Publicado em 7 de fevereiro de 2026 às 07:09
Já virou uma constante no calendário político europeu. Sempre que um país vai às urnas, o resto do continente prende a respiração, com as mesmas perguntas em mente: a direita radical vai crescer desta vez? Se sim, quanto?>
O segundo turno das eleições presidenciais em Portugal, marcado para este domingo (8/2), não é uma exceção.>
A votação acontece com o país em estado de "calamidade pública", em meio a uma onda de fortes tempestades que já provocou mais de dez mortes e danos significativos, sobretudo na região central do país. >
Disputam a Presidência António José Seguro, ex-secretário-geral do Partido Socialista (PS), que fez campanha apelando ao voto moderado, e André Ventura, líder do Chega, da direita radical, que concorreu com um discurso anti-imigração, além de ataques a grupos minoritários — como a comunidade cigana — e às elites políticas tradicionais.>
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As chances de vitória de Ventura são consideradas remotas. Segundo o agregador de pesquisas do jornal digital Observador, 32,6% dos eleitores pretendem votar nele, contra 67,4% que indicam apoio a Seguro. >
A grande incógnita, porém, é qual será o patamar da votação do líder do Chega, algo que pode fazer toda a diferença no cenário pós-eleitoral.>
Cientistas políticos ouvidos pela BBC News Brasil observam que, se as pesquisas se confirmarem, Ventura terá superado os 31,2% obtidos pela atual coligação governista de centro-direita, a Aliança Democrática (AD), nas eleições legislativas de 2025. >
"Se Ventura ultrapassar os 32%, terá base para afirmar que agora é a principal força da direita em Portugal", diz António Costa Pinto, da Universidade Lusófona de Lisboa.>
Marco Lisi, da Universidade Nova de Lisboa, nota que, embora Portugal tenha entrado mais tarde na onda de crescimento da direita radical na Europa, o avanço no país foi surpreendentemente rápido. O Chega saltou de 1,3% dos votos em 2019 para 22,8% nas legislativas de 2025.>
"Em outros países, o crescimento foi mais gradual, com a direita radical ganhando força pouco a pouco após a crise de 2008", afirma Lisi. >
"O Chega é um dos partidos que mais ampliou sua base na Europa nos últimos anos. E esse crescimento pode se consolidar com as eleições presidenciais, mesmo em um cenário de derrota para Ventura.">
Seguro venceu o primeiro turno da eleição presidencial com 31,1% dos votos, contra 23,5% de Ventura, impulsionado pelo voto útil da esquerda. >
Mas, enquanto os candidatos derrotados de centro e centro-direita somaram cerca de 40% dos votos, os da esquerda não ultrapassaram 5%.>
De olho nesse eleitorado conservador, Ventura tentou se apresentar como herdeiro natural desse campo político.>
A estratégia, porém, esbarrou em uma série de declarações públicas de apoio a Seguro por figuras proeminentes da direita e centro-direita portuguesa.>
Entre os que respaldaram o candidato socialista, estão Aníbal Cavaco Silva, presidente entre 2006 e 2016 e primeiro-ministro entre 1985 e 1995. >
Também estão os prefeitos de Lisboa, Carlos Moedas, e do Porto, Pedro Duarte, ambos do Partido Social Democrata (PSD), que lidera a coalizão governista; além de Paulo Portas, ex-líder do CDS–PP, outro partido da AD.>
Luís Marques Mendes, candidato apoiado pelo PSD no primeiro turno, afirmou ao jornal Expresso que votaria em Seguro por seu alinhamento com a "defesa da democracia" e a "moderação política". >
O primeiro-ministro Luís Montenegro, no entanto, rejeitou que o PSD declarasse apoio oficial a qualquer candidato.>
Segundo analistas ouvidos pela BBC, o respaldo de conservadores ao candidato socialista se explica por ao menos três fatores. >
Para começar, trata-se de uma tentativa de criar um "cordão sanitário" para conter o avanço da direita radical, reafirmando o compromisso da centro-direita com valores democráticos.>
A estratégia não é nova: na França, em 2017 e 2022, políticos tradicionais se uniram para barrar a vitória de Marine Le Pen na corrida presidencial; e, na Alemanha, forças políticas mantêm um acordo informal para isolar a Alternativa para a Alemanha (AfD), que em 2025 obteve 152 dos 630 assentos do Parlamento.>
O risco da estratégia de "cordão sanitário", contudo, é reforçar a narrativa de Ventura de que ele seria o único representante legítimo da direita, já que todo o establishment político estaria unido contra ele, como observa Pedro Magalhães, da Universidade de Lisboa. >
"Até por isso o PSD não declarou apoio formal a Seguro. Foram todas iniciativas individuais.">
O segundo motivo para o apoio a Seguro é o fato de ele ser visto como uma figura centrista e moderada. >
"Embora ex-líder do PS, Seguro se lançou na campanha sem apoio formal desse partido, recebido apenas tardiamente e sem grande entusiasmo. Além disso, ele é conhecido por, durante a crise da zona do euro (2008/2009), ter apoiado medidas adotadas pela centro-direita", lembra a cientista política Marina Costa Lobo, também da Universidade de Lisboa.>
Para completar, o apoio dos conservadores também é explicado por fatores de ordem institucional. >
O novo presidente pode ser decisivo para garantir a estabilidade do governo minoritário de centro-direita liderado pelo PSD — e Seguro é, afinal, o candidato melhor posicionado para ocupar o cargo.>
No regime semipresidencialista português, embora seja o primeiro-ministro quem governe, o presidente tem poderes relevantes, como vetar leis, dar posse ao primeiro-ministro e, em situações extremas, dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas — a chamada "bomba atômica".>
Por não ter maioria parlamentar, o atual governo fica mais vulnerável a eventuais tentativas de derrubá-lo além de depender do apoio — ou da abstenção — de outros partidos para aprovar seus projetos. >
Em novembro, por exemplo, o Orçamento só passou graças à abstenção do PS. "Seguro pode ajudar a preservar o frágil equilíbrio do governo e pressionar o PS a se abster em momentos-chave", diz Lisi.>
Evidentemente, nada garante que os eleitores seguirão diretrizes de voto dadas por lideranças conservadoras. As tempestades que atingem Portugal também são um fator que pode influenciar o resultado da votação, reduzindo o comparecimento às urnas.>
O país foi duramente atingido pelas tempestades Kristin e Leonardo, e a tempestade Marta deve chegar no sábado, trazendo chuvas intensas para o domingo. >
Ventura chegou a pedir o adiamento da eleição, mas autoridades eleitorais afastaram essa possibilidade, admitindo apenas adiamentos pontuais em alguns municípios.>
Fundado em 2019 por Ventura, o Chega é hoje a segunda maior força no Parlamento português, com 60 cadeiras. >
O partido cresceu com um discurso focado na rejeição à corrupção das "elites" políticas tradicionais, na defesa de políticas mais rígidas de segurança e no combate ao que classifica como imigração "descontrolada", além de ataques a algumas minorias.>
A campanha presidencial de Ventura, por exemplo, incluiu outdoors com a frase "Isto não é o Bangladesh", dirigidos a imigrantes asiáticos. >
Peças com comentários negativos sobre a comunidade cigana tiveram de ser retiradas por decisão judicial.>
Entre as propostas polêmicas do Chega está a defesa da prioridade para portugueses em serviços públicos como hospitais e escolas, sintetizada no slogan "Os portugueses primeiro". >
Em julho, Ventura chegou a ler no Parlamento uma lista com nomes de crianças imigrantes que estariam, segundo ele, ocupando vagas de estudantes portugueses em escolas públicas.>
O discurso do Chega tem, até agora, evitado ataques diretos a brasileiros, que somam mais de 500 mil pessoas e formam a maior comunidade de imigrantes do país. >
Ventura afirma que o principal problema seria a imigração oriunda do Sul da Ásia, por envolver culturas que considera muito diferentes da portuguesa. >
Há também brasileiros simpatizantes do Chega, especialmente entre aqueles atraídos por sua pauta conservadora nos costumes e mensagens de "lei e ordem", ou alinhados politicamente ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que já declarou apoio a Ventura.>
Nos últimos anos, porém, a pressão do partido ajudou a endurecer as políticas migratórias em Portugal — um movimento que afeta diretamente os brasileiros. >
