Publicado em 24 de setembro de 2025 às 17:33
No começo deste mês, a influente revista americana Time produziu sua primeira lista das cem pessoas mais influentes no mundo da inteligência artificial (IA). >
Muitos dos nomes na lista são bastante conhecidos no mundo da tecnologia: Elon Musk (da Tesla e da xAI), Sam Altman (da OpenAI, criadora do ChatGPT), Mark Zuckerberg (da Meta), Jenson Huang (da NVidia) e Liang Wenfeng (do Deepseek), entre outros.>
Na lista também aparece o brasileiro Cristiano Amon, CEO da Qualcomm, empresa americana fabricante de chips que vem se destacando também por pesquisa no campo da AI.>
A lista é repleta de empresários e executivos que estão moldando esse campo que é hoje visto como o futuro da indústria da tecnologia. >
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A inteligência artificial é considerada uma ferramenta poderosa para ajudar a resolver diversos problemas crônicos da humanidade.>
E é vista também como uma tremenda oportunidade de negócios para aqueles visionários que conseguirem criar empresas pioneiras e disruptivas. >
A inteligência artificial catapultou a fabricante de chips NVidia ao posto de empresa mais valiosa do mundo hoje, com valor de mercado superior a US$ 4 trilhões. Outro pioneiro no setor, o fundador da OpenAI, Sam Altman, tornou-se bilionário.>
Outro nome que aparece na lista é da farmacêutica brasileira Ana Helena Ulbrich, moradora de Capão da Canoa, município do litoral norte do Rio Grande do Sul, que foi reconhecida pela Time pela ferramenta que ela e seu irmão, o cientista de dados Henrique Dias, criaram para resolver um problema do sistema de saúde brasileiro: reduzir o número de erros em prescrições médicas.>
Mas ao contrário de alguns outros nomes da lista e no setor de AI, Ulbrich e Dias não se tornaram bilionários — ou sequer milionários.>
Ao invés de uma startup, eles criaram um instituto sem fins lucrativos, a NoHarm, que cobra uma pequena taxa de hospitais privados para poder oferecer sua ferramenta gratuitamente aos hospitais públicos do Brasil.>
Sua pequena operação de 20 pessoas funciona ainda hoje dentro da Tecnopuc Startup — a incubadora de negócios da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), em Porto Alegre.>
"O caminho comum é criar uma empresa para ficar milionário. Nós nunca quisemos ser milionários. Não tínhamos essa necessidade ou essa vontade", disse Ulbrich em entrevista à BBC News Brasil.>
Em 2017, Ana Helena Ulbrich era farmacêutica do Grupo Hospitalar Conceição, a maior rede pública de hospitais da região Sul do país, com atendimento 100% pelo SUS. >
Sua função era fazer a avaliação da prescrição de remédios receitados aos pacientes.>
Quando um médico precisa administrar remédios a pacientes internados no hospital, ele envia a prescrição ao farmacêutico, que é um profissional especializado em analisar se os medicamentos são eficazes e seguros.>
Há inúmeros problemas que podem acontecer na administração de um remédio: por exemplo, a dose e a frequência podem estar erradas ou pode haver interações indesejadas do remédio indicado com outros medicamentos que o paciente já está tomando. >
Alguns pacientes são idosos, possuem comorbidades ou têm problemas específicos, como renais ou hepáticos — fatores que podem ser complicados com erros de prescrições.>
Em um mundo ideal, um farmacêutico precisaria olhar todo o prontuário do paciente — incluindo as anotações dos médicos e enfermeiros e os exames do paciente.>
Mas a prática do departamento de farmácia de um grande hospital brasileiro é muito diferente.>
"O trabalho de olhar prescrições era exaustivo. Eu tinha um minuto ou dois minutos para olhar a prescrição e já liberar o medicamento", conta Ulbrich.>
Na equipe em que ela trabalhava, com quatro pessoas, eles chegavam a avaliar 800 prescrições por dia.>
"Eu sempre me senti insegura se eu estava ou não olhando a prescrição de forma completa e com qualidade", conta.>
"A maior parte dos farmacêuticos não têm condições de olhar todas as informações no formato em que o trabalho está hoje.">
Nos almoços familiares de domingo, ela discutiu o problema com seu irmão, Henrique Dias, que estava fazendo doutorado em informática na PUC-RS. >
As conversas resultaram em um projeto de pesquisa para detecção de eventos adversos em prontuários de hospitais.>
E desse projeto surgiu o algoritmo que serviu como embrião do trabalho que eles desenvolvem até hoje. O algoritmo detecta prescrições de medicamentos fora do padrão e alerta farmacêuticos para erros.>
O trabalho foi publicado em uma revista científica, mas Ulbrich e Dias tinham ambições maiores: eles queriam desenvolver uma solução que facilitasse a vida de farmacêuticos nos hospitais.>
Em 2019, eles montaram um instituto sem fins-lucrativos chamado NoHarm — nome em inglês que significa "sem danos", contando com um dinheiro que ganharam do prêmio Lara, da gigante de tecnologia do Google.>
O trabalho começou no Hospital Santa Casa de Porto Alegre e envolveu não só o desenvolvimento do algoritmo, como também um sistema integrado ao banco de dados.>
A primeira prescrição médica da NoHarm foi analisada em março de 2020.>
O programa da NoHarm oferece soluções para diversos problemas comuns aos farmacêuticos. O sistema tem acesso a todas as informações do prontuário do paciente, como exames e comorbidades.>
O programa consegue identificar problemas de dose e frequência de medicamentos, analisa as interações com outros remédios que o paciente esteja tomando e consegue até mesmo analisar as anotações feitas por profissionais como médicos, enfermeiros, nutricionistas e fisioterapeutas.>
A NoHarm sugere planos de ação aos farmacêuticos sobre como lidar com eventuais problemas que surgem com a prescrição.>
Ulbrich ressalta que a NoHarm não substitui um farmacêutico. É sempre importante haver um olhar humano e treinado para tomada de decisões. Mas a ferramenta auxilia os profissionais a lidar com a quantidade enorme de informações que é necessária para analisar com qualidade uma prescrição médica.>
"A NoHarm é para suporte à decisão. Nós entendemos que a inteligência artificial, de forma ética, tem que ser assim. É uma forma de agilizar o processo de avaliação, e não de fazer o papel do profissional. Porque é muito arriscado botar no lugar do profissional uma ferramenta que faz tudo automaticamente.">
A realização do sonho de levar esse projeto adiante exigiu muito de ambos. Ulbrich e Dias seguiram com seus empregos — se dedicando apenas parcialmente ao projeto. >
A farmacêutica ainda precisou conciliar o desenvolvimento da NoHarm com o trabalho intenso no hospital nos meses da pandemia — e com sua rotina familiar, como mãe de dois filhos.>
A experiência na Santa Casa de Porto Alegre foi um sucesso. Ao usar a ferramenta da NoHarm, o hospital conseguiu — com a mesma equipe — aumentar em quatro vezes a quantidade de prescrições analisadas.>
Sem nenhuma verba para marketing, a ideia foi sendo difundida em conferências de hospitais da qual Ulbrich participou.>
A NoHarm hoje é usada por 200 hospitais no Brasil. Pelo seu sistema, passam mais de 5 milhões de prescrições por mês. A NoHarm afirma que mais de 2,5 milhões de pacientes foram beneficiados pelo sistema.>
O instituto segue aperfeiçoando o sistema com mais pesquisas.>
Em 2023, Ulbrich e Dias passaram a se dedicar integralmente à NoHarm. Tudo que a associação arrecada é usado para pagar salários e custos, e para reinvestir na sua tecnologia.>
A NoHarm segue captando recursos de editais de fundações privadas ou bancos como BNDES. Parte de sua receita vem de hospitais privados, que pagam para usar o sistema.>
Já hospitais do SUS têm acesso ao sistema de forma 100% gratuita.>
A gratuidade da ferramenta aos hospitais públicos brasileiros sempre foi um dos pontos fundamentais do projeto de Ulbrich e Dias.>
E é um dos motivos pelos quais eles montaram um instituto sem fins lucrativos, em vez de uma startup convencional.>
Os irmãos chegaram a conversar com investidores privados quando montaram a NoHarm — quando ainda estudavam como seria seu modelo de negócios.>
"Nós tivemos experiências ruins em relação a investidores. Antes de eles decidirem se investiriam, tivemos uma reunião e a conversa foi péssima. Nosso propósito era entregar a ferramenta gratuitamente ao SUS e isso não é interessante para nenhum investidor", conta Ulbrich.>
Outro ponto importante para os irmãos é que a ferramenta que eles desenvolverem é oferecida com código aberto — para que outras pessoas possam criar outras plataformas semelhantes.>
"O investidor está orientado para o lucro. E não tem nada de errado nisso. Mas nós não estamos orientados para o lucro. É preciso ter um 'fit' com o investidor. Se não tiver, não faz sentido. Nós não íamos sair do nosso emprego para criar um negócio que não nos faz bem.">
Ulbrich diz que a decisão de não receber aportes de investidores — que acabariam pressionando a startup para dar retornos financeiros — permitiu que a NoHarm crescesse organicamente no ritmo estabelecido pelos seus próprios criadores.>
O dinheiro obtido com prêmios e editais — que inclui fontes como o Google e a Amazon — deu a eles um grau de independência para seguirem seus próprios rumos — e eles não se arrependem dessa decisão.>
"Nós temos muito orgulho de ter decidido isso. Só se comprovou que a nossa decisão foi a melhor. Temos parceiros que apoiam e divulgam a NoHarm por causa dessa decisão. Eles veem que nós temos o propósito de melhorar o sistema de saúde, não o propósito do lucro.">
Um dos editais que a NoHarm venceu foi para receber recursos da Fundação Gates, dos bilionários Bill e Melinda Gates. >
Ulbrich acredita que essa distinção internacional contribuiu para que seu nome aparecesse na lista da Time de 100 pessoas mais influentes no mundo da inteligência artificial publicada neste mês.>
A inclusão da NoHarm na lista da Time trouxe ainda mais trabalho para Ulbrich.>
"Agitou bastante né?", ri a farmacêutica. Ela e o irmão vêm recebendo convites para palestras em países como EUA, Egito e Emirados Árabes.>
Ela conta que uma de suas maiores preocupações no uso da inteligência artificial é com ética.>
"A inteligência artificial precisa ser usada sempre para suporte a decisões [humanas] e ela precisa sempre ser explicando quais são as suas referências. Isso é o mais importante. ">
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