"O estreito [de Ormuz] está fechado. Se alguém tentar passar, os heróis da Guarda Revolucionária e da Marinha regular incendiarão esses navios", disse Ebrahim Jabari, assessor do Comandante-Chefe da Guarda Revolucionária, em declaração à TV estatal.

Esta é a primeira vez que o Irã anuncia o fechamento completo do estreito e ameaça com ataques militares ao tráfego marítimo.

O anúncio ocorre dois dias depois de os Estados Unidos e Israel lançarem uma campanha aérea massiva contra o Irã, bombardeando instalações estratégicas e matando dezenas de autoridades do regime, incluindo o aiatolá Ali Khamenei.

O Irã respondeu com ataques de mísseis e drones contra Israel e instalações militares americanas em países vizinhos, desencadeando uma guerra regional.

Com o aumento das tensões no Oriente Médio e a interrupção das cadeias de suprimentos globais pelo conflito, os preços do petróleo e do gás dispararam nas últimas horas, antes mesmo de Teerã anunciar o fechamento do Estreito de Ormuz.

Mas, qual é a importância estratégica desse estreito e quais podem ser as consequências de seu fechamento?

Uma passagem estratégica

Limitado ao norte pelo Irã e ao sul por Omã e pelos Emirados Árabes Unidos, esse corredor — que tem cerca de 50 km de largura na sua entrada e saída, e aproximadamente 33 km em seu ponto mais estreito — conecta o Golfo ao mar da Arábia.

O canal possui duas rotas marítimas, e cada uma mede 3 km.

Mas, apesar de sua extensão, o estreito é profundo o suficiente para permitir a passagem dos maiores petroleiros do mundo.

Na primeira metade de 2023, cerca de 20 milhões de barris de petróleo passaram diariamente pelo Estreito de Ormuz, segundo estimativa da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA, na sigla em inglês), o que representa um comércio energético anual de quase US$ 600 bilhões.

Isso faz do estreito a passagem mais importante para a produção de petróleo no mundo, incluindo o petróleo da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), formada pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Kuwait, além da maior parte do gás natural liquefeito do Catar.

Qualquer interrupção no estreito restringe o comércio e impacta em um aumento dos preços do petróleo a nível mundial.

Mas seu fechamento deve ter um impacto particular sobre a China, que é o maior comprador global de petróleo iraniano e mantém uma estreita relação com Teerã.

Imagem BBC Brasil
null Crédito: Getty Images

Em outras crises regionais, o governo dos EUA alertou a China para impedir um eventual bloqueio por parte do Irã, argumentando que o país asiático seria ainda mais prejudicado do que o Ocidente caso isso ocorresse.

"Se fecham o estreito, será um suicídio econômico para eles. Nós temos opções para lidar com isso, mas outros países também deveriam prestar atenção. Isso os afetaria economicamente muito mais que a nós", disse Rubio em junho, quando o Irã ameaçou fechar o estreito.

Qual é o impacto do fechamento do estreito?

O ex-chefe da agência de inteligência britânica MI6, Alex Younger, disse à BBC que o pior cenário possível em um conflito em curso entre Irã e Israel incluía um bloqueio do Estreito de Ormuz.

"Fechar o estreito seria, obviamente, um problema econômico enorme, considerando o efeito que isso teria sobre o preço do petróleo", afirmou.

Seria um "território desconhecido", segundo Bader Al-Saif, professor adjunto da Universidade de Kuwait e especialista em geopolítica da Península Arábica.

"Isso teria consequências diretas nos mercados mundiais, porque veríamos uma alta no preço do petróleo e uma reação bastante nervosa das bolsas diante do que está acontecendo", disse Al-Saif.

Naturalmente, também afetaria os países do Golfo, cujas economias dependem fortemente das exportações de energia.

A Arábia Saudita, por exemplo, usa o estreito para exportar cerca de 6 milhões de barris de petróleo bruto por dia, mais do que qualquer país vizinho, segundo dados da empresa de análise Vortexa.

Como o Irã pode fechar o estreito?

As normas das Nações Unidas permitem aos países exercer controle de até 12 milhas náuticas (cerca de 22,2 km) a partir de sua costa.

Isso significa que, em seu ponto mais estreito, Ormuz e suas rotas de navegação se encontram completamente dentro das águas territoriais de Irã e Omã.

Se o Irã tentasse bloquear os aproximadamente 3.000 navios que passam mensalmente pelo estreito, uma das formas mais eficazes de fazer isso, segundo especialistas, seria colocar minas navais usando lanchas rápidas de ataque e submarinos.

A marinha regular do Irã e a marinha do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica poderiam, em teoria, lançar ataques contra navios de guerra estrangeiros e embarcações comerciais.

Contudo, esses grandes navios militares poderiam, por sua vez, se tornar alvos fáceis para ataques aéreos dos Estados Unidos.

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Imagem satélite do Estreito de Ormuz (Arquivo 2017) Crédito: Getty Images

As lanchas rápidas do Irã geralmente estão armadas com mísseis antinavio, e o país também opera uma variedade de navios de superfície, embarcações e semissubmersíveis e submarinos.

Especialistas concordam que o Irã poderia bloquear o estreito temporariamente, mas muitos também acreditam que os Estados Unidos e seus aliados conseguiriam restabelecer rapidamente o tráfego marítimo por meios militares.

Os EUA já fizeram isso antes.

No final da década de 1980, durante a guerra entre Irã e Iraque, os ataques às instalações petroleiras escalaram até se transformarem em uma "guerra dos petroleiros", na qual ambos os países atacavam navios neutros para exercer pressão econômica.

Os petroleiros do Kuwait que transportavam petróleo iraquiano eram especialmente vulneráveis e, eventualmente, navios de guerra americanos começaram a escoltá-los pelo Golfo, no que se tornou a maior operação de comboios navais desde a Segunda Guerra Mundial.

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O líder supremo de Irã, aiatolá Ali Khamenei, foi morto no sábado durante ataques coordenados dos EUA e Israel Crédito: Getty Images

Especialistas alertam que o petróleo iraniano, essencial para os refinadores independentes chineses, normalmente passa pelo Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de metade das importações de petróleo da China.

A China, em particular, compra mais petróleo do Irã do que qualquer outro país: suas importações superaram os 1,8 milhão de barris por dia no mês passado, segundo dados da empresa de análises Vortexa.

A interrupção do trânsito, junto à retirada de seguradoras e à paralisação de envios de gás natural, ameaça impactar a economia chinesa em poucas semanas e provocar forte alta nos preços do petróleo no mercado global.

Outras importantes economias asiáticas, incluindo Índia, Japão e Coreia do Sul, também dependem fortemente do petróleo bruto que passa pelo estreito.

*Com informações de Adán Hancock, repórter de negócios da BBC, e Gavin Butler, do serviço persa da BBC.

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