Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 12:09
Você lava o frango antes de cozinhar? Essa é uma pergunta que provoca debates acalorados nas redes sociais.>
As orientações oficiais de segurança alimentar adotadas em grande parte do mundo ocidental são claras: não se deve lavar frango cru, pois a prática espalha bactérias nocivas.>
Mas, para muitos cozinheiros ao redor do mundo, lavar o frango é uma tradição cultural antiga, vinculada a conceitos de limpeza e cuidado.>
Alguns, como a chef de TV e autora jamaicana April Jackson, gostam de estimular a controvérsia nas redes.>
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"Eu deliberadamente incluo cenas minhas lavando frango em alguns vídeos porque sei que é um tema polêmico", disse. "As pessoas dizem que eu não deveria lavá-lo em uma tigela ou na pia; algumas afirmam que isso é nojento, que é um comportamento sujo.">
Outros, porém, acreditam que comer frango não lavado é anti-higiênico.>
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A criadora de conteúdo Fadwa Hilili, que publicou na rede social TikTok um vídeo mostrando o método de dez etapas de sua mãe marroquina para lavar frango, disse que gosta de ler os comentários de pessoas que defendem esse ponto de vista nas redes sociais.>
"Elas dizem coisas como 'é por isso que você não come na casa de outras pessoas nem em comida compartilhada no trabalho'", afirmou.>
Essa desconfiança em relação ao frango não lavado é comum em muitos lares da Ásia, do Caribe, da América do Sul, da África e de algumas culturas mediterrâneas.>
Mas o que a ciência diz? A BBC World Service foi a um laboratório de ciência dos alimentos para descobrir.>
O frango cru contém as bactérias Campylobacter e Salmonella, causadoras de intoxicação alimentar.>
"Quando você lava frango na cozinha, cria microgotículas que podem causar doenças", disse Kimon-Andreas Karatzas, professor associado de microbiologia de alimentos da Universidade de Reading (Reino Unido).>
Essas gotículas podem espalhar bactérias invisíveis em abundância ao redor da pia, das bancadas e sobre qualquer alimento próximo.>
Para demonstrar, Karatzas conduziu um experimento: aplicou um produto químico a um frango cru que permitia visualizar as bactérias sob luz ultravioleta. Em seguida, ele lavou o frango sob a torneira por menos de dez segundos, e a água que atingiu a carne respingou por toda a pia.>
A olho nu, os respingos pareciam apenas gotas de água que poderiam ser facilmente removidas, mas a luz ultravioleta revelou a contaminação cruzada. Gotículas contendo bactérias haviam se espalhado pela bancada, pelo jaleco do professor, pela câmera da equipe e, de forma crucial, sobre a alface e a cenoura que seriam consumidas cruas.>
Isso significa que, mesmo que o frango seja devidamente cozido, ainda é possível adoecer se outros alimentos forem colocados nas superfícies contaminadas.>
"Essa é a forma mais comum de ficarmos doentes por Salmonella e Campylobacter — quando ocorre a contaminação cruzada de algo que será consumido cru com microrganismos de algo que será cozido", disse Karatzas.>
A bactéria Campylobacter é uma das quatro principais causas globais de doenças diarreicas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), e a causa bacteriana mais comum de gastroenterite, condição que provoca diarreia e vômitos, sobretudo em crianças pequenas.>
Ela é mais perigosa do que a Salmonella, em parte porque programas de vacinação reduziram os níveis de Salmonella na avicultura, mas não existe vacina contra a Campylobacter.>
Ambas as bactérias vivem naturalmente no trato intestinal das galinhas. Durante o abate e o processamento, o material do intestino pode contaminar a superfície da carne.>
"Você deve sempre tratar o frango como se ele tivesse Campylobacter e Salmonella", disse Karatzas. "A maioria das galinhas no mundo é criada solta. Elas não são produzidas em um sistema muito rigoroso e, por isso, tendem a ter mais Salmonella e mais Campylobacter.">
A quantidade de Campylobacter necessária para provocar infecção é mínima: apenas uma gotícula pode conter cerca de 10 trilhões da bactéria, mais de mil vezes o número de seres humanos no planeta.>
"Se houver apenas uma pequena gota de Campylobacter ou de suco do frango sobre alguma superfície, isso já será suficiente para deixá-lo doente com muita facilidade", afirma Karatzas.>
Apenas no Reino Unido, mais de 250 mil pessoas são infectadas a cada ano, segundo a Food Standards Agency (FSA).>
Os sintomas geralmente surgem entre dois e cinco dias após a infecção, e os mais comuns incluem diarreia, muitas vezes com sangue, dor abdominal, febre, dor de cabeça, náusea e vômitos.>
Pessoas com mais de 60 anos e crianças são mais vulneráveis a quadros graves, e alguns pacientes podem apresentar sintomas graves ou persistentes e necessitar de tratamento com antibióticos. Em alguns casos, a infecção pode evoluir para doenças como síndrome do intestino irritável, artrite e, raramente, a um tipo de paralisia conhecida como síndrome de Guillain-Barré.>
Ainda assim, as pessoas raramente associam doenças gastrointestinais ao preparo do frango. Especialistas afirmam que muitas infecções nunca são formalmente diagnosticadas, e as estatísticas incluem apenas os casos em que o paciente adoeceu a ponto de procurar atendimento médico e fornecer uma amostra para análise.>
"Estamos olhando apenas para a ponta do iceberg, e é possível que o número real de casos seja dez vezes maior", disse Karatzas.>
Em 2024, um estudo publicado na revista científicaFood Control constatou que 96% dos entrevistados em oito países do Sudeste Asiático lavavam o frango antes do preparo. Na última década, pesquisas nos Estados Unidos, na Europa e na Austrália mostraram que entre 39% e 70% dos consumidores também adotavam essa prática.>
Em grande parte do mundo ocidental, o frango é processado em condições industriais altamente regulamentadas e já é vendido limpo. >
No entanto, em muitas regiões, a carne costuma ser abatida localmente, às vezes em mercados a céu aberto, onde o acesso a água corrente limpa e a superfícies higiênicas pode variar. Nesses casos, lavar o frango é visto como uma etapa necessária.>
Mas para outras pessoas a prática não se resume à higiene, envolve identidade, criação e um vínculo com o lugar de origem.>
Quando a chef Jackson se mudou para o Reino Unido e viu embalagens alertando para que não se lavasse frango cru, ficou surpresa a ponto de enviar uma foto à família, na Jamaica.>
Ela disse que entende a explicação científica, mas afirma: "Quando lavamos o frango, dá para ver que a água fica muito turva. Ela fica muito suja, e culturalmente não queremos comer isso".>
Muitos argumentam que o que importa é como o frango é lavado. Ambos os chefs com quem a BBC conversou lavam o frango em uma tigela, muitas vezes com vinagre ou limão, e depois limpam e desinfetam completamente a área.>
"Minha mãe limpa completamente a pia com água quente e sabão e depois ainda aplica um spray antibacteriano", disse a criadora de conteúdo Hilili.>
Aqueles que defendem com veemência a lavagem do frango afirmam que a orientação geral para não lavar a carne reforça o que consideram uma inconsistência maior nas recomendações de segurança alimentar.>
"Quando você lava, por exemplo, uma tábua de corte que teve frango, o mesmo risco existe", disse Jackson.>
"Na culinária francesa, você coloca o frango em salmoura antes de cozinhar, o que significa deixá-lo de molho em água salgada", acrescentou. "E nunca ouvi ninguém dizer que não se deve fazer isso. Mas o processo é basicamente o mesmo.">
Embora Karatzas concorde que lavar o frango em uma tigela pode ser mais seguro, ele afirma que a prática ainda envolve riscos e que a lavagem com limão ou vinagre não reduz de forma confiável os altos níveis de bactérias.>
"A única forma de eliminar bactérias é cozinhar [o alimento], e a maior parte desse frango já foi lavada pela empresa que o vende. Portanto, não há necessidade real para repetir o processo", disse.>
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