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'Mozart a idolatrava': a história de Maria Anna, a irmã prodígio do gênio da música clássica

'Mozart a idolatrava': a história de Maria Anna, a irmã prodígio do gênio da música clássica

A irmã mais velha de Wolfgang Amadeus Mozart foi uma inspiração para ele. Juntos, eles impressionaram a Europa como crianças prodígio — mas suas vidas seguiram caminhos diferentes.

Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 12:13

Imagem BBC Brasil
Houve um tempo em que os irmãos Mozart eram inseparáveis Crédito: Imagno/Getty Images

Ao sair do Museu Mozart em Viena, a dramaturga Sylvia Milo sentiu que algo lhe chamava a atenção.

"Na parede, perto da saída, havia um pequeno quadro que, descobri mais tarde, era um retrato da família Mozart. Vi uma mulher sentada ao lado de Wolfgang; ambos estavam ao piano, com as mãos entrelaçadas, tocando as teclas."

Ela sabia que aquela jovem não era Constanze, a esposa do extraordinário compositor.

"Para mim, foi como uma revelação descobrir que existia outra Mozart. Imediatamente pensei: 'Qual é a história dela?' Decidi encontrá-la. Viajei para muitos lugares, visitei os locais onde ela viveu e se apresentou, e li as cartas da família."

E Milo — que nasceu na Polônia mas é radicada nos EUA — descobriu que Nannerl, como era chamada pela família, era uma virtuosa do piano. E muito mais.

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Leopoldo, à direita, com seus filhos, Wolfgang e Nannerl. Na parede está pendurado o retrato da mãe dos jovens, Anna Maria, que havia falecido. A obra é do artista Johann Nepomuk Della Croce. Crédito: Imagno/Getty Images

Milo cresceu na Polônia, onde estudou música e aprendeu a tocar piano e violino.

Ao se aprofundar em aulas sobre a história da música clássica, ficou impressionada com a ausência de mulheres nas narrativas.

"Onde estão as histórias delas? Por que não as conhecemos?", lembra-se de ter se perguntado.

Em 2006, no 250º aniversário do nascimento de Wolfgang Amadeus Mozart, ela visitou Viena, onde vários eventos comemorativos haviam sido organizados.

"Fui como fã de Mozart, explorando a cidade. Ainda há tanta coisa da época dele: os palácios e salões onde ele se apresentou, o apartamento onde morou."

Lá, ela encontrou o museu e a fotografia que a cativou.

A pesquisa sobre a irmã de Mozart a inspirou a escrever a peça A Outra Mozart, na qual também atua. "Comecei lendo biografias de Wolfgang porque não havia nenhuma de Nannerl em inglês."

Então, ela mergulhou na correspondência da família. "Há centenas de cartas porque eles escreviam muito."

"Todas essas cartas sobreviveram graças a Nannerl; ela as guardou. Mais tarde, ela as deu a Constanze para que a primeira biografia de Wolfgang pudesse ser escrita."

A família Mozart

Nannerl e Wolfgang foram os únicos dois dos sete filhos de Leopold Mozart e Anna Maria Pertl que sobreviveram à infância.

A menina, nascida em 30 de julho de 1751, recebeu o nome de Maria Anna, mas era chamada de Marianne e, na família, apelidada de Nannerl.

Wolfgang nasceu em 27 de janeiro de 1756.

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Leopold começou a ensinar cravo à filha quando ela tinha oito anos. O irmão dela ficou fascinado com o que ouviu e viu. Crédito: DeAgostini/Getty Images

Quando a menina tinha oito anos, seu pai a ensinou a tocar cravo. Seu irmão ficou fascinado com sua música.

"Ela era uma grande pianista, e quando Wolfgang era muito pequeno, ele a observava praticar. Naquela época, ela era seu grande modelo", disse Eva Neumayr, musicóloga, fundadora e presidente da Sociedade Maria Anna Mozart, à BBC Mundo.

"Quando eles eram crianças, ela era uma pianista melhor, e nesse sentido, pode-se dizer que ela foi uma inspiração em sua infância."

