Publicado em 29 de janeiro de 2026 às 11:09
Os Estados Unidos parecem prestes a atacar o Irã nos próximos dias.>
Embora os alvos potenciais sejam em grande parte previsíveis, o desfecho não é.>
Assim, se nenhum acordo de última hora for alcançado com o Irã e o presidente americano, Donald Trump, decidir ordenar um ataque das forças americanas, quais seriam os possíveis cenários?>
Aqui, as forças aéreas e navais dos EUA realizam ataques limitados e de precisão contra bases militares do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã e da unidade Basij, uma força paramilitar sob controle da Guarda Revolucionária, além de locais de lançamento e armazenamento de mísseis balísticos e de instalações do programa nuclear iraniano.>
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Um regime, já enfraquecido, seria derrubado e passaria, com o tempo, por uma transição para uma democracia genuína, permitindo que o Irã volte a se integrar ao restante do mundo.>
Esse é um cenário altamente otimista. As intervenções militares ocidentais no Iraque e na Líbia não resultaram em transições suaves para a democracia. Embora tenham encerrado ditaduras brutais em ambos os casos, elas deram início a anos de caos e derramamento de sangue.>
A Síria, que conduziu sua própria revolução e derrubou o presidente Bashar al-Assad sem apoio militar ocidental em 2024, tem obtido resultados melhores até o momento.>
Esse cenário poderia ser chamado, em linhas gerais, de "modelo venezuelano", no qual uma ação rápida e contundente dos EUA mantém o regime no poder, mas leva à moderação de suas políticas.>
No caso do Irã, isso significaria a sobrevivência da República Islâmica, o que não satisfaria parte da população iraniana, mas o país seria obrigado a reduzir o apoio a milícias violentas em todo o Oriente Médio, a encerrar ou limitar seus programas nucleares e de mísseis balísticos, além de aliviar a repressão a protestos internos.>
Novamente, trata-se de um cenário pouco provável.>
A liderança da República Islâmica permaneceu resistente a mudanças por 47 anos. Tudo indica que é incapaz de alterar seu rumo neste momento.>
Muitos consideram este o desfecho mais provável.>
Embora o regime do Irã seja claramente impopular entre muitos, e sucessivas ondas de protestos tenham enfraquecido o regime iraniano ao longo dos anos, ainda existe um vasto e influente aparato de segurança do Estado com interesse na manutenção do status quo.>
As principais razões pelas quais os protestos até agora não conseguiram derrubar o regime são a ausência de deserções significativas entre militares para o lado dos manifestantes e a disposição para permanecer no poder dos que detêm o controle de usar força e brutalidade sem restrições.>
Na confusão que se seguiria a eventuais ataques dos EUA, é possível que o Irã acabe governado por um forte regime militar, composto em grande parte por integrantes da Guarda Revolucionária.>
O Irã prometeu retaliar qualquer ataque dos EUA, afirmando que "seu dedo está no gatilho".>
Embora esteja claramente em desvantagem diante do poderio da Marinha e da Força Aérea americana, o Irã poderia reagir com seu arsenal de mísseis balísticos e drones, muitos deles escondidos em cavernas, no subsolo ou em montanhas remotas.>
Existem bases e instalações dos EUA espalhadas ao longo do lado árabe do Golfo, especialmente no Bahrein e no Catar, mas o Irã também poderia, se assim decidisse, atingir parte da infraestrutura crítica de nações que considerasse cúmplices de uma ofensiva americana, como a Jordânia.>
O devastador ataque com mísseis e drones contra instalações petroquímicas da Saudi Aramco, em 2019, atribuído a uma milícia apoiada pelo Irã no Iraque, mostrou aos sauditas o grau de vulnerabilidade do país diante de mísseis iranianos.>
Os vizinhos árabes do Irã no Golfo, todos aliados dos EUA, estão, compreensivelmente, apreensivos.>
Essa ameaça paira há muito tempo sobre o transporte marítimo global e o fornecimento de petróleo, desde a Guerra Irã-Iraque (1980-88), quando o Irã de fato instalou minas em rotas de navegação e navios caça-minas da Marinha Real britânica ajudaram a limpá-las.>
O estreito de Ormuz, entre Irã e Omã, é um ponto de gargalo crítico. Pela região passam, anualmente, cerca de 20% das exportações mundiais de gás natural liquefeito (GNL) e entre 20% e 25% do petróleo e derivados petrolíferos.>
O Irã já realizou exercícios para a rápida implantação de minas marítimas. Caso colocasse essa capacidade em prática, o impacto sobre o comércio mundial e os preços do petróleo seria inevitável.>
Um capitão da Marinha dos EUA a bordo de um navio de guerra no Golfo me disse certa vez que uma das ameaças do Irã que mais o preocupa é um "ataque enxame".>
Nesse tipo de ofensiva, o Irã lança simultaneamente um grande número de drones explosivos e embarcações torpedeiros rápidos contra um ou múltiplos alvos, de modo que nem mesmo as formidáveis defesas de curto alcance da Marinha dos EUA conseguem eliminar todos a tempo.>
A Marinha da Guarda Revolucionária substituiu há muito tempo a Marinha iraniana convencional no Golfo, cujos comandantes chegaram a ser treinados em Dartmouth (Reino Unido) na época do xá Mohammad Reza Pahlavi, que era aliado dos EUA e foi derrubado do poder em 1979 durante a Revolução Islâmica que deu início ao atual regime.>
As tripulações navais iranianas concentraram grande parte de seu treinamento em guerra não convencional, ou "assimétrica", buscando formas de superar ou contornar as vantagens tecnológicas de seu principal adversário, a Quinta Frota da Marinha dos EUA.>
O afundamento de um navio de guerra americano, acompanhado da possível captura de sobreviventes de sua tripulação, seria uma humilhação enorme para os EUA.>
Embora esse cenário seja considerado improvável, o destróier USS Cole, avaliado em bilhões de dólares, foi danificado por um ataque suicida da Al-Qaeda no porto de Aden (Iêmen) em 2000, que matou 17 marinheiros americanos.>
Antes disso, em 1987, um piloto de jato iraquiano disparou por engano dois mísseis Exocet contra o navio de guerra dos EUA USS Stark, matando 37 marinheiros.>
Esse é um risco muito real e uma das principais preocupações de países vizinhos como o Catar e a Arábia Saudita.>
Além da possibilidade de uma guerra civil, como vivenciada pela Síria, pelo Iêmen e pela Líbia, existe também o risco de que, em meio ao caos e à confusão, tensões étnicas transbordem para conflitos armados, à medida que curdos, balúchis e outras minorias busquem proteger seus próprios grupos diante de um vácuo de poder em escala nacional.>
Grande parte do Oriente Médio certamente ficaria satisfeita em ver o fim da República Islâmica, especialmente Israel, que já realizou golpes significativos contra os aliados do Irã na região e que teme uma ameaça existencial representada pelo programa nuclear iraniano.>
No entanto, ninguém quer ver o país mais populoso do Oriente Médio — cerca de 93 milhões de habitantes — mergulhar no caos, desencadeando uma crise humanitária e de refugiados.>
O maior perigo agora é que o presidente Trump, após mobilizar forças militares próximas às fronteiras iranianas, decida agir para não perder prestígio, dando início a uma guerra sem um desfecho claro e com consequências imprevisíveis e potencialmente danosas.>
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