Publicado em 21 de setembro de 2025 às 09:33
Enquanto minúsculos pedaços de plástico invadem nossos oceanos, campos naturais de algas marinhas recolhem microplásticos e os lançam de volta para as praias, na forma de "bolas de Netuno".>
As bolas de Netuno (Posidonia oceanica) são emaranhados de algas marinhas redondos e compactos, encontrados principalmente no mar Mediterrâneo.>
As Posidonia são usadas há séculos para embalagem, roupas de cama e até para o isolamento de residências.>
Mas pesquisadores da Universidade de Barcelona, na Espanha, descobriram que essas bolas esponjosas estão realizando espontaneamente outra função. Elas estão retirando plástico do fundo do mar.>
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No oceano, os microplásticos (partículas de plástico de menos de 5 mm) costumam se originar de produtos como sacos plásticos, garrafas e redes de pesca. Estes fragmentos de plástico podem prejudicar nossa saúde, afetando desde os ossos e as funções cerebrais até os hormônios.>
A maior parte da poluição de plástico tem origem em terra firme, mas o oceano (incluindo os prados de algas marinhas) age como escoadouro.>
As folhas de Posidonia tornam o fluxo da água mais lento, segundo a principal autora do estudo espanhol, Anna Sánchez-Vidal.>
"Existem menos correntes nos pastos de algas marinhas", explica ela. "Por isso, elas capturam carbono e sedimentos e agem como refúgio para a biodiversidade.">
Mas esses campos subaquáticos em movimento também acumulam concentrações mais altas de plástico.>
Todos os anos, 1,15 a 2,41 milhões de toneladas de plástico fluem dos rios para o mar. E, se um rio entrar no mar em um local onde houver crescimento de Posidonia, parte daquele plástico fica preso e se acumula.>
Mas nem todo o plástico fica retido nos campos de Posidonia.>
Todos os anos, no outono, a Posidonia perde suas folhas. Estes cordões fibrosos, ricos em lignina (um resistente polímero orgânico), se entrelaçam, formando densas bolas.>
"À medida que se movimentam, elas transportam plástico entrelaçado nas fibras", afirma Sánchez-Vidal.>
Os pesquisadores estimaram que os campos de algas marinhas podem capturar cerca de 900 milhões de fragmentos de plástico no Mediterrâneo todos os anos.>
Em 2018 e 2019, a equipe de Sánchez-Vidal examinou bolas de algas marinhas lançadas em quatro praias da ilha de Mallorca, na Espanha.>
No litoral de Sa Marina, Son Serra de Marina, Costa dels Pins e Es Peregons Petits, eles encontraram fragmentos de plástico em metade das amostras de folhas de algas marinhas soltas, somando até 600 fragmentos por kg de folhas.>
Apenas 17% das bolas de Netuno continham plástico, mas, quando era encontrado, o material estava retido em alta quantidade, atingindo cerca de 1,5 mil pedaços por kg. E as bolas mais rígidas capturavam o plástico de forma mais eficaz.>
"Depois da publicação do nosso estudo, muitas pessoas começaram a me enviar [fotografias de] bolas de Netuno monstruosas", conta Sánchez-Vidal. São bolas que capturaram pedaços de plástico maiores e mais visíveis.>
"Às vezes, elas continham absorventes higiênicos internos e externos, lenços umedecidos — objetos com muita celulose, que, por isso, afundam", segundo ela.>
"Não, eu realmente não quero receber essas fotos de todo mundo", brinca ela.>
Mares turbulentos, particularmente durante tempestades e mudanças da maré, podem deslocar as bolas de Netuno do fundo do oceano, segundo Sánchez-Vidal. Algumas bolas mergulham em águas mais profundas, enquanto outras são levadas para o litoral.>
"Dizemos que é uma forma que o mar tem de devolver para nós o lixo que nunca deveria estar no leito do oceano", explica Sánchez-Vidal.>
Mas a pesquisadora ressalta que as bolas de Netuno não são uma saída para o problema do plástico nos oceanos. "Nunca consideramos as bolas como uma solução, nem como uma forma de limpar o lixo do mar.">
Ela pede a qualquer pessoa que encontrar bolas de Netuno que as deixe onde elas estão, na praia ou no oceano.>
"As bolas trazem umidade e nutrientes para a praia", explica ela. "Se as retirarmos dali, estamos destruindo este ecossistema emergente da praia.">
A descoberta surgiu em uma época em que as algas marinhas sofrem declínio em todo o mundo.>
Um estudo concluiu que a área global coberta pelas algas marinhas diminuiu em 29% desde o final do século 19. As algas marinhas sofrem com a má qualidade da água, desenvolvimento da linha costeira, espécies invasoras e o aumento das temperaturas dos oceanos e do nível do mar.>
No leste do Mediterrâneo, a Posidonia oceanica enfrenta uma ameaça constante e cada vez maior das ondas de calor e da poluição industrial. E uma espécie australiana relacionada, Posidonia australis, também está em declínio, apesar dos esforços de conservação.>
Mas, no Mediterrâneo, existem iniciativas locais que correm para recuperar as algas, como a Floresta Marinha da Red Eléctrica na baía de Pollença, na Espanha, e o projeto de ciência cidadã Jardineiros de Posidonia, na Sicília (Itália) e em Malta.>
Os campos de algas marinhas fornecem serviços vitais para o ecossistema, melhorando a qualidade da água, absorvendo dióxido de carbono, protegendo o litoral e servindo de berçário e refúgio para espécies marinhas.>
"Mas plantar campos de algas marinhas em toda parte para agir como filtros de plástico também não é uma solução", alerta Sánchez-Vidal.>
Ela orienta que a saída real está na fonte do problema.>
"Precisamos simplesmente evitar que o plástico entre no mar e isso significa reduzir a sua produção.">
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Earth.>
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