Publicado em 4 de dezembro de 2025 às 11:44
Em maio de 1997, Nelli Zhdanova entrou em um dos lugares mais radioativos do mundo: as ruínas abandonadas da central nuclear de Chernobyl, na Ucrânia. E descobriu que não estava sozinha.>
No teto, nas paredes e no interior dos condutores metálicos que protegem os cabos elétricos, o mofo preto havia se instalado em um local antes considerado prejudicial para a vida.>
Na ausência de seres humanos, ressurgiram os lobos e javalis nos campos e no bosque em torno da usina nuclear.>
Mas, ainda hoje, existem ali zonas específicas com níveis alarmantes de radiação, devido ao material expelido pelo reator ao explodir, em 1986.>
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Formado por diversos tipos de fungos, o mofo parecia fazer algo extraordinário. Ele não se desenvolveu ali simplesmente porque os trabalhadores da usina foram embora.>
Na verdade, Zhdanova já havia descoberto, em estudos anteriores do solo em volta de Chernobyl, a existência de fungos crescendo em direção às partículas radioativas que cobrem aquela região.>
Agora, ela descobriu que os fungos chegaram à fonte original da radiação: as salas no interior do edifício do reator que explodiu.>
Cada estudo levava Zhdanova a se aproximar mais e mais da radiação nociva. Mas seu trabalho revolucionou nossas ideias sobre como a radiação afeta a vida na Terra.>
Agora, sua descoberta oferece a esperança de limpar locais radioativos e até a possibilidade de proteger os astronautas contra a radiação durante suas viagens espaciais.>
Onze anos antes da visita de Zhdanova, um teste de segurança de rotina no reator 4 da usina nuclear de Chernobyl se transformou rapidamente no pior acidente nuclear da história.>
Uma série de erros de projeto e de operação do reator provocou uma enorme explosão, na madrugada de 26 de abril de 1986. O resultado foi uma única liberação massiva de radionuclídeos.>
O iodo radioativo foi uma das principais causas de morte nos primeiros dias e semanas após o acidente e, mais tarde, do aumento de casos de câncer.>
Em uma tentativa de reduzir o risco de envenenamento por radiação e complicações de saúde a longo prazo, foi estabelecida uma zona de exclusão de 30 km, também conhecida como "zona de isolamento", para manter as pessoas afastadas dos restos radioativos mais perigosos do reator 4.>
Mas, enquanto os seres humanos eram mantidos afastados, o mofo negro de Zhdanova colonizava lentamente a região.>
A pesquisa de Zhdanova indicou que, como as plantas que procuram a luz solar, as hifas fúngicas do mofo preto pareciam ser atraídas pela radiação ionizante.>
Mas o "radiotropismo", como chama Zhdanova, era um paradoxo. A radiação ionizante costuma ser muito mais potente que a luz solar. Sua descarga de partículas radioativas destrói o DNA e as proteínas, como balas perfurando carne viva.>
O dano causado pode desencadear mutações nocivas, destruir células e matar organismos.>
Além dos fungos aparentemente radiotrópicos, os estudos de Zhdanova encontraram 36 outras espécies de fungos comuns, mas com relação distante, crescendo em torno de Chernobyl.>
Nas duas décadas que se seguiram, seu trabalho pioneiro para identificar os fungos radiotrópicos chegaria até muito além da Ucrânia. Ele contribuiria para o conhecimento sobre uma possível nova base para a vida na Terra, que se desenvolveria graças à radiação e não à luz solar.>
Os estudos também levariam os cientistas da Nasa, a agência espacial americana, a considerar a possibilidade de cercar seus astronautas com paredes de fungos, como forma duradoura de suporte vital.>
No centro desta história, encontra-se um pigmento presente em larga escala na vida terrestre: a melanina.>
Esta molécula pode variar do preto até o marrom avermelhado. Ela determina as diferentes cores de pele e de cabelo das pessoas.>
Mas a melanina também é o motivo que leva as diferentes espécies de mofo que crescem em Chernobyl a terem coloração preta. Suas paredes celulares estavam repletas de melanina.>
Assim como a pele mais escura protege nossas células contra a radiação ultravioleta (UV), Zhdanova suspeitou que a melanina dos fungos age como escudo contra a radiação ionizante.>
Os fungos não foram os únicos a fazer uso das propriedades protetoras da melanina.>
Nos tanques em torno de Chernobyl, as rãs com maior concentração de melanina nas células e, portanto, de cor mais escura, conseguiram sobreviver e se reproduzir melhor, escurecendo paulatinamente a população local de rãs que vivia por ali.>
Durante uma guerra, um escudo pode proteger os soldados das flechas ao desviá-las do seu corpo. Mas a melanina não funciona desta forma.>
Ela não é uma superfície dura, nem lisa. A radiação, seja ela UV ou na forma de partículas radioativas, é absorvida pela sua estrutura desordenada e sua energia se dissipa, em vez de ser desviada.>
A melanina também é antioxidante, ou seja, é uma molécula que pode transformar os íons reativos produzidos pela radiação em matéria biológica e devolvê-los a um estado estável.>
Em 2007, a cientista nuclear Ekaterina Dadachova, da Faculdade de Medicina Albert Einstein de Nova York, nos Estados Unidos, colaborou com o trabalho de Zhdanova sobre os fungos de Chernobyl.>
Ela revelou que seu crescimento não era apenas direcional (radiotrópico), mas também aumentava na presença de radiação.>
Dadachova descobriu que os fungos melanizados, da mesma forma que os do reator de Chernobyl, crescem com rapidez 10% maior na presença de césio radioativo, em comparação com os mesmos fungos cultivados sem radiação.>
A cientista e sua equipe também concluíram que os fungos melanizados irradiados aparentemente usam a energia para impulsionar seu metabolismo. Em outras palavras, eles a empregam para crescer.>
Zhdanova já havia indicado que estes fungos talvez usassem a energia da radiação. Agora, a pesquisa de Dadachova aparentemente se baseava nesta ideia.>
Os fungos não crescem apenas em direção à radiação para obter calor ou alguma reação desconhecida entre a radiação e seu entorno, como Zhdanova havia sugerido.>
Dadachova acredita que os fungos se alimentem ativamente da energia da radiação. Ela chamou este processo de "radiossíntese" e a melanina foi fundamental para sua teoria.>
"A energia da radiação ionizante é cerca de um milhão de vezes maior que a energia da luz branca, utilizada na fotossíntese", afirma a cientista.>
"Portanto, é necessário um transdutor de energia muito poderoso, o que acreditamos que a melanina seja capaz de fazer: realizar a transdução da radiação ionizante, gerando níveis de energia que possam ser utilizados.">
A radiossíntese continua sendo apenas uma teoria. Ela só poderá ser demonstrada se for descoberto o mecanismo preciso existente entre a melanina e o metabolismo.>
Os cientistas precisariam encontrar o receptor exato, ou um trecho específico da intricada estrutura da melanina, que participa da transformação da radiação em energia para crescimento.>
Nos últimos anos, Dadachova e seus colegas começaram a identificar alguns dos processos e proteínas que poderiam explicar o aumento do crescimento dos fungos com a radiação ionizante.>
Nem todos os fungos melanizados demonstram tendência ao radiotropismo e crescimento positivo na presença de radiação.>
Um estudo de 2006, realizado por Zhdanova e seus colegas, descobriu que apenas nove das 47 espécies de fungos melanizados coletadas em Chernobyl cresceram em direção a uma fonte de césio radioativo (césio-137).>
Da mesma forma, em 2022, cientistas dos Laboratórios Nacionais Sandía, no Estado americano do Novo México, não encontraram diferenças de crescimento quando duas espécies de fungos (uma melanizada e outra não) foram expostas à radiação UV e césio-137.>
Mas, naquele mesmo ano, a mesma tendência de crescimento fúngico mediante exposição à radiação foi detectada no espaço.>
Diferentemente da desintegração radioativa detectada em Chernobyl, a chamada radiação cósmica galáctica é uma tempestade invisível de prótons carregados. Cada um deles viaja pelo universo quase à velocidade da luz.>
Originada na explosão de estrelas fora do nosso sistema solar, ela chega a atravessar o chumbo sem grandes dificuldades.>
Na Terra, nossa atmosfera nos protege dela em grande parte. Mas, para os astronautas que viajam para o espaço profundo, a radiação cósmica galáctica foi descrita como "o maior perigo" existente para a saúde humana.>
Nem mesmo essa radiação representou problema para as amostras de Cladosporium sphaerospermum, a mesma cepa encontrada por Zhdanova crescendo em Chernobyl, segundo um estudo que enviou esses fungos para a Estação Espacial Internacional em dezembro de 2018.>
"O que demonstramos é que elas crescem melhor no espaço", afirma Nils Averesch, bioquímico da Universidade da Flórida, nos Estados Unidos, um dos autores do estudo.>
Em comparação com as amostras de controle na Terra, os pesquisadores descobriram que os fungos expostos à radiação cósmica galáctica por 26 dias cresceram, em média, 1,21 vez mais rápido.>
Ainda assim, Averesch não está convencido de que isso ocorra porque C. sphaerospermum faria uso da radiação no espaço. Ele defende que o aumento dos níveis de crescimento também poderia ocorrer devido à gravidade zero, outro fator que os fungos não vivenciaram na Terra.>
Averesch está realizando experimentos com uma máquina de posicionamento aleatório, que simula a gravidade zero aqui na Terra para analisar estas duas possibilidades.>
Mas Averesch e seus colegas também testaram o potencial de proteção da melanina em C. sphaerospermum, colocando um sensor embaixo de uma amostra de fungos a bordo da Estação Espacial Internacional.>
Em comparação com as amostras sem fungos, a quantidade de radiação bloqueada aumentou à medida que os fungos cresciam e até uma mancha de mofo em uma placa de Petri parecia ser um escudo eficaz.>
"Considerando a camada comparativamente fina de biomassa, isso pode indicar grande capacidade de C. sphaerospermum de absorver a radiação especial no espectro medido", segundo os pesquisadores.>
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Averesch afirma que ainda é possível que os aparentes benefícios de radioproteção dos fungos se devam a outros componentes da vida biológica, não à melanina.>
A água, por exemplo, é uma molécula com grande número de prótons na sua estrutura (oito no oxigênio e um em cada hidrogênio). Ela é uma das melhores formas de se proteger contra os prótons que se deslocam pelo espaço — o equivalente astrobiológico a combater fogo com fogo.>
Ainda assim, as descobertas trouxeram perspectivas interessantes para solucionar o problema da vida no espaço.>
A China e os Estados Unidos pretendem construir uma base na Lua nas próximas décadas. Já a SpaceX, com sede no Texas (EUA), pretende lançar sua primeira missão para Marte no final de 2026, com seres humanos chegando ao planeta vermelho três a cinco anos depois.>
As pessoas que morarem nessas bases precisarão ser protegidas contra a radiação cósmica. Mas usar água ou polietileno como um casulo radioprotetor para essas bases pode ser pesado demais para a decolagem.>
O metal e o vidro apresentam um problema similar.>
A astrobióloga Lynn J. Rothschild, do Centro de Pesquisa Ames da Nasa, comparou o transporte desses materiais, para a construção de bases no espaço, com uma tartaruga carregando sua carapaça para toda parte.>
"É um plano confiável, mas com alto custo energético", declarou ela em 2020, em um comunicado da Nasa.>
Sua pesquisa gerou móveis e paredes à base de fungos, que poderão ser cultivados na Lua ou em Marte.>
Essa "micoarquitetura" não só reduziria os custos do lançamento, mas, se as conclusões de Dadachova e Averesch estiverem corretas, também poderá ser utilizada para formar um escudo contra a radiação — uma barreira autorregenerativa entre os seres humanos que viajam para o espaço e a tempestade de radiação cósmica galáctica no lado exterior.>
Assim como colonizaram um mundo abandonado em Chernobyl, talvez algum dia esses mesmos fungos pretos possam proteger nossos primeiros passos em novos mundos, localizados em outras partes do Sistema Solar.>
Alex Riley é um escritor de ciências premiado e autor do livro Super Natural: Como a Vida se Desenvolve em Lugares Impossíveis (em inglês). Ele está disponível no Instagram.>
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Innovation.>
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