No ano passado, a AD se uniu ao Chega para aprovar alterações na Lei de Estrangeiros que restringiram o visto de trabalho a profissionais considerados qualificados, eliminaram a possibilidade de imigrantes solicitarem residência após entrarem no país como turistas e endureceram as regras de reagrupamento familiar.>
O Parlamento também aprovou uma nova Lei da Nacionalidade, ampliando de cinco para sete anos o tempo mínimo de residência exigido de brasileiros para o pedido de nacionalidade portuguesa — proposta que, após sofrer reveses institucionais, ainda não entrou em vigor e segue em discussão.>
Além desse aperto regulatório, organizações da sociedade civil também apontam um aumento de episódios de xenofobia e racismo — inclusive contra brasileiros — associado ao que consideram uma normalização do discurso contra estrangeiros na esfera pública.>
Segundo um relatório da Comissão Europeia contra o Racismo e a Intolerância, as queixas por crimes de ódio em Portugal quintuplicaram em cinco anos. >
Há algumas semanas, o país prendeu 37 pessoas em uma operação contra o grupo neonazista 1143, que tem entre seus integrantes alguns apoiadores do Chega, embora não haja qualquer vínculo institucional com o partido.>
A politização do tema da imigração é apontada por estudos como um dos principais motores do avanço da direita radical na Europa. >
Em Portugal, por exemplo, o número de estrangeiros saltou de 592 mil em 2019 para mais de 1,5 milhão hoje, aumentando a pressão sobre os serviços públicos — tema amplamente explorado pelo Chega.>
Outros fatores, como custo de vida, crise habitacional e rejeição à corrupção, também alimentam a desconfiança em relação às instituições democráticas, segundo analistas. >
Além disso, partidos da direita radical têm se beneficiado de redes de cooperação transnacionais, aprendendo com seus pares europeus.>
O Chega mantém vínculos políticos e ideológicos com o Vox, na Espanha, o Reunião Nacional, na França, e a AfD, na Alemanha. >
"Ventura não inventou nada novo. As técnicas usadas para ganhar atenção e apoio, assim como o discurso anti-imigração, foram inspiradas em outros grupos europeus", diz Magalhães.>
O avanço de grupos de direita radical está mudando o mapa político europeu. >
Nos últimos anos, eles ampliaram sua presença parlamentar em países como França, Alemanha e Suíça, onde já superam 20% de representação. No ano passado, também foram os mais votados nas eleições para o Parlamento Europeu na Áustria e na França.>
Essa tendência de alta será colocada à prova no próximo ciclo eleitoral no continente: em 2026, haverá disputas regionais e locais na Espanha, França, Itália e Alemanha, além de eleições nacionais na Suécia, Dinamarca e Hungria. >
Já neste domingo, a comunidade autônoma de Aragão, na Espanha, também vai às urnas — e pesquisas indicam que o Vox pode alcançar cerca de 16% dos votos válidos, ante pouco mais de 11% na última eleição.>
No caso português, chama atenção o avanço da direita radical em um momento relativamente favorável para a economia. >
Nos últimos cinco anos, o PIB do país cresceu em média 3,8% ao ano, acima dos 2,6% da União Europeia. >
"A inflação está controlada, o desemprego é o mais baixo em décadas e o salário médio sobe 3% acima da inflação — mas a questão é que esse avanço não chega a todos", diz a economista Susana Peralta, da Nova School of Business and Economics. >
"A gentrificação e a alta dos preços da habitação, do aluguel e de determinados serviços pesam sobre alguns setores e regiões, que se sentem 'deixados para trás', o que ajuda a explicar o apoio à direita radical.">
Para a cientista política Marina Costa Lobo, muitas das preocupações que levam eleitores europeus a votarem na direita radical são legítimas, como a indignação com a corrupção e a queda da qualidade de vida. >
"Em muitos casos, as pessoas têm razão em estar zangadas, embora, evidentemente, as soluções oferecidas pelos movimentos populistas de direita — como culpar a imigração por problemas complexos — estejam longe de ser adequadas", observa. >
"No fim, os partidos tradicionais precisam fazer mais para responder às preocupações dos cidadãos e melhorar o funcionamento das instituições se quiserem preservar o chamado 'modelo europeu'.">
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