Publicado em 15 de março de 2026 às 13:36
"O que custa juntar três caras num laboratório e descobrir a cura da rinite?">
O que parecia ser um desabafo bem humorado de um usuário do X, virou uma dúvida real e instigante sobre uma doença que afeta até 40% da população mundial (ou cerca de 84 milhões de brasileiros).>
A rinite alérgica, quadro marcado por nariz entupido, espirros repetidos, coceira no rosto e dificuldade para respirar, costuma piorar no outono ou no inverno e está relacionada a alguns gatilhos do ambiente, como poeira, pelos de animais, ácaros e pólen.>
Embora o tratamento tenha evoluído bastante nas últimas duas ou três décadas, a verdade é que realmente não existe uma cura para a rinite — e muitos cientistas acreditam que nunca veremos uma solução definitiva para esse problema.>
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A seguir, você entende quais são geralmente as causas, por que é tão difícil falar em cura para essa doença e quais são as principais formas de controlar o quadro atualmente.>
O nariz funciona como um verdadeiro filtro do nosso sistema respiratório. Ele conta com diversas estruturas e mecanismos para barrar a entrada de partículas perigosas, que podem prejudicar o funcionamento dos pulmões.>
Vamos a um exemplo prático: imagine que um vírus tente invadir suas narinas. O organismo fará de tudo para expulsá-lo assim que possível, de modo a evitar problemas maiores.>
Nessa situação, o sistema de defesa desencadeia uma série de ações, chamadas genericamente de processo inflamatório, para aniquilar o invasor — é por isso que o nariz fica inchado, cheio de secreção e não para de espirrar. O muco é gerado como uma forma de englobar e expulsar o invasor.>
"O problema é que, na rinite alérgica, essa reação acontece diante de substâncias que não são nocivas", diferencia o otorrinolaringologista Márcio Salmito, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo.>
Ou seja: o indivíduo com essa condição inala partículas de um composto que causa uma alergia nele. Na rinite, os alérgenos mais comuns são ácaros (artrópodes microscópicos que vivem no colchão e no travesseiro), pelos de animais, pólen das plantas ou poeira.>
Esses compostos são suficientes para disparar uma resposta exagerada do sistema de defesa, que engatilha aquela série de reações típicas que descrevemos acima.>
"E todo esse processo costuma ser ainda pior no outono e no inverno, quando ficamos em ambientes fechados, em contato frequente com os alérgenos", diz a alergista Jane da Silva, que integra o Departamento Científico de Rinite da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).>
"Para completar, o próprio tempo seco dessas estações deixa a mucosa do nariz mais vulnerável, o que interfere na capacidade de filtragem", aponta a médica, que também é professora do Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Santa Catarina.>
Mas se a ciência já sabe em detalhes o que está por trás da rinite, por que ainda não existe uma cura para ela?>
O médico Antonio Condino, do Departamento de Imunologia do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, explica que aquela reação imunológica por trás da rinite é muito complexa e recruta diferentes tipos de células.>
"Um dos glóbulos brancos que está envolvido nesse processo é o mastócito, que libera uma substância chamada histamina", exemplifica. A tal da histamina, aliás, é uma das responsáveis por sintomas como a coceira e a vermelhidão.>
Outra célula de defesa envolvida é o basófilo, que libera substâncias químicas que contribuem no processo inflamatório.>
Ou seja: não há um alvo único que, ao ser desligado ou inibido, vai evitar definitivamente a crise de espirros e a dificuldade de respirar.>
Condino também ensina que a rinite é uma doença poligênica, que está relacionada com mutações em diversas partes do código genético humano.>
"Existem algumas enfermidades imunológicas que são monogênicas, causadas por alterações em um único gene. Nesses casos, fica mais fácil pensar em terapias gênicas capazes de lidar com o problema", diz.>
Com o avanço científico e tecnológico do momento, porém, não é possível "consertar" tantos genes por trás da rinite de uma só vez.>
Além dos entraves técnicos, não podemos ignorar também como é difícil criar um novo medicamento. Para ter ideia, o processo de desenvolver um novo remédio demora 12 anos e envolve um investimento médio de 2,5 bilhões de dólares, Como se não bastasse tudo isso, 90% das moléculas avaliadas pelos farmacêuticos não passam nos testes clínicos e nem chegam às farmácias.>
Ainda nessa seara, também devemos ter em mente que a rinite não costuma ser prioridade nos investimentos para as pesquisas, já que falamos de uma doença que não costuma levar a quadros graves ou com risco de morte.>
Mas o fato de a cura da rinite alérgica ser algo praticamente utópico nos dias de hoje não significa que os pacientes estão largados ao léu.>
Os tratamentos disponíveis, que avançaram significativamente nas últimas décadas, podem manter as crises sob controle na maioria das vezes, como você confere a seguir.>
Após o diagnóstico, o primeiro passo fundamental para controlar as crises de rinite é fazer algumas modificações em casa.>
"É preciso ventilar bem o quarto, fazer limpezas regulares, trocar lençóis uma vez por semana e evitar carpetes, tapetes, bichos de pelúcia e cortinas de pano", recomenda Silva.>
Vale também colocar o travesseiro e o colchão no sol de vez em quando e lavar roupas, cobertores e edredons que estão guardados no armário por muito tempo antes de utilizá-los.>
Todas essas atitudes têm um objetivo em comum: controlar o acúmulo das substâncias que causam alergia, como a poeira, os ácaros e os pelos de animais. Esse cuidado deve ser redobrado no quarto de dormir, já que passamos pelo menos um terço de nosso dia nesse ambiente.>
A faxina, claro, não se limita à casa: também é necessário lavar o nariz. "Fazer uma limpeza diária das narinas com soro fisiológico ajuda a eliminar impurezas e a hidratar a mucosa, o que previne irritações", complementa a alergista.>
Além do controle do ambiente, os médicos também costumam prescrever algumas medicações, a depender do grau da rinite e da frequência das crises.>
"Para pacientes que só têm rinite alérgica na primavera, por exemplo, podemos indicar remédios para aliviar os sintomas somente nessa época do ano", conta Salmito.>
Já para as situações em que a rinite é mais grave ou aparece em qualquer mês, não adianta apenas apagar o fogo. Nesses casos, os médicos tentam agir preventivamente.>
"Aqui, os anti-inflamatórios da classe dos corticóides podem ajudar", cita o otorrino.>
"A boa notícia é que essas drogas evoluíram muito nos últimos 20 anos e hoje temos opções aplicadas diretamente no nariz, que não são absorvidas pelo resto do corpo e provocam menos efeitos colaterais", completa.>
Uma terceira alternativa farmacológica para destravar a respiração envolve a imunoterapia.>
Em suma, esse tratamento é feito ao longo de três a cinco anos e oferece ao paciente doses crescentes da substância que provoca a reação alérgica nele.>
Se a pessoa tem um quadro de rinite causado por ácaros, por exemplo, os especialistas produzem injeções ou comprimidos com uma parcela mínima do agente que provoca o gatilho das crises. Essa quantidade vai aumentando passo a passo.>
"O objetivo é modificar aos poucos a resposta imunológica, de tal modo que a pessoa perca aquela sensibilidade que tinha quando era exposta ao alérgeno", desvenda Silva. É como se o corpo se acostumasse aos poucos e não reagisse tão mal àquela substância.>
A eficácia dessa opção, porém, varia de indivíduo para indivíduo. "Cerca de 30% dos pacientes têm uma resolução quase total do quadro que apresentam. Outros melhoram significativamente", calcula Salmito.>
"A perspectiva é que essa técnica evolua bastante nos próximos anos e aumente essa taxa de sucesso progressivamente", completa o especialista.>
Outro ponto negativo da imunoterapia está na acessibilidade: no Brasil, ela só está disponível em clínicas privadas e não faz parte da cobertura dos planos de saúde.>
No sistema público, só é possível encontrar alguns poucos serviços que oferecem a "vacina contra a rinite", ligadas a grupos de pesquisa e hospitais universitários.>
O controle do ambiente, os antialérgicos, os anti-inflamatórios e a própria "vacina" podem até não representar uma cura. >
Mas ao menos eles trazem uma grande possibilidade de controlar a rinite alérgica — e evitar as penosas temporadas de nariz entupido.>
*Esta reportagem foi publicada originalmente em 3 de maio de 2022.>
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