Publicado em 7 de março de 2026 às 10:10
O vazamento de conteúdos do celular do banqueiro Daniel Vorcaro desde quarta-feira (4/2) expôs altas autoridades em Brasília, assim como detalhes íntimos de sua vida amorosa que rapidamente alimentaram piadas e memes na internet.>
A divulgação provocou não só a exposição de Vorcaro, investigado por supostas fraudes bilionárias no seu banco, o Master, mas também de mulheres com quem ele se relacionava, que não são alvos das investigações.>
Juristas ouvidas pela reportagem dizem que o vazamento é ilegal por dois motivos: violou o sigilo das investigações e também a privacidade dos envolvidos, já que mensagens de teor pessoal sem relação com os crimes investigados deveriam ser preservadas.>
Na tarde de sexta-feira (6/2), o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça atendeu a um pedido da defesa de Vorcaro e determinou a abertura de um inquérito para apurar quem são os responsáveis pelo vazamento, ressalvando a preservação do sigilo da fonte garantido aos jornalistas. Ou seja, a imprensa não será investigada.>
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Mendonça hoje é o relator das duas investigações criminais, sobre as fraudes do Banco Master e no INSS.>
"Eu vejo pouca coisa pode ser mais violenta do que esse tipo de divulgação. Não é uma violência física, mas é muito agressivo, principalmente para mulher, até para a vida dela futura. Então, as pessoas ficam achando que nós estamos no Big Brother da investigação do Master", critica a criminalista Marina Coelho Araújo, professora do Insper e vice-presidente do Instituto dos Advogados de São Paulo.>
"E é uma violência absolutamente desnecessária. Isso não tem qualquer relevância para absolutamente nada que não seja violar a privacidade daquela pessoa e fazer disso um espetáculo e não uma real investigação. Um espetáculo tendo como objeto a mulher. Mais uma vez, a mulher sendo objetificada", reforçou.>
O material foi divulgado após a Polícia Federal compartilhar o conteúdo com a CPMI do INSS, comissão que investiga no Congresso desvios no pagamento de aposentados e pensionistas.>
O envio do material foi autorizado em 20 de fevereiro pelo ministro André Mendonça.>
Na decisão, ele determinou, porém, que "o tratamento das informações [compartilhadas] observe rigorosamente as garantias fundamentais, inclusive quanto à preservação da intimidade e à cadeia de custódia da prova".>
Antes do material chegar à CPMI, o presidente da comissão, senador Carlos Viana (Podemos-MG), chegou a dizer que a PF faria uma seleção para enviar apenas o conteúdo que tivesse relação com as investigações sobre o INSS.>
No entanto, a CPMI recebeu conversas mais amplas, que acabaram vazadas. A BBC News Brasil também obteve acesso ao material.>
Até agora, nada do que saiu na imprensa se relaciona com as fraudes nas aposentadorias e pensões. >
As conversas reveladas tiveram forte repercussão ao mostrar suposta proximidade de Vorcaro com altas autoridades, entre elas o ministro do STF Alexandre de Moraes e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil no governo de Jair Bolsonaro.>
No caso de Moraes, a polêmica começou antes, no ano passado, quando o jornal O Globo revelou que sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, manteve um contrato de R$ 129 milhões com o Banco Master.>
Já as mensagens vazadas agora indicam que Moraes e Vorcaro teriam se encontrado em algumas situações em 2025. Também segundo novas reportagens do jornal O Globo, teriam, inclusive, se comunicado em 17 de novembro, dia da primeira prisão do banqueiro.>
Em nota enviada à imprensa nesta sexta-feira (6/3), o gabinete do ministro Alexandre de Moraes, por meio do STF, negou que as mensagens encontradas no celular de Vorcaro foram enviadas a ele. Elas estariam vinculadas a outros contatos, informou a Corte. >
"Uma análise técnica realizada nos dados telemáticos de Daniel Vorcaro, constatou que as mensagens de visualização única enviadas por ele no dia 17 de novembro de 2025 não conferem com os contatos do ministro Alexandre de Moraes nos arquivos apreendidos", diz um trecho da nota. >
"No conteúdo extraído do celular do executivo pelos investigadores, os prints dessas mensagens enviadas por Vorcaro estão vinculadas a pastas de outras pessoas de sua lista de contatos e não constam como direcionadas ao ministro Alexandre de Moraes. A mensagem e o respectivo contato estão na mesma pasta do computador de quem fez os prints (Vorcaro)", acrescentou o STF, pontuando que não vai mencionar os nomes e contatos das pessoas vinculadas aos respectivos arquivos "em virtude do sigilo decretado pelo ministro André Mendonça, mas constam no arquivo que a CPMI do INSS disponibilizou para toda a imprensa".>
A mulher mais exposta no conteúdo revelado é Martha Graeff, então namorada de Vorcaro. O material traz o histórico de conversa dos dois ao longo de 2024 e 2025, em que ele relata encontros com autoridades e reuniões de negócios, em meio a mensagens de teor íntimo.>
A BBC News Brasil solicitou uma entrevista com ela, mas não teve retorno até a publicação dessa reportagem.>
"Impressiona que, em um caso dessa magnitude, o foco esteja sendo direcionado para as mensagens amorosas trocadas entre Vorcaro e a namorada, os apelidos entre eles, as mensagens íntimas, ou sobre quem é ela. Ao que parece, ela não é investigada e essas informações da vida privada dela não têm nenhuma relevância para o caso em apuração", critica também a advogada criminalista Maíra Fernandes, professora da FGV Rio.>
"Processos criminais, muitas vezes, são midiáticos por natureza, mas é preciso respeitar a privacidade dos investigados e, sobretudo, dos que estão ao seu redor. Esse interesse sobre a mulher parece machismo puro e essa devassa nas mensagens parece só atender a uma curiosidade da sociedade do espetáculo", reforçou.>
O deputado Kim Kataguiri (União Brasil-SP) apresentou, na quinta-feira (5/2) um requerimento na CPMI do INSS para que Martha Graeff deponha como testemunha. Para que ela seja convocada, o requerimento precisa ser aprovado na comissão.>
Ele justifica o requerimento destacando que Graeff acompanhou de perto a rotina do investigado e suas interações com autoridades.>
"Como testemunha direta de comunicações e encontros que misturam interesses privados de uma instituição financeira sob investigação com a esfera pública, o seu depoimento é peça-chave para desvendar a extensão da rede de influência montada em torno do grupo econômico em questão".>
Para a criminalista Marina Coelho, a convocação não é correta.>
"Essa moça tinha relações privadas com ele. Não há qualquer interesse relevante para o INSS. Isso aprofunda o fosso da violência contra a mulher. Eles vão querer ali escarafunchar a vida privada dela com o namorado?", questiona.>
A professora do Insper Marina Coelho ressalta que divulgações indevidas em investigações não são novidades e muitas vezes são usadas como forma de interferir na política.>
Ela cita como exemplo, a divulgação na operação Lava Jato de diálogo entre a então presidente Dilma Rousseff e então ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a assinatura antecipada de um termo de posse dele como ministro da Casa Civil, episódio que levou o petista a ser barrado do cargo pelo STF pouco antes do processo de impeachment de Dilma.>
Depois, o então ministro do STF Teori Zavascki anulou essa gravação, divulgada pelo então juiz federal e hoje senador Sérgio Moro (União Brasil-PR), porque foram feitas após o período autorizado e envolviam a Dilma, que na época tinha foro especial no Supremo.>
Coelho diz que, hoje, a privacidade de pessoas investigadas é garantida por princípios constitucionais. Ela defende que isso deveria ser melhor estruturado com a aprovação de uma LGPD Penal, ou seja, uma versão da Lei Geral de Proteção de Dados voltada para investigações e processos criminais.>
"Não é possível que nós vamos continuar com este desrespeito à intimidade e privacidade das pessoas nas investigações penais", disse.>
"A gente tem, na nossa Constituição, a possibilidade excepcional de quebra da intimidade, da privacidade das pessoas, com quebra de sigilo bancário, fiscal e telefônico para a investigação criminal. Então, a investigação criminal tem uma responsabilidade com esses dados. E hoje isso foi completamente violado", continuou, sobre as informações do caso Master.>
Por meio de nota, a Polícia Federal afirmou que todas as investigações são conduzidas seguindo "rigorosos padrões de segurança" no tratamento de informações e garantia aos direitos fundamentais, como privacidade e intimidade. >
Segundo a PF, nenhum relatório ou documento produzido no âmbito da Operação Compliance Zero "conteve dados que não fossem relevantes para a apuração", negando que informações relacionadas à intimidade ou à vida privada dos investigados foram incluídas.>
A PF também disse que não cabe à instituição editar ou selecionar conversas extraídas de aparelhos apreendidos, "sob pena, inclusive, de violação ao direito ao contraditório e à ampla defesa, constitucionalmente assegurados".>
"Por orientação do diretor-geral da instituição, a equipe responsável pelas investigações encaminhou ao ministro relator representação para a abertura de apuração sobre a divulgação indevida de informações sigilosas", concluiu. >
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