'Queria ser como ela'

Sophia Alexandra Hall relata, em um artigo publicado na revista Classic FM, que "durante a infância, muitos biógrafos consideram Nannerl um ídolo na vida do jovem Mozart".

De fato, a jornalista cita um trecho da biografia Mozart: Uma Vida, escrita por Maynard Solomon: "Aos três anos de idade, Mozart se inspirou a estudar música observando as aulas de música ministradas por seu pai a Nannerl; ele queria ser como ela".

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Durante mais de três anos, Leopoldo organizou apresentações de seus filhos em dezenas de cidades por toda a Europa Crédito: DeAgostini/Getty Images

Wolfgang começou a tocar usando o caderno da irmã como guia.

Leopold o havia dado a ela para que aprendesse as peças que ele compunha. É conhecido como o "Nannerl Notenbuch" (Caderno de Nannerl).

Quando crianças, eles criaram uma linguagem secreta: ele era o rei e ela, a rainha de um reino que inventaram.

Além disso, Milo conta: "eles compunham juntos, improvisavam". A música era como um brinquedo que compartilhavam.

"Ela deve ter sido uma grande inspiração, porque ele (Wolfgang) compôs peças para os dois tocarem, e nessas primeiras peças, a parte dele era simples e a dela tinha as seções mais complexas. Era possível perceber não apenas a admiração dele por ela, mas também o reconhecimento de suas habilidades."

Leopold logo percebeu que seus filhos eram prodígios.

De um lugar a outro

Leopold proporcionou aos filhos uma excelente educação em casa, e não apenas musical. Ele era muito culto, falava várias línguas, era violinista na corte de Salzburgo e ensinava e compunha música.

"Ele era brilhante; sabia onde levar os filhos e a quem apresentá-los", diz Milo.

Ele providenciou para que ambos tocassem na corte imperial em Viena, perante a Imperatriz Maria Teresa.

Wolfgang tinha cerca de seis anos e, segundo uma carta de Leopold, naquele dia "pulou no colo da Imperatriz".

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Nesta obra de Louis de Carmontelle, Leopold é retratado com seus filhos Crédito: DeAgostini/Getty Images

O blog do Time Travel Vienna, um museu na capital austríaca que oferece aos visitantes um passeio interativo pela história da cidade, relata como essa apresentação se mostrou muito proveitosa para a família Mozart.

"Pela apresentação, Nannerl e Wolfgang não só receberam 100 ducados de ouro (450 florins; dinheiro suficiente para comprar 10 cavalos na época) como honorários, mas também duas vestes. A partir de então, esses vestidos formais suntuosamente bordados serviram como figurinos de palco para os filhos de Mozart."

Leopold e Anna Maria viajaram com os filhos para a maioria das principais cidades europeias, onde plateias ficaram deslumbradas com o talento das crianças.

A turnê, que durou mais de três anos, os levou à Alemanha, Praga, Boêmia, França, Inglaterra, Itália, Suíça e Holanda.

No entanto, essas viagens, em carruagens puxadas por cavalos, eram longas e cansativas.

Embora a família se misturasse com as camadas mais altas da sociedade e seja retratada em pinturas elegantemente vestida e usando perucas empoadas típicas do século 18, é importante lembrar que os Mozart eram de classe média e tinham rendimentos modestos. Viajar naquela época era caro e podia até ser perigoso.

'Minha filhinha'

Mas as turnês renderam frutos.

Um artigo de 1763 na publicação de Augsburg Intelligenz-Zettel destacou como Nannerl, aos 11 anos, tocava "as sonatas e concertos mais difíceis dos maiores mestres com a máxima precisão e uma facilidade quase inacreditável".

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Esta pintura do artista Pietro Antonio Lorenzoni retrata Nannerl em 1763 Crédito: Fine Art Images/Heritage Images via Getty Images

Após a chegada da família a Paris, o diplomata e jornalista alemão Friedrich Melchior Grimm escreveu no jornal Correspondance Littéraire sobre os dois filhos prodígios de Leopold.

"Sua filha de onze anos toca cravo brilhantemente; ela executa as peças mais longas e difíceis com uma precisão surpreendente."

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Os dois irmãos Mozart, lado a lado, dando um concerto em 1762. Obra do artista Heinrich Lefler. Crédito: © Fine Art Images/Heritage Images via Getty Images

Leopold deixou um registro de quão orgulhoso estava de seus filhos. Em uma carta que enviou a um parente em Salzburgo em 1764, ele escreveu:

"Minha filhinha toca as peças mais difíceis que temos... com incrível precisão e excelência. Em suma, minha filhinha, embora tenha apenas 12 anos, é uma das intérpretes mais talentosas da Europa."

Neumayr relata que Nannerl se tornou uma das primeiras pianistas a dar concertos por toda a Europa, o que foi inovador para a época.

Interrupção

Mas quando ela cresceu, Leopold tomou uma decisão: a jovem tinha que ficar em casa, em Salzburgo.

Ela nunca mais viajaria.

"Por um lado, viajar ficou mais barato com duas pessoas a menos, a mãe e a filha", diz Neumayr.

Mas havia outro motivo, e para a época, muito importante: Leopold não queria prejudicar as chances de sua filha se casar.

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Uma ilustração que apareceu em "Story-Lives of Great Musicians" de F.J. Rowbotham, mostrando o jovem Wolfgang em uma viagem com sua mãe Crédito: The Print Collector via Getty Images

O então adolescente Wolfgang sentiu um vazio, como escreveu em 1770, da Itália: "Beijo a mamãe e a Nannerl mil vezes. Gostaria que minha irmã estivesse em Roma; tenho certeza de que ela adoraria a cidade."

Enquanto estava lá, ele também escreveu para Nannerl dizendo estar impressionado com a sua capacidade de "compor tão bem. Em uma palavra, a canção que você escreveu é linda." No entanto, nenhuma de suas obras sobreviveu.

Milo observa que Nannerl participou das turnês até completar 18 anos.

"Por cerca de oito anos, quando criança, ela esteve praticamente no auge de sua carreira. Durante esse período, não havia limitações para suas apresentações. Mas, ao completar 18 anos, essas limitações se tornaram incrivelmente rígidas devido às perspectivas de casamento", conta ela à BBC News Mundo, serviço de notícias em espanhol da BBC.

E assim, sua mãe assumiu a responsabilidade de ensiná-la trabalhos domésticos e como se tornar uma boa esposa.

Outra época

Mas, como Milo destaca, uma mulher se apresentar em público também era malvista.

"A reputação de uma mulher podia ser completamente arruinada se ela se apresentasse por dinheiro. Ela seria paga por um trabalho que era considerado indecente pela classe alta."

E se sua reputação fosse arruinada, era muito provável que ela tivesse que se casar com alguém de uma classe social inferior.

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Anna Maria Mozart, mãe de Nannerl e Wolfgang, em uma pintura provavelmente do artista Pietro Antonio Lorenzoni Crédito: Imagno/Getty Images

Os Mozart, em sua busca pela felicidade dos filhos, aspiravam aos "mais altos escalões da sociedade".

"O pai queria a posição mais elevada para Wolfgang, e se a reputação de Nannerl fosse manchada, a do irmão também seria afetada, pois naquela época toda a família era uma unidade."

"Portanto, era muito importante que Nannerl fosse extremamente recatada para atrair o marido certo, alguém que a sustentasse financeiramente e também ajudasse Wolfgang a alcançar seus objetivos."

Após a morte da esposa em 1778, Leopold ficou profundamente angustiado com a possibilidade de que, se morresse, Wolfgang não teria dinheiro suficiente para sustentar a irmã e que ela seria obrigada a trabalhar na casa de outra pessoa, por exemplo, como governanta, acabando assim com suas chances de formar a própria família.

Não foi o fim da música

A decisão de Nannerl de parar de fazer turnês não significou que ela desistiu da música.

Isso fica evidente em algumas das muitas cartas que os quatro membros da família trocaram enquanto moravam em cidades diferentes.

O volume 2 de As Cartas de Mozart e Sua Família — organizado, traduzido e editado por Emily Anderson — nos oferece um vislumbre dos Mozart.

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Nannerl nunca desistiu da música. Aqui ela aparece em uma obra de Franz Joseph Degle Crédito: Ken Welsh/Design Pics/Universal Images Group via Getty Images

Por exemplo, em uma carta de 1777, Nannerl agradece ao irmão por lhe enviar "o primeiro movimento e o Andante" de sua sonata e confirma que já os havia tocado, que o Andante exigia "grande concentração" e que esperava que ele lhe enviasse o "Rondo".

Em outra carta, Leopold escreve à esposa e ao filho (que juntos buscavam oportunidades para Wolfgang) que, em tudo relacionado à casa, Nannerl era "extraordinariamente diligente" e muito atenciosa.

Em outra carta, de 1778, o pai também relata que receberam a visita de "dois cavalheiros de Wallerstein", que "insistiram em ouvir Nannerl tocar".

Ele se referia a Anton Janitsch, músico da corte em Wallerstein, na Alemanha, e ao violoncelista Joseph Reicha.

"Descobrimos que o único propósito deles era tentar adivinhar, pelo estilo de tocar dela, como seria o seu."

Além disso, eles estavam "particularmente ansiosos para ouvir" uma das composições de Wolfgang.

Nannerl executou a Sonata de Mannheim, que seu irmão havia composto naquela época, e o fez "de forma excelente e com toda a expressividade necessária. Eles ficaram maravilhados com sua performance e com a composição."

A professora

A irmã de Mozart também dava aulas particulares.

"E isso era muito incomum no final do século 18, época em que quase não havia professoras de piano. Na verdade, ela foi a primeira em Salzburgo", destaca Neumayr.

Em 1784, aos 33 anos, Nannerl casou-se com um magistrado e mudou-se para a pequena cidade de Sankt Gilgen.

Johann Baptist Franz Freiherr havia ficado viúvo duas vezes e tinha cinco filhos, que Nannerl ajudou a criar. O casal teve três filhos juntos.

A comunicação com o irmão continuou. Ele lhe enviava suas composições para tocar e era atencioso com sua opinião. Ele também lhe dedicava peças.

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Nannerl virou uma professora de piano de destaque Crédito: DeAgostini/Getty Images

"Acho que era uma relação muito próxima e bonita. Não creio que houvesse ciúme da parte dela; pelo contrário, havia muito amor e apoio, porque eles eram realmente como um só", diz Milo.

Após a morte do marido, Nannerl deixou Sankt Gilgen e retomou sua carreira como professora de piano.

Ela chegou a fazer algumas apresentações solo como baronesa.

'Um espaço para ela e seu piano'

Com base em sua pesquisa, Milo diz ter ficado impressionada com a força de Nannerl, mas também com a sabedoria com que ela encarava a vida.

"Ela não se deixou abater", diz ela. "Talvez esse seja o ponto principal, porque acho que muitas pessoas teriam desmoronado e se tornado amarguradas."

"Ela deve ter se sentido profundamente decepcionada por, de repente, não poder mais continuar com a vida que levava, por se sentir tão limitada pelo que podia e não podia fazer."

Apesar de suas responsabilidades como esposa e mãe, Nannerl continuou a reservar tempo para a música.

"Temos cartas em que seu pai lhe pergunta como ela consegue praticar três horas por dia em vez de fazer caminhadas mais longas para o bem de sua saúde."

"Mas ela sabia que precisava tocar por essas três horas, que isso fazia bem para sua saúde mental."

Milo foi até a casa onde Nannerl morou com o marido e os filhos.

"Há um pequeno cômodo onde ela guardava o fortepiano que seu pai lhe dera de presente de casamento." "Não era uma sala grande onde várias pessoas pudessem se sentar e ouvi-la. Era um espaço pequeno para ela e seu piano. Ela tocava para si mesma, para o seu lado artístico."

"E talvez tenha sido isso que a salvou; ela simplesmente continuou criando sua arte."

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