Publicado em 16 de janeiro de 2026 às 07:11
Entre brasileiros, a palavra mágica é transmitida de geração em geração.>
"Vou tomar um chopp e já volto", diz o Chefe de Polícia, personagem de O Império da Lei, peça satírica em três atos publicada pelo jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 1883.>
"Garçom, uma cerveja / Só tem chope", cantou a banda Blitz em Você não soube me amar, quase um século depois.>
A bebida citada no texto teatral do século 19 e no rock'n'roll do século 20 é a mesmíssima: cerveja não pasteurizada e tirada na hora, sob pressão.>
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As características variam: clara ou escura, com ou sem colarinho de espuma.>
Uma única regra não escrita, mas sagrada em qualquer botequim do território nacional, deve ser observada. O chope deve ser servido estupidamente gelado, com as quantidades certas de gelo e estupidez variando ao gosto do freguês.>
Associado a papo, futebol, samba e outras atividades correlatas, o chope disputa com a cerveja propriamente dita, sua irmã pasteurizada e engarrafada, o título de bebida nacional.>
No Centro do Rio, o Bar Amarelinho, espécie de ícone nacional da bebida, orgulha-se de servir "o chope mais gelado da Cinelândia".>
"O chope é nosso carro-chefe desde 1921", diz o gerente João Batista Alves Fernandes, 45 anos, em conversa com a BBC News Brasil por telefone. Cearense de Reriutaba, ele trabalha no bar há 23 anos.>
A fama do Amarelinho, segundo Fernandes, reside no emprego de uma serpentina manual de 200 metros de cobre, que permite a obtenção de um "colarinho cremoso".>
Diferentemente de outros bares tradicionais do Centro do Rio, a casa resistiu às obras do metrô na Cinelândia, na primeira metade dos anos 1970, e à pandemia do coronavírus no início dos anos 2020.>
O chope do Amarelinho atrai presidentes da República, governadores, parlamentares e artistas.>
O acompanhamento pode variar: frango à passarinha, filé mignon, carne de sol e aipim.>
A demanda atinge o pico de dezembro a março, quando a temperatura pode superar 40ºC na Cidade Maravilhosa.>
"No verão, as pessoas saem dos escritórios ao final do expediente e vêm bater papo e tomar chope", conta Fernandes.>
A produção e o consumo de chope no Brasil começaram a partir de 1808, quando a família real portuguesa se instalou no Rio, explica Carlo Bressiani, diretor da Escola Superior de Cerveja e Malte.>
"Dom João [então príncipe regente de Portugal] manda instalar as primeiras cervejarias na região da Serra Fluminense", afirma Bressiani, falando de Blumenau (SC) à BBC News Brasil por telefone.>
"O ambiente serrano era fundamental, uma vez que o calor na cidade do Rio tornava muito difícil controlar a fermentação.">
Na época, não existia diferença entre cerveja e chope.>
A pasteurização passou a ser empregada na indústria de bebidas somente a partir da segunda metade do século 19.>
Antes da adoção do processo, o produto podia ser armazenado por, no máximo, um mês.>
O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, que regulamenta a produção de bebidas, não faz distinção entre as variantes pasteurizada e não pasteurizada — ingredientes e processo de fabricação descritos pelas normas da pasta compreendem cerveja e chope, indistintamente.>
Segundo os dicionários Aurélio, Houaiss e Michaelis, o nome deriva da palavra alemã Schoppen, que pode ser traduzida como "copo (de cerveja)".>
Em alemão, porém, o termo designa o recipiente — que pode ser usado para beber cerveja ou vinho.>
Da mesma forma, em francês, a palavra chope quer dizer "caneca de cerveja", mas a ênfase recai sobre o tipo de vasilhame, não na bebida ou na quantidade.>
É nessa acepção de receptáculo, aliás, que o termo é empregado pela primeira vez na imprensa brasileira como substantivo comum.>
Na edição de 30 de outubro de 1875 da Gazeta de Notícias, uma relação de prêmios de um páreo de turfe informa: "1º [prêmio] um chopp de prata dourada com relevo; 2º [prêmio] um par de botões de ouro para punhos".>
Se a corte portuguesa difundiu o hábito de beber chope, a bebida permaneceu por muitos anos como artigo de luxo, acessível apenas às classes abastadas.>
Anos depois da Independência, a maior parte da cerveja consumida no Brasil era importada — e, portanto, cara demais para os brasileiros comuns.>
O preço elevado devia-se não apenas à inexistência de tecnologia e profissionais treinados, mas à carência de matérias-primas essenciais como o lúpulo.>
As flores femininas do lúpulo, conhecidas desde a Antiguidade, tiveram suas propriedades conservantes e antissépticas descritas pela primeira vez pela monja Hildegard von Bingen, a Santa Hildegarda da Igreja Católica, no século 12.>
Os primeiros cervejeiros brasileiros fracassaram nas tentativas de substituir o lúpulo por ervas nativas de diferentes regiões.>
A dependência do produto importado da Europa fez com que, quase um século mais tarde, muitas cervejarias brasileiras fechassem durante a Primeira Guerra Mundial.>
Fábricas de cerveja foram instaladas por migrantes alemães que passaram a afluir ao país a partir de 1824.>
Em 27 de outubro de 1836, um anúncio publicado no Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, referiu-se pela primeira vez à "cerveja brasileira" — um marco do início da produção industrial.>
Com a crescente urbanização e a consolidação do ramo de bebidas, o chope tornou-se centro de uma verdadeira subcultura que tem seu epicentro no Rio de Janeiro.>
Em outras capitais a bebida também desfruta de prestígio.>
Em São Paulo, é a principal atração da carta de bebidas do Bar Brahma, reduto boêmio encravado na simbólica esquina das avenidas Ipiranga e São João.>
Nos botequins do Centro e do Savassi, em Belo Horizonte, no circuito cervejeiro do São Francisco, em Curitiba, ou no eixo Pituba-Rio Vermelho-Dois de Julho-Barra, em Salvador, o chope é servido e sorvido com honras.>
Mas foram os cariocas que a elegeram como parte de um modo de vida que inclui bate-papo com amigos, convívio com vizinhos, paquera e torcida pelo time do coração.>
As primeiras cervejas brasileiras dificilmente agradariam ao paladar do consumidor contemporâneo.>
"Quanto mais você recua na história, maior é a contaminação presente na cerveja", afirma Bressiani, da Escola Superior de Cerveja e Malte.>
Na primeira metade do século 19, a bebida era mais ácida e avinagrada, e o controle microbiológico, inexistente.>
"A melhor cerveja já produzida é a cerveja de hoje", diz Bressiani.>
Sem pasteurização, o chope da atualidade aproxima-se, em termos de composição química, da antiga cerveja.>
Reside nesse detalhe, aliás, uma das chaves de seu sucesso junto ao público.A eliminação de microrganismos resultante do processo de pasteurização tem uma consequência do ponto de vista sensorial: a perda de sabor.>
"O chope sempre será mais saboroso do que a cerveja porque, em certa medida, é uma cerveja viva", explica Bressiani.>
Ironicamente, a refrigeração, necessária para conservação da bebida e que resulta na baixa temperatura tão apreciada pelos brasileiros, também compromete a degustação.>
Ao ser ingerido gelado, o líquido provoca vasocontrição, atenuando a percepção do sabor.>
Além disso, a refrigeração faz com que os aromas da bebida sejam mais solubilizados (conservados dentro da solução) e menos liberados no ar.>
Essa é a razão pela qual muitos brasileiros, ao consumir o produto no exterior, julgam-no mais perfumado.>
No hemisfério norte, a regra do "estupidamente gelado" não tem esse apelo.>
"Nessas regiões, o chope é consumido à temperatura ambiente como qualquer bebida comum, mesmo no verão", diz o diretor da ESCM.>
Ou seja, diferentemente da Europa, cerveja e chope são sobretudo bebidas refrescantes no Brasil.>
Nesse quesito, estão a salvo da concorrência dos destilados e de boa parte dos vinhos, que não combinam com baixas temperaturas.>
A partir da Segunda Guerra Mundial, o mercado cervejeiro no Brasil ampliou-se graças ao barateamento da produção.>
A estabilização da moeda nos anos 1990 e a fusão das gigantes Brahma e Antarctica no conglomerado Ambev na virada do século 21 tornaram a bebida mais acessível.>
Essa metamorfose abriu caminho para investimentos massivos em marketing, que fizeram da "propaganda de cerveja" um gênero privilegiado da publicidade brasileira.>
Hoje, o Brasil ocupa a terceira posição no mercado global de cerveja, atrás da China e dos Estados Unidos.>
Ainda assim, em termos de consumo anual per capita, o Brasil, com 211 milhões de habitantes, atinge 67 litros – pouco mais da metade da Chéquia, com 10,8 milhões de habitantes e 128 litros anuais.>
A realidade era muito diferente no final dos anos 1970, quando Evandro Mesquita compôs, em parceria com Ricardo Barreto, Guto e Zeca Mendigo, a mais célebre canção brasileira a fazer referência ao chope.>
O rock Você não soube me amar nasceu nessa época nas areias de Saquarema (RJ), o "Maracanã do surfe", segundo relata Evandro à BBC News Brasil.>
Com a formação da banda Blitz, que tinha Evandro, Márcia Bulcão e Fernanda Abreu nos vocais, surgiu a ideia do célebre diálogo em que um cliente pede "Garçom, uma cerveja" e o garçom responde "Só tem chope".>
Do sucesso avassalador nas rádios do Rio à gravação de um clipe para o programa Fantástico, da TV Globo, a Blitz fez história.>
"A gente não veio naquela onda de figurino preto, como era comum no rock'n'roll", reflete Evandro, falando à reportagem por telefone.>
A letra, segundo o compositor, é uma "radiografia do underground do Rio de Janeiro dessa época, sobre o que acontecia com o pessoal que não estava se encaixando nos modos de vida que ofereciam para a gente".>
"Chope e batata frita eram o cardápio da mesada, era o que dava para a gente oferecer à namorada, o mais simples. Nas mesas, era paixão, chope e batata frita", explica o compositor.>
A situação retratada na música não reflete, porém, os hábitos do próprio autor, adepto de um estilo de vida saudável e natural desde a juventude.>
A reportagem pergunta-lhe como reagiria ao ouvir de um garçom a informação contida em Você não soube me amar.>
"Eu diria: 'Então me dá uma limonada'.">
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