Publicado em 19 de janeiro de 2026 às 08:11
"A Europa não será chantageada.">
Com essas palavras, a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, respondeu ao anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pretende impor tarifas adicionais a oito países europeus que se opõem ao plano americano de anexar a Groenlândia.>
"A paz mundial está em jogo! A China quer a Groenlândia e a Dinamarca não pode fazer nada a respeito", declarou Trump no sábado (17/1), na rede social Truth Social.>
Na postagem, o americano afirmou que os produtos importados da Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia estarão sujeitos a uma tarifa de 10% a partir de 1º de fevereiro.>
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A taxação subirá para 25% em 1º de junho e permanecerá nesse patamar até que as autoridades dinamarquesas concordem em vender a ilha ártica, disse o republicano.>
Trump fez o anúncio dias depois de os países sancionados enviarem uma missão militar à Groenlândia para reforçar a segurança do território.>
Embora os governos dos países afetados tenham iniciado contatos diplomáticos com o governo americano e expressado sua "disposição para dialogar com base nos princípios da soberania e da integridade territorial", alguns sinalizaram que estão se preparando para um confronto sem precedentes com Washington.>
E a prova disso é o pedido do presidente francês Emmanuel Macron, que solicitou aos demais presidentes da União Europeia (UE) a ativação do Instrumento contra a Coerção Econômica (ACI, na sigla em inglês), conhecido como a "bazuca comercial", em resposta à ameaça considerada "inaceitável" de Trump.>
O ACI foi aprovado pela UE em 2023 e é uma arma "dissuasiva" para a resolução de litígios comerciais, como explica o site do Parlamento Europeu.>
Além de procurar "dissuadir países terceiros de exercerem medidas coercivas contra os interesses da União", o instrumento "permite, em última instância, a aplicação de medidas retaliatórias".>
Quais são as medidas retaliatórias que ele prevê? O instrumento autoriza "a imposição de restrições comerciais, na forma, por exemplo, de tarifas mais altas, licenças de importação ou exportação, restrições ao comércio de serviços ou restrições ao acesso a investimento estrangeiro direto ou licitações públicas.">
Se o pedido francês for aprovado, a UE poderá não só impor tarifas adicionais às importações dos EUA, como também impedir que empresas americanas comprem ações de empresas de qualquer um dos seus 27 Estados-Membros, recebam financiamento público ou privado e participem em licitações para contratos públicos com os seus governos.>
Além disso, o ACI autoriza a UE a exigir "reparação" financeira do país que exercer coerção contra ela.>
O texto foi elaborado para desencorajar países terceiros de "tentarem pressionar a UE ou um Estado-Membro a tomar uma decisão específica, aplicando, ou ameaçando aplicar, medidas que afetem o comércio ou o investimento".>
"Este instrumento permite-nos reagir rapidamente à pressão de outros países", afirmou o eurodeputado alemão Bernd Lange após a aprovação da legislação.>
"Agora temos uma vasta gama de contramedidas, completando o conjunto de ferramentas defensivas à nossa disposição. Embora o objetivo principal seja a dissuasão, também poderemos agir, se necessário, para defender a soberania da União", acrescentou o legislador alemão.>
As autoridades da UE começaram a elaborar o ACI logo após o fim do primeiro mandato de Trump, período em que as relações comerciais transatlânticas sofreram vários reveses. No entanto, foi um incidente envolvendo a Lituânia em 2021 que finalmente impulsionou a iniciativa.>
Naquele ano, a China impôs restrições comerciais ao país báltico depois que suas autoridades anunciaram que melhorariam as relações comerciais com Taiwan, uma ilha que o gigante asiático considera uma "província rebelde" e busca anexar. >
"Poucos meses após o anúncio, empresas lituanas relataram dificuldades em renovar ou firmar contratos com empresas chinesas. Além disso, tiveram problemas com remessas não liberadas e com a recusa de pedidos de importação", observa o site do Parlamento Europeu.>
Na época, a UE justificou a aprovação do ACI argumentando que a "coerção" não está contemplada nos acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC) e, portanto, não pode ser resolvida por meio do sistema de solução de controvérsias da OMC.>
No ano passado, quando Trump lançou sua guerra tarifária global e atingiu a UE, a possibilidade de aplicar o instrumento foi explorada. No entanto, naquela ocasião, Bruxelas optou simplesmente por recorrer ao diálogo.>
Antes de solicitar a ativação do ACI, Macron já havia deixado clara sua insatisfação com o anúncio de Trump.>
"Nenhuma intimidação ou ameaça nos influenciará, nem na Ucrânia, nem na Groenlândia, nem em qualquer outro lugar do mundo", declarou ele.>
Além do presidente francês, outro líder europeu que se pronunciou sobre a chamada "bazuca comercial" da UE foi o primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, que reiterou no domingo (18/1) que o instrumento "está sobre a mesa".>
No entanto, em entrevista à emissora pública irlandesa, Martin defendeu que se esgotem primeiro todas as vias de diálogo.>
Outros líderes europeus, incluindo os de alguns dos países ameaçados por Trump, também defenderam a diplomacia antes de se prepararem para uma batalha comercial com os EUA.>
"Devemos ter muito cuidado para não entrarmos numa guerra comercial que saia do controle. Não acho que ninguém se beneficie disso", disse o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Stoke, à emissora norueguesa NRK.>
O comércio de bens e serviços entre a União Europeia e os EUA atingiu US$ 1,8 trilhão (R$ 9,7 trilhões) em 2023. >
Isso significa que, diariamente, bens e serviços no valor de US$ 5 bilhões atravessam o Atlântico entre a UE e os EUA, segundo a Comissão Europeia.>
Em termos de bens, a UE registrou um superávit de mais de US$ 170 bilhões, enquanto em termos de serviços, os EUA saíram vencedores, com quase US$ 120 bilhões, de acordo com os mesmos dados da União Europeia.>
Em julho passado, Washington e Bruxelas chegaram a um acordo. O primeiro acordo reduziu as tarifas de 25% para 15% em troca do compromisso de a União Europeia investir bilhões de dólares nos setores industrial e de defesa dos EUA.>
A possibilidade de congelamento deste acordo também está em discussão.>
Os embaixadores dos 27 países da UE realizaram uma reunião de emergência no domingo para analisar a situação e avaliar os próximos passos.>
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