Publicado em 8 de setembro de 2025 às 12:33
Por anos, visitantes subiam o Monte Sinai acompanhados por guias beduínos para assistir ao nascer do sol sobre a paisagem rochosa e intocada ou participar de outras trilhas conduzidas pelos beduínos.>
Agora, um dos locais mais sagrados do Egito — venerado por judeus, cristãos e muçulmanos — está no centro de uma controvérsia acalorada devido a planos de transformá-lo em um megaprojeto turístico.>
Conhecido localmente como Jabal Musa, o Monte Sinai é o lugar onde, segundo a tradição, Moisés recebeu os Dez Mandamentos. Muitos também acreditam que este é o local onde, de acordo com a Bíblia e o Alcorão, Deus falou com o profeta a partir da sarça ardente.>
O Mosteiro de Santa Catarina, do século 6º, administrado pela Igreja Ortodoxa Grega, também está ali — e aparentemente seus monges permanecerão, depois que as autoridades egípcias, sob pressão da Grécia, negaram qualquer intenção de fechá-lo.>
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No entanto, ainda há grande preocupação sobre como a área isolada no deserto — um sítio do Patrimônio Mundial da Unesco que inclui o mosteiro, a cidade e a montanha — está sendo transformada. Hotéis de luxo, vilas e bazares comerciais estão em construção na região.>
O local também abriga uma comunidade beduína tradicional, a tribo Jebeleya. A tribo, conhecida como Guardiões de Santa Catarina, já teve suas casas e acampamentos turísticos ecológicos demolidos, com pouca ou nenhuma compensação. Eles chegaram até a ser obrigados a remover corpos de seus túmulos no cemitério local para dar lugar a um novo estacionamento.>
O projeto pode ter sido apresentado como um desenvolvimento sustentável urgentemente necessário, que aumentaria o turismo, mas também foi imposto aos beduínos contra a vontade deles, afirma Ben Hoffler, escritor de viagens britânico que trabalhou de perto com as tribos do Sinai.>
"Isso não é desenvolvimento do jeito que os Jebeleya veem ou pediram, mas sim como fica quando é imposto de cima para baixo para servir aos interesses de forasteiros em vez da comunidade local", disse ele à BBC.>
"Um novo mundo urbano está sendo construído ao redor de uma tribo beduína de origem nômade", acrescentou. "É um mundo do qual eles sempre escolheram permanecer afastados, cuja construção não consentiram e que mudará para sempre seu lugar em sua própria terra.">
Os moradores locais, que somam cerca de 4 mil pessoas, não estão dispostos a comentar diretamente sobre as mudanças.>
Até o momento, a Grécia é a potência estrangeira que mais se manifestou sobre os planos egípcios, devido à sua ligação com o mosteiro.>
As tensões entre Atenas e Cairo aumentaram depois que um tribunal egípcio decidiu, em maio, que Santa Catarina — o mosteiro cristão em uso contínuo mais antigo do mundo — está situado em terras do Estado.>
Após uma disputa que durou décadas, os juízes afirmaram que o mosteiro tinha apenas o "direito de uso" da terra em que se encontra e dos sítios arqueológicos religiosos ao redor.>
O arcebispo Jerônimo 2º, de Atenas, líder da Igreja da Grécia, denunciou rapidamente a decisão:>
"As propriedades do mosteiro estão sendo tomadas e expropriadas. Este farol espiritual da Ortodoxia e do Helenismo enfrenta agora uma ameaça existencial", afirmou em comunicado.>
Em uma rara entrevista, o arcebispo Damianos, antigo responsável por Santa Catarina, disse a um jornal grego que a decisão representava "um golpe grave para nós... e uma vergonha". Sua condução do caso provocou divisões amargas entre os monges e motivou sua recente decisão de renunciar.>
O Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém ressaltou que o local sagrado — sobre o qual tem jurisdição eclesiástica — havia recebido uma carta de proteção do próprio profeta Maomé.>
O patriarcado afirmou que o mosteiro bizantino — que, de forma incomum, também abriga uma pequena mesquita construída na era fatímida — é "um símbolo de paz entre cristãos e muçulmanos e um refúgio de esperança em um mundo mergulhado em conflitos".>
Embora a controversa decisão judicial ainda esteja em vigor, uma série de esforços diplomáticos culminou em uma declaração conjunta entre Grécia e Egito, garantindo a proteção da identidade grego-ortodoxa e do patrimônio cultural de Santa Catarina.>
O Egito iniciou em 2021 seu Projeto de Transfiguração, patrocinado pelo Estado, voltado ao turismo. O plano inclui a construção de hotéis, ecolodges (acomodação turística) e um grande centro de visitantes, além da expansão do pequeno aeroporto próximo e de um teleférico até o Monte Sinai.>
O governo promove o desenvolvimento como "o presente do Egito para o mundo inteiro e todas as religiões".>
"O projeto fornecerá todos os serviços turísticos e de lazer para os visitantes, promoverá o desenvolvimento da cidade [de Santa Catarina] e das áreas ao redor, preservando o caráter ambiental, visual e patrimonial da natureza intocada, e oferecerá acomodações para aqueles que trabalham nos projