Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 09:11
Desde o amanhecer, multidões de militares, autoridades governamentais e civis se enfileiraram ao longo do trajeto entre o aeroporto de Havana e o Ministério das Forças Armadas para receber, sob aplausos, o cortejo fúnebre com os restos mortais de 32 soldados cubanos mortos na Venezuela.>
Os líderes do país — de Raúl Castro ao presidente Miguel Díaz-Canel — estavam no aeroporto para receber as caixas com as cinzas dos seus "32 heróis falecidos".>
Na entrada do edifício do ministério, cada caixa estava coberta com uma bandeira cubana e colocada ao lado de uma fotografia de cada soldado ou oficial de inteligência, sob as palavras "honra e glória".>
Mas, apesar da pompa e das honras militares, foi um episódio que trouxe um choque de realidade para a Revolução Cubana.>
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Em primeiro lugar, acredita-se que tenha sido a maior perda de combatentes cubanos nas mãos das forças armadas dos EUA desde a invasão da Baía dos Porcos, em abril de 1961. O fato de que se passaram seis décadas e meia sem praticamente nenhum confronto armado comparável entre as tropas cubanas e americanas, seja durante a Guerra Fria ou depois dela, mostra como a situação é rara.>
Não é necessariamente surpreendente que os soldados da Delta Force, mais bem treinados e equipados, tenham saído praticamente ilesos, especialmente dada a sua reputação de elite dentro das forças armadas mais poderosas do mundo.>
Mas isso não é nenhum consolo para os familiares em luto, que colocaram as mãos nas caixas de madeira em Havana, em lágrimas.>
Além disso, nos dias que se seguiram à intervenção militar dos EUA na Venezuela e à destituição forçada de Nicolás Maduro do poder, o governo cubano foi obrigado a admitir algo que há muito negava: a própria existência de agentes da inteligência cubana nos corredores do poder em Caracas.>
Agora está claro, como muitos na Venezuela afirmavam há anos, que os cubanos estão presentes em todos os níveis do aparato de segurança do país e que os acordos bilaterais de inteligência eram uma parte crucial das relações entre Cuba e Venezuela.>
De forma resumida, o governo cubano compartilhou com seus parceiros venezuelanos seus anos de experiência sobre a melhor forma de manter um controle rígido do poder. As 32 pessoas mortas em solo venezuelano faziam parte dessa estratégia compartilhada.>
No entanto, após suas mortes, os cubanos sentem o terreno ceder sob seus pés. Um dia antes, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, conversou por telefone com o presidente Trump, e o americano a descreveu como "uma pessoa fantástica".>
Se voltássemos no tempo apenas três semanas, seria quase impensável ouvir tais elogios da mesma administração que descreveu seu antecessor como um governante de um regime inteiro de "narcoterroristas".>
Parece que os governos de Rodríguez e Trump estão encontrando um modus vivendi. Mas poucos no governo cubano parecem compreender ainda onde isso os levará ou qual será o destino de sua visão compartilhada de socialismo estatal com a Venezuela.>
Washington insiste que os dias da Revolução Cubana estão contados.>
No entanto, um dos membros da "geração histórica" discorda. Aos 88 anos, Victor Dreke é contemporâneo de Fidel Castro e Che Guevara e afirma que o atual conflito com os EUA tem ecos da invasão apoiada pela CIA na Baía dos Porcos, em abril de 1961.>
Ele liderou duas companhias de tropas cubanas naquele dia e argumenta que os cubanos ainda repeliriam qualquer nova tentativa:>
"Se os EUA tentarem invadir, vão mexer em um vespeiro", disse ele, citando Raúl Castro. "Eles nem vão perceber a chegada dos nossos combatentes, homens e mulheres.">
"Se os americanos pisarem em solo cubano, não será como a covarde emboscada que fizeram aos nossos combatentes na Venezuela", afirma. "Aqui, as coisas seriam muito diferentes.">
Nos últimos dias, a televisão estatal cubana mostrou imagens de reservistas civis recebendo treinamento militar das Forças Armadas cubanas.>
Na verdade, enfrentar as forças armadas dos EUA seria uma luta desigual. O ataque dos EUA à Venezuela teve, em parte, o objetivo de enfatizar esse ponto para a região.>
Os riscos para Cuba são particularmente elevados.>
A ilha está passando por apagões generalizados, que são ruins em Havana, mas muito piores nas províncias. A economia, abalada pelo embargo econômico dos EUA e pela má gestão do governo, está, na melhor das hipóteses, cambaleando. O combustível é escasso e o motor da economia, o turismo, nunca recuperou os níveis pré-pandêmicos.>
É nesse cenário já complexo que os cubanos estão tentando imaginar a perda quase total do apoio venezuelano. Para a maioria, parece um cenário sombrio.>
Mas o ex-comandante Victor Dreke está convencido de que Cuba já superou momentos difíceis antes e pode fazê-lo novamente com suficiente fervor revolucionário.>
Cuba não quer nenhum conflito com o governo Trump, ele insiste, e não vai procurar agravar as coisas com Washington.>
"Mas isso não significa que não estaremos prontos", acrescenta ele, desafiador.>
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