Publicado em 22 de fevereiro de 2026 às 14:12
Maxim não se importa em falar sobre seu esperma. Na verdade, ele gostaria que mais militares ucranianos falassem sobre sua fertilidade, ou pelo menos pensassem nisso.>
"Nossos homens estão morrendo. O conjunto genético [ou pool genético] ucraniano está morrendo. Isso é sobre a sobrevivência da nossa nação", diz o soldado, por telefone, de uma posição em algum ponto próximo à linha de frente leste, em entrevista à BBC News.>
O homem de 35 anos serve na Guarda Nacional da Ucrânia e, quando ele voltou recentemente de licença, sua esposa o convenceu a visitar uma clínica em Kiev e deixar uma amostra de esperma.>
O esperma foi congelado gratuitamente como parte de um programa para ajudar os militares em serviço.>
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Se Maxim for morto, sua esposa poderá usar a amostra para tentar ter o filho que eles sempre quiseram.>
Mas ele afirma que seu esperma congelado pode ser crucial para formar uma família, de qualquer forma.>
Esteja você no 'ponto zero' da linha de frente, ou a 30 ou até 80 quilômetros atrás, não há garantia de que esteja seguro", diz o soldado, explicando que os drones russos sobrevoando a região são uma ameaça constante.>
"Isso significa estresse, e isso [pode ter] um impacto: sua capacidade reprodutiva cai. Então, nós precisamos pensar no futuro e no futuro da nossa nação ucraniana".>
As clínicas de fertilização privadas começaram a oferecer o que é chamado de criopreservação a militares em 2022, o início da invasão em larga escala da Rússia.>
Eles podiam congelar o esperma ou os óvulos gratuitamente, caso fossem feridos em combate ou tivessem a fertilidade afetada.>
No ano seguinte, o Parlamento interveio para regulamentar a prática e garantir financiamento estatal.>
"Os nossos soldados estão defendendo o nosso futuro, mas muitos perdem o próprio, então quisemos lhes dar essa chance", afirma a deputada Oksana Dmitrieva, ao descrever a lei que ajudou a redigir.>
"É para os ajudar, para que possam usar seu esperma mais tarde.">
Os esforços iniciais dos parlamentares causaram indignação pública ao estabelecer que todas as amostras de soldados deveriam ser destruídas em caso de morte do doador. O caso veio à tona quando uma viúva de um soldado de guerra tentou ter um filho usando o esperma congelado do marido e foi impedida.>
A lei foi alterada posteriormente para garantir que todas as amostras de militares sejam preservadas gratuitamente por até três anos após a morte e fiquem disponíveis para uso pelo parceiro, mediante consentimento prévio por escrito.>
O programa também busca enfrentar uma crise demográfica que já existia antes da invasão russa, mas que se agravou com o grande número de homens mortos em combate, muitos deles entre os mais jovens e em melhor forma física.>
E há ainda milhões de refugiados, sobretudo mulheres, que deixaram o país. Quatro anos depois, muitas delas ainda continuam no exterior, porque a vida na Ucrânia não está mais fácil.>
Essa realidade fica ainda mais evidente quando encontro a deputada Dmitrieva no saguão de um hotel e conversamos sem tirar os casacos: neste inverno, os ataques incessantes de mísseis da Rússia à rede elétrica deixaram milhares de edifícios em Kiev congelando.>
"Também estamos pensando no futuro e em todos os jovens que perdemos. Nós precisamos substituí-los", afirma Dmitrieva. "Este é um pequeno passo para melhorar a situação demográfica.">
Em suas próprias visitas à linha de frente, a parlamentar incentiva os soldados a falar sobre a sua vida sexual e problemas de fertilidade, e a considerar o congelamento de esperma.>
"No começo, eles ficam muito constrangidos, mas conversamos e eu digo para contarem a outros, e então eles vêm e fazem", diz.>
"Se eles têm essa chance, por que não? Não dói!">
O centro estatal de medicina reprodutiva de Kiev passou a aceitar militares no programa de "esperma congelado" em janeiro.>
Apenas cerca de uma dúzia se inscreveu até agora, mas a clínica acredita que isso mudará quando a iniciativa se popularizar.>
"Nós esperamos uma grande demanda. Nós temos grandes esperanças", afirma a diretora Oksana Holikova, enquanto me conduz ao laboratório onde o "biomaterial" é coletado, preparado e depois armazenado.>
Tanques gigantes se abrem com uma nuvem que lembra gelo seco, revelando longos e estreitos tubos suspensos no interior, cheios de esperma.>
O percurso por corredores silenciosos revela as tensões encobertas dessa guerra: apenas um recém-nascido balbuciando no berço e uma mulher em trabalho de parto. O número de pacientes grávidas atendidas pela clínica caiu pela metade desde o início da guerra em larga escala.>
"Se as mulheres estão estressadas, elas [podem] ter problemas com o ciclo menstrual. Está tudo interligado", observa Holikova. "Cerca de 60% das minhas pacientes usam antidepressivos, incluindo pessoas com ataques de pânico por causa dos mísseis e drones.">
Outras mulheres apresentam o que ela chama de "síndrome da vida adiada": pausando decisões importantes da vida, incluindo a maternidade. "As mulheres têm medo de engravidar se isso significar ter de se refugiar em abrigos antibomba.">
Por isso, a Ucrânia precisa de cada recém-nascido possível.>
Mas a legislação criada para ajudar as famílias militares nem sempre funciona sem entraves.>
Katerina Malyshko e o marido, Vitaly, vinham tentando ter um filho há algum tempo. Ela acredita que as dificuldades para engravidar naturalmente foram causadas, ou ao menos agravadas, pela guerra: "todo o estresse e as noites sem dormir", diz Malyshko. "Toda noite é como uma loteria: você não sabe se vai acordar.">
O jovem casal celebraria neste ano o quarto aniversário de casamento, talvez com um bebê. No inverno passado, tinham três embriões viáveis na clínica de fertilidade, e Malyshko deveria transferi-los para o útero.>
Então, Vitaly foi morto.>
"Foi um ataque direto com uma bomba guiada, ele não teve chance", afirma.>
Malyshko fala abertamente sobre a luta para continuar vivendo sem o seu marido. Sua dor ficou ainda maior quando a clínica informou que ela não tinha direito de prosseguir com o tratamento usando os embriões congelados ou o esperma de Vitaly.>
"Eles armazenariam", diz. "Mas eu não podia usar.">
A deputada Oksana Dmitrieva interveio diretamente junto a algumas clínicas para garantir atendimento às famílias de militares. Mas ela admite que a nova lei ainda precisa de "ajustes".>
Uma votação sobre diversas emendas está prevista para a primavera.>
Mas Malyshko, desesperada e em luto, recorreu à Justiça e só depois de seis meses emocionalmente exaustivos, é que um juiz decidiu finalmente a seu favor.>
"Eu li a decisão e então me sentei e chorei. Porque era a nossa família. Nós tínhamos esperado tanto por isto e passado por tanto", recorda Malyshko. "Eu senti alegria e tristeza ao mesmo tempo, porque tive de lutar pelos meus direitos. Mas eu queria fazer isso, para honrar o meu marido.">
Malyshko ainda não está pronta para tentar ter um filho: diz que se sente ainda muito frágil.>
Ela também não acredita que a guerra vai terminar tão cedo, o que lhe permitiria dar à luz em um país em paz.>
"Se fizermos concessões agora, então por que é que tantas pessoas morreram?", reage, diante da hipótese de que a Ucrânia possa ceder territórios que Vitaly defendia quando foi morto, para que a Rússia encerre sua invasão.>
Mas Malyshko quer manter a possibilidade de ter o filho do marido quando se sentir preparada para isso.>
"Eu acho que os filhos dos nossos soldados mortos em combate devem ter a chance de viver: eles têm o direito de viver no país pelo qual os seus pais morreram.">
Na linha de frente, sob perigo constante, Maxim concorda.>
"Foi por isso que eu fiz, e é ótimo", diz o soldado por telefone. "Porque talvez amanhã eu simplesmente não esteja mais aqui. Mas minha esposa vai ter meu esperma e poderá usá-lo. É uma preocupação a menos.">
O maior obstáculo, segundo Maxim, é convencer os homens a aderir ao programa.>
A diretora da clínica em Kiev, Holikova, relata ter conversado com um veterano de guerra que lhe disse que os soldados o procuravam aos prantos porque tinham dificuldade para manter relações sexuais com as parceiras ou para conceber.>
"Os homens são reservados, mas há muitos problemas psicológicos envolvidos", admite Maxim.>
Ele sugere que os soldados poderiam ser orientados a congelar o esperma ao serem convocados, da mesma forma que deixam amostras de DNA para identificação em caso de morte.>
"O que impede as pessoas é que precisamos falar mais sobre isso e explicar por que é importante", conclui.>
"Porque nós, homens, não faremos nada a não ser que vocês nos obriguem – e nos façam fazer isso.">
Reportagem adicional de Tetiana Dankevych>
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