Publicado em 7 de março de 2026 às 12:10
Quando o assunto são outdoors, o centro de Haia, na Holanda, não é exatamente uma Times Square.>
Ainda assim, a cosmopolita capital política holandesa também tem suas telas brilhantes e abrigos de ônibus fortemente iluminados.>
Quando visitei Haia no final de 2024, os outdoors anunciavam alegremente diversos serviços e produtos coloridos nas semanas que antecediam o Natal. Um deles promovia viagens para praias ensolaradas a milhares de quilômetros de distância, nas ilhas holandesas do Caribe.>
Eu estava na cidade para cobrir as históricas audiências do Tribunal Penal Internacional para decidir se os países poderiam acionar uns aos outros em relação às mudanças climáticas.>
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Mas, quando voltei sete meses depois, para ouvir a decisão favorável da corte, notei uma sutil diferença naqueles anúncios. Não havia mais cartazes anunciando carros a diesel ou gasolina, nem cruzeiros ou voos para destinos distantes.>
A mudança é consequência da decisão tomada pela cidade em 2024, de proibir anúncios de produtos com alto consumo de carbono. Haia foi o primeiro lugar do mundo a adotar esta proibição por meio de uma lei local.>
Agora, ela é uma dentre dezenas de municípios de várias partes do mundo que decidiram proibir os anúncios de combustíveis fósseis, como o distrito de Saint-Gilles, na Bélgica; a capital da Suécia, Estocolmo; e, mais recentemente, a cidade italiana de Florença.>
Em janeiro de 2026, Amsterdã, na Holanda, se tornou a primeira capital do planeta a estabelecer a proibição em lei.>
"Como Cidade Internacional da Paz e da Justiça e importante centro das Nações Unidas, consideramos importante demonstrar que falamos sério ao lidar com a crise climática", declarou o vice-prefeito de Haia, Robert Barker.>
"Por isso, é realmente um tanto estranho se, em um espaço público, tivermos muitos anúncios de combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, dissermos para as pessoas que 'precisamos reduzi-los'.">
O setor publicitário é cada vez mais o foco das atenções globais, devido ao seu papel na promoção e normalização de atividades poluidoras e por desvirtuar seus impactos ao meio ambiente e à saúde, segundo um relatório do Instituto Grantham de Pesquisa sobre Mudanças Climáticas e o Meio Ambiente.>
Em um contundente discurso em Nova York, nos Estados Unidos, o secretário-geral da ONU, António Guterres, declarou em 2024 que a desinformação sobre o clima, particularmente por parte da indústria dos combustíveis fósseis, foi "auxiliado e incentivado pelas empresas de publicidade e relações públicas".>
Guterres pediu a todos os países do mundo que proíbam a publicidade da indústria de combustíveis fósseis.>
Sua convocação foi reforçada posteriormente por Maria Neira, diretora de saúde pública e clima da Organização Mundial da Saúde. Ela descreveu os combustíveis fósseis como "o novo cigarro".>
"Sabemos que a propaganda realmente é uma grande promotora do consumo insustentável", afirma Cassie Sutherland, diretora-gerente de redes e soluções climáticas da C40 Cities, uma rede de cerca de 100 prefeitos das principais cidades do mundo.>
"Os anunciantes não gastariam bilhões e mais bilhões de dólares todos os anos, se não estivessem influenciando o comportamento das pessoas", argumenta ela.>
De fato, um estudo científico de 2023 destinado a legisladores holandeses concluiu que a publicidade de combustíveis fósseis "normaliza e promove o comportamento insustentável", o que "prejudica ativamente as políticas climáticas".>
Nos últimos anos, surgiram diversas campanhas convocando as autoridades públicas a proibir este tipo de propaganda. Elas incluem a Adfree Cities, World Without Fossil Fuel Ads e Reclame Fossielvrij ("Publicidade livre de fósseis", em holandês). >
Algumas delas já tiveram sucesso, particularmente na Holanda.>
Em 2020, em resposta a uma carta de ativistas e grupos políticos, Amsterdã aprovou a primeira moção do mundo para pôr fim aos "excessos" da propaganda insustentável, como "viagens aéreas a preços baixos".>
A proibição recentemente aprovada pela cidade entra em vigor no dia 1º de maio. Ela vai além das normas impostas em Haia, restringindo a publicidade de carne, além dos combustíveis fósseis.>
Mais de uma dezena de municipalidades em todo o país europeu já tentaram criar alguma forma de restrição, seja por meio de leis locais ou contratos públicos. Mas este nem sempre é um caminho fácil.>
A organização da indústria de viagens da Holanda ANVR e três operadoras de turismo entraram na Justiça em 2024. Eles alegam que a lei de Haia fere seu direito à liberdade de expressão e, na verdade, não reduziria o uso de combustíveis fósseis.>
Mas o juiz decidiu que a proibição poderá ajudar a combater as mudanças climáticas e melhorar a saúde das pessoas.>
Ele declarou que a cidade havia justificado adequadamente suas razões para criar a medida. A lei está em vigor desde abril de 2025.>
A BBC pediu comentários à ANVR e ao Conselho Holandês de Turismo e Convenções, mas não recebeu resposta até a publicação desta reportagem.>
No Reino Unido, diversas cidades também criaram proibições.>
Em 2024, a cidade de Edimburgo, na Escócia, proibiu a publicidade de empresas de combustíveis fósseis, companhias aéreas, aeroportos, carros alimentados a combustíveis fósseis, SUVs e navios de cruzeiro em espaço publicitários de propriedade da prefeitura, como pontos de ônibus e meios digitais.>
Sheffield, na Inglaterra, criou uma política similar no ano passado, incluindo também qualquer conteúdo "que possa ser razoavelmente considerado como promovendo aumento dos voos". E, em fevereiro de 2026, foi a vez de outra cidade inglesa, Portsmouth, criar sua proibição.>
Os defensores do clima, agora, voltam sua atenção para a capital britânica, já que sua operadora de transporte público Transport for London (TfL) detém um dos maiores espaços publicitários do mundo.>
Em novembro, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, concordou em analisar a política publicitária da organização, para verificar se ela poderia ser mais verde.>
Na Austrália, 19 jurisdições já votaram ou implementaram algum tipo de restrição à publicidade de combustíveis fósseis, incluindo a maior cidade do país, Sydney.>
Já o conselho da região metropolitana de Wellington, na Nova Zelândia, concordou em suspender os anúncios de combustíveis fósseis no transporte público e nos bens do conselho em 2023.>
Belinda Noble é a fundadora e principal executiva do grupo de defesa Comms Declare, que trabalha para proibir a propaganda de combustíveis fósseis na Oceania.>
Ela defende que as autoridades locais detêm "enorme" influência sobre o que os contribuintes observam todos os dias e são uma poderosa força de mudança.>
Para Noble, "eles reagem mais às necessidades da comunidade e, normalmente, estão menos sujeitos aos interesses da indústria ou de grandes doadores de gás e carvão".>
Já Sutherland afirma que, muitas vezes, existe um interesse muito mais forte pela mudança do consumo em nível municipal do que nacional.>
"As cidades costumam ser muito ambiciosas em relação ao clima", afirma ela. E elas também têm longo registro de tomada de decisões que são reproduzidas nacionalmente, como transporte limpo e redução de resíduos.>
Mas nem todas as tentativas de aprovar proibições nas cidades tiveram resultado.>
Uma campanha em Toronto, no Canadá, foi rejeitada em julho de 2025. Vereadores locais defenderam que é complexo decidir se uma publicação é falsa ou enganosa.>
Paralelamente, é difícil criar proibições nos Estados Unidos, onde a Primeira Emenda à Constituição protege a publicidade, segundo a professora de direito Ellen Goodman, da Faculdade de Direito Rutgers em Nova Jersey (EUA).>
Por isso, eventuais restrições estariam sujeitas a uma análise judicial "razoavelmente rigorosa", segundo ela.>
Para contornar a situação, os ativistas climáticos americanos se concentram em ações legais para tentar responsabilizar as empresas do setor de combustíveis fósseis pelo seu impacto sobre as mudanças climáticas.>
Até o momento, a maioria dos governos nacionais se concentrou mais nas mensagens contidas na publicidade corporativa, muitas vezes por meio do seu órgão regulador, do que nos anúncios em si.>
Ainda assim, alguns países já estão estudando proibições nacionais.>
Em 2022, a França se tornou o primeiro país europeu a proibir anúncios de combustíveis fósseis por meio de uma lei climática, embora seus defensores afirmem que sua implementação está estagnada.>
O governo espanhol aprovou, em junho de 2025, um projeto de lei que proibiria a publicidade de combustíveis fósseis e de veículos alimentados exclusivamente com esses combustíveis, além de voos curtos se houver alternativas mais sustentáveis.>
Mas o Parlamento do país ainda precisa aprovar este projeto, o que especialistas acreditam ser difícil.>
De forma geral, um estudo indica que existe mais apoio do que oposição às restrições à publicidade na Europa.>
É muito cedo para saber qual o impacto total das proibições já em vigor. Mas as evidências de restrições anteriores demonstram que elas podem muito bem gerar mudanças.>
Quando a TfL proibiu a publicidade de alimentos não saudáveis em 2019, as famílias passaram a incluir, em média, 1 mil calorias a menos nas suas compras semanais.>
Houve uma queda particularmente importante em relação a doces e chocolates, o que provavelmente terá gerado redução significativa da obesidade e dos custos da assistência médica pública.>
E a medida não resultou em queda da receita publicitária, como temiam alguns. Pelo contrário, ela aumentou.>
Da mesma forma, as restrições à publicidade de fast food no Chile, destinadas a melhorar a saúde das crianças, geraram uma queda de 24% das compras de bebidas doces e aumento do consumo de opções mais saudáveis.>
O consumo de cigarros também caiu em todo o mundo, após as restrições à publicidade, que começaram nos anos 1960 e se tornaram progressivamente mais restritivas.>
E uma análise sobre os anúncios de apostas em 2022 indica que sua proibição poderia "reduzir os danos gerais e os impactos da propaganda sobre as desigualdades relacionadas ao jogo".>
Ao tentar tirar lições das proibições motivadas por razões de saúde pública, um grupo de pesquisadores da sustentabilidade concluiu, em 2025, que a restrição da publicidade de um produto prejudicial poderá incentivar o desenvolvimento de alternativas "benignas" com menor pegada ambiental.>
As restrições à propaganda de álcool da Noruega, por exemplo, levaram as empresas a criar novas variedades de cerveja sem álcool ou com baixo teor alcoólico.>
"Existem claras evidências de que as proibições à publicidade realmente causam impacto", afirma Sutherland.>
"Ainda não temos os dados sobre as proibições de anúncios de combustíveis fósseis... mas esperamos ver algo similar.">
Mas os pesquisadores da sustentabilidade também indicaram sua preocupação de que o desenvolvimento de produtos mais limpos e saudáveis possa ajudar a promover o greenwashing — "maquiagem verde" — da imagem corporativa de uma empresa e aumentar as vendas do produto original, que causa mais prejuízos.>
Uma possível solução neste caso seria permitir que as companhias só anunciassem alternativas benignas se já vendessem uma quantidade significativa desses produtos, indicam os pesquisadores.>
As proibições à publicidade também poderão enfrentar outras limitações.>
Quando o setor de apostas concordou em suspender voluntariamente a publicidade no Reino Unido durante as transmissões esportivas ao vivo, por exemplo, os anúncios em outros horários aparentemente aumentaram.>
As cidades também podem fazer pouco sobre o que as pessoas veem e ouvem na internet. E os próprios governos nacionais vêm enfrentando dificuldades para regulamentar a publicidade online.>
As restrições dirigidas a produtos são definidas e executadas com muito mais facilidade do que proibir todo um setor de anunciar, segundo Sutherland. E esta medida tem menos probabilidades de enfrentar questionamentos legais.>
E também existem áreas "cinza", segundo Barker.>
"Se você tiver um anúncio de um dado país que só pode ser visitado de avião, é permitido?", questiona ele.>
Uma opção mais extrema seria proibir toda a publicidade em outdoors, como fez São Paulo em 2006.>
O que se sabe ao certo é que as proibições não funcionam no vácuo. O governo holandês, por exemplo, foi aconselhado a combinar as proibições com outras políticas, para realmente mudar o comportamento dos consumidores.>
Haia, por exemplo, está incentivando as pessoas a dirigir carros elétricos. Paralelamente à proibição, a cidade vem criando mais pontos de carregamento e oferecendo às famílias empréstimos sem juros para instalar bombas de calor e isolamento, segundo o vice-prefeito municipal.>
Barker destaca que a comunicação pública em Haia foi bastante direta, pois as notícias sobre a proibição foram amplamente divulgadas.>
"Nós nos concentramos em explicar por que é importante enfrentar a crise climática e que os anúncios nos espaços públicos estimulam o oposto", afirma ele.>
Em um relatório de 2025, a relatora especial das Nações Unidas sobre direitos humanos e mudanças climáticas Elisa Morgera criticou a forma como os anúncios de combustíveis fósseis moldaram a percepção do público por décadas.>
Para ela, os anúncios "menosprezaram os impactos aos direitos humanos e enfatizaram a participação dos combustíveis fósseis no crescimento econômico e na vida moderna".>
Morgera defende que proibir esses anúncios ajudaria a questionar a "presença considerada natural dos combustíveis fósseis nas nossas vidas" e "destacar padrões de desigualdade sistêmica, produção e consumo excessivo".>
No estudo sobre as proibições holandesas, as autoridades entrevistadas acreditavam que, embora o impacto das proibições sobre o comportamento dos consumidores ainda seja incerto, elas ofereceram sinais importantes sobre o consumo insustentável e incentivaram outros locais a adotar a medida.>
"Acho que a comparação com o cigarro é muito precisa", afirma Barker. "Fumar destrói os nossos pulmões e os combustíveis fósseis destroem os pulmões do planeta.">
"Por que incentivar algo que tem efeitos devastadores para a Terra?">
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Earth.>
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