Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 11:09
Em 1954, a empresa United Fruit Company (UFC) convenceu o presidente americano Dwight D. Eisenhower (1890-1969) a derrubar o presidente democraticamente eleito da Guatemala, Jacobo Árbenz (1913-1971).>
As ondas de choque reverberaram pela América Latina por décadas. Agora, especialistas buscam naquele golpe de Estado as raízes da "Doutrina Donroe", invocada pelo presidente americano Donald Trump para justificar a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro.>
O golpe na Guatemala contou com o apoio da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA, na sigla em inglês) e foi precipitado por uma poderosa multinacional americana, que ganhou a maior parte do seu dinheiro vendendo bananas.>
"A companhia era tão poderosa na Guatemala e nos países vizinhos que recebeu o apelido de 'polvo', pois seus tentáculos estavam por toda parte", conta Grace Livingstone, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.>
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Com sede em Boston, no Estado americano de Massachusetts, a UFC não tinha laços oficiais com o governo Eisenhower.>
Mas, quando Árbenz propôs a desapropriação e redistribuição de terras ainda não cultivadas em grandes fazendas, para combater a pobreza crônica da população, a empresa fez intenso lobby em Washington, usando os temores da Guerra Fria (1947-1991) para retratar a Guatemala como um país vulnerável à influência da União Soviética (1922-1991).>
"Árbenz iria pagar uma compensação bastante generosa — o dobro do preço pago pela United Fruit", explica Livingstone. "Mas a companhia... não estava satisfeita com o valor.">
Quando chegou ao poder, em 1950, Árbenz declarou que sua intenção era transformar a Guatemala, de uma sociedade feudal, para uma economia capitalista moderna. Mas, mesmo assim, Eisenhower concordou com a intervenção.>
A justificativa de Eisenhower era baseada na Doutrina Monroe.>
No início do século 19, o presidente americano James Monroe (1758-1831) declarou que o hemisfério ocidental deveria se libertar da influência das potências europeias.>
Sua declaração foi um alerta defensivo, para que os outros países ficassem de fora do que os Estados Unidos consideravam seus assuntos regionais.>
Mas, em 1904, o presidente Theodore Roosevelt (1858-1919) revisitou e atualizou aquela política, fazendo dela "uma justificativa explícita das intervenções militares dos Estados Unidos na região", segundo Livingstone.>
E a Doutrina Donroe de Trump também segue explicitamente esta linha, para justificar suas ameaças à Venezuela, Groenlândia e Irã.>
"Antes da captura de Maduro, ele anunciou a implementação do corolário de Trump, restabelecendo todas as justificativas doutrinárias para a intervenção americana no hemisfério que conhecíamos até então", explica Jon Lee Anderson, da revista The New Yorker.>
Esta "lógica de esferas" é "o centro da visão de Trump sobre a ordem mundial... e, em parte, é uma consequência da sua aversão de longa data ao globalismo, multilateralismo, formação de alianças e guerras eternas em países distantes", segundo o pesquisador Stewart Patrick, diretor do Programa de Instituições e Ordem Global da Fundação Carnegie para a Paz Internacional.>
Trump declarou no ano passado que o objetivo da nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos é "proteger o comércio, o território e os recursos que são fundamentais para a nossa segurança nacional".>
Desde então, ele enfatizou que a "dominância americana" é fundamental e que aplicará o máximo de pressão ideológica, psicológica e militar para proteger os interesses dos Estados Unidos.>
Na Venezuela e no Irã, esses interesses giram em torno do petróleo, segundo Anderson, e a ameaça de que a China tenha acesso a ele antes dos Estados Unidos.>
A Groenlândia também detém recursos preciosos. E Trump quer garantir esses recursos antes que os adversários de Washington tomem conta deles.>
Na Guatemala dos anos 1950, a questão era ideológica, aliada à rivalidade com a Rússia durante a Guerra Fria e às bananas. Mas, como as justificativas, as táticas permaneceram as mesmas.>
"Da mesma forma que observamos recentemente na Venezuela, houve uma concentração militar em torno da Guatemala", explica Livingstone.>
"Eisenhower anunciou o envio de dois submarinos para o sul, eles enviaram aviões bombardeiros para a vizinha Nicarágua e começaram a interceptar navios guatemaltecos nos mares em torno do país. Ou seja, há muitas semelhanças com a Venezuela.">
A CIA lançou folhetos sobre a Guatemala, alertando sobre uma enorme invasão. A agência usou desenhos para chegar à população, em grande parte analfabeta.>
Ela montou também uma rádio clandestina, que afirmava transmitir de dentro do país. Mas especialistas afirmam que seus sinais, na maioria das vezes, vinham de fora das fronteiras guatemaltecas. A emissora transmitia em espanhol e se chamava La Voz de la Liberación.>
"Na estação de rádio da CIA, eles afirmavam que milhares de pessoas estavam entrando para as forças mercenárias", segundo Livingstone. "Mas, quando eles cruzaram a fronteira, não houve levantes espontâneos.">
"Em apoio a essa suposta invasão, a CIA começou a bombardear locais estratégicos em toda a Guatemala e na própria capital. A agência chegou a lançar um bombardeio massivo sobre quartéis militares e reproduzir o som das bombas na estação de rádio. A intenção era desmoralizar as pessoas e o exército.">
O resultado foi que os líderes militares guatemaltecos, acreditando que não poderiam deter a invasão, pressionaram Árbenz a renunciar. E acabaram convencendo o presidente.>
De volta ao século 21, a Groenlândia (e, por extensão, a Dinamarca) foi objeto de ameaças diretas de Trump nas redes sociais. As postagens incluíram seus planos de anexar o território e impor medidas econômicas punitivas para quem apresentasse resistência.>
Paralelamente, no Irã, a pressão psicológica se intensificou, com ameaças de severas ações militares para forçar a obediência, instilar o medo e proteger os interesses americanos.>
"Uma armada massiva está se dirigindo ao Irã", postou Trump nas redes sociais.>
"Como na Venezuela, ela está pronta, disposta e capaz de cumprir rapidamente sua missão, com velocidade e violência, se for necessário.">
Poucas semanas após a queda de Árbenz, ele foi forçado a se exilar do país.>
"No aeroporto, o novo regime o forçou a ser revistado de cima a baixo, até as cuecas, frente ao escárnio da multidão", conta Livingstone. "Em seguida, ele foi colocado na aeronave.">
Mais de 70 anos depois, Maduro foi forçado a viajar para Nova York, depois de ser capturado pelas forças americanas.>
"Primeiramente, vimos as imagens do bombardeio de Caracas", relembra Anderson.>
"Em seguida, vimos Maduro algemado, acompanhado por militares e humilhado. Isso faz parte do padrão.">
Analistas como Mike Crawley, da TV pública canadense CBC News, destacam que a postura de Trump em relação à Groenlândia também se baseia na política visual.>
Anúncios nas redes sociais, visitas de Estado canceladas e imagens provocadoras reafirmam a dominância e reprimem a capacidade de ação de Estados menores. >
O argumento habitual de alguns apoiadores das intervenções americanas é que apenas ditadores e governantes que demonstrem desprezo pela democracia ou pela segurança dos Estados Unidos teriam algo a temer. Mas diversos observadores discordam.>
"A Guatemala mostra que os Estados Unidos estavam dispostos a derrubar um governo democraticamente eleito", segundo Livingstone. "E, desde que foi proclamada a Doutrina Monroe, os Estados Unidos intervieram na América Latina mais de 80 vezes.">
"Trump está reassumindo a doutrina na sua forma mais aguda", afirma ele.>
Mas os eventos que se seguiram à intervenção dos Estados Unidos na Guatemala podem ser um motivo de preocupação para o presidente americano.>
Após a queda do presidente Árbenz, seguiram-se décadas de violência e instabilidade no país.>
Governos autoritários (e, mais tarde, cartéis de drogas) exploraram o vazio de poder para estabelecer profunda presença e levar narcóticos e refugiados desesperados através das fronteiras dos Estados Unidos.>
Observadores afirmam que este fato gerou uma ameaça de longo prazo aos interesses americanos, que foi maior que a reforma agrária ou os temores de influência comunista, utilizados para justificar a intervenção na Guatemala em 1954.>
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