Publicado em 4 de março de 2026 às 09:08
O presidente americano, Donald Trump, anunciou que os Estados Unidos cortarão o comércio com a Espanha, depois que o premiê espanhol, Pedro Sánchez, se recusou a autorizar o uso de bases militares americanas em território espanhol para ataques contra o Irã.>
"A Espanha tem sido terrível", declarou Trump. "Vamos suspender todo o comércio com a Espanha. Não queremos ter nada a ver com a Espanha.">
Após as declarações de Trump na terça-feira (3/3), o governo espanhol afirmou que, se o governo americano quiser mudar sua relação comercial com a Espanha, "deverá respeitar a autonomia das empresas privadas, a legalidade internacional e os acordos bilaterais entre a União Europeia e os EUA".>
O governo de Sánchez afirmou que a Espanha é "um membro fundamental da Otan [Organização do Tratado do Atlântico Norte]" e que cumpre seus compromissos, contribuindo "de forma destacada" para a defesa do território europeu.>
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"Também é uma potência exportadora da União Europeia e um parceiro comercial confiável de 195 países do mundo, entre eles os EUA, com quem mantemos uma relação comercial histórica e mutuamente benéfica", acrescentou.>
Na quarta-feira (4/3), em pronunciamento, Sánchez afirmou que a posição do governo pode ser resumida nas palavras "não à guerra".>
Ele também pediu que os "erros do passado" não se repitam, em referência à invasão do Iraque em 2003, que, segundo ele, não alcançou seus objetivos, gerou insegurança e piorou a vida de muitas pessoas.>
Sánchez afirmou ainda que os ataques do Irã podem ter impacto econômico semelhante para milhões de pessoas e disse que o governo estuda medidas para enfrentar essa situação.>
Os EUA mantêm duas bases na Espanha: a base aérea de Morón de la Frontera e a base naval de Rota, ambas na Andaluzia, no sul do país, onde estão cerca de 8 mil militares.>
O governo espanhol afirmou que a ofensiva contra o Irã não está prevista no acordo que regula a cooperação militar entre os dois países e, por isso, não autorizou o uso das bases americanas.>
"As bases não são e nem serão usadas para nada que não esteja dentro do acordo [de Cooperação para a Defesa] e para nada que não esteja de acordo com a Carta das Nações Unidas", afirmou na segunda-feira (2/3) o ministro das Relações Exteriores da Espanha, José Manuel Albares.>
A ministra da Defesa da Espanha, Margarita Robles, também ressaltou que esse tipo de "ação" exige "amparo internacional" e que a ofensiva contra o Irã carece "desse marco de legalidade internacional", já que os EUA e Israel "estão atuando unilateralmente, sem o apoio de uma resolução internacional".>
Sánchez afirmou no domingo (1º/3) que os "dois países atacaram o Irã unilateralmente, sem contar com a comunidade internacional".>
No dia seguinte, veio à público a informação de que os EUA transferiram cerca de dez aviões de reabastecimento em voo KC-135 Stratotanker das bases na Espanha para outras instalações militares na Europa.>
Os KC-135 são essenciais para sustentar operações aéreas de longa distância, pois permitem reabastecer caças e bombardeiros em pleno voo.>
As bases militares americanas na Espanha têm papel fundamental por sua posição estratégica, no sul da península Ibérica.>
A base de Morón, em Sevilha, é uma base aérea, enquanto a base naval de Rota é uma instalação conjunta na qual a Marinha dos EUA opera ao lado da Otan e das forças espanholas.>
A origem dessas bases está em um acordo entre os dois países conhecido como Pactos de Madri, firmado em 1953 entre o então presidente americano, Dwight D. Eisenhower (1890-1969), e o ditador Francisco Franco (1892-1975).>
Desde então, os acordos vêm sendo renovados.>
É precisamente o Convênio Bilateral de Cooperação para a Defesa de 1988 que exige a autorização da Espanha para que os EUA possam usar as bases em determinadas operações.>
Isso também ocorre em missões de trânsito e reabastecimento de aeronaves: os voos precisam se enquadrar nos objetivos do acordo e contar com a correspondente autorização espanhola.>
Sánchez definiu a intervenção militar dos EUA e de Israel no Irã como "injustificada, perigosa e fora do direito internacional", embora tenha ressaltado que isso não é incompatível com "ser contra um regime odioso como é o regime iraniano".>
Ana Salazar, cientista política e presidente da Associação de Comunicação Política da Espanha (Acop, na sigla em espanhol), explica que, nesse sentido, essa é "a interpretação jurídica feita pelo Estado espanhol, segundo a qual uma operação militar que não conta com o respaldo explícito do Conselho de Segurança das Nações Unidas e que não se enquadra claramente em um marco defensivo compartilhado exige uma autorização expressa que, neste caso, não foi concedida".>
Segundo Salazar, no caso dos acordos bilaterais, cada país da União Europeia tem condições jurídicas e políticas próprias, "e por isso estamos vendo respostas diferentes".>
"Não se trata de uma fratura europeia, mas da consequência de arquiteturas legais distintas.">
A Espanha tem sido o país da União Europeia que adotou a posição mais dura contra a ofensiva dos EUA e de Israel no Irã.>
Ainda assim, o governo de Sánchez convocou para consultas o embaixador iraniano na Espanha para lhe transmitir a "condenação a todos os ataques que estão sendo realizados contra praticamente todos os países do Oriente Médio", medida que não foi adotada em relação aos representantes dos EUA e de Israel.>
Para além das questões jurídicas, alguns analistas acreditam que há outros motivos por trás da posição do governo espanhol.>
"O primeiro é porque pode fazê-lo. Não é um motivo menor", explica Javier Martín Merchán, professor de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade Pontifícia de Comillas (Espanha).>
Martín também aponta fatores de política interna. "Nem ao governo nem a seus aliados parlamentares interessa adotar uma postura de conivência com o governo Trump. Ao mesmo tempo, a sociedade espanhola em geral tende a ser contrária a qualquer decisão que implique participação direta ou indireta em conflitos bélicos, algo relativamente transversal às ideologias.">
Este não é o primeiro desentendimento entre Sánchez e Trump desde que o republicano voltou à Casa Branca no ano passado.>
Em junho, o presidente americano ameaçou adotar represálias comerciais contra a Espanha após o governo de Sánchez se recusar a aumentar seus gastos em defesa para 5% do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todas as riquezas produzidas), como fizeram os demais países da Otan.>
No domingo passado (1º/3), quando os ataques ao Irã já haviam começado, Sánchez afirmou: "Viemos alertando sobre as consequências do perigoso precedente de recorrer sistematicamente ao uso da força além e fora da legalidade internacional (…). Denunciando o atropelo dos direitos humanos, como em Gaza, na Cisjordânia… A violação do direito internacional que ocorreu na Venezuela…".>
"Em suma, estamos nos precipitando de maneira muito perigosa para um mundo cada vez mais instável, mais inseguro, mais belicoso e, portanto, mais injusto para o conjunto das pessoas", prosseguiu.>
Apesar disso, Salazar, da Acop, avalia que, "no plano interno, até agora a política internacional tem funcionado bastante bem para Sánchez, tanto no espaço parlamentar quanto no eleitoral".>
Por outro lado, Salazar considera que o cenário internacional frequentemente serviu a Sánchez como um "espaço de oportunidade para reforçar seu perfil multilateralista, se projetar como um ator relevante em Bruxelas e reforçar uma imagem de autonomia".>
Já Merchán, da Universidade Pontifícia de Comillas, avalia que, em um contexto em que "há um reordenamento da hegemonia americana e as relações internacionais são mais diversas, a Espanha pode se distanciar um pouco dos EUA sem que isso signifique um rompimento total com a Aliança Atlântica".>
Reportagem adicional Guy Hedgecoe>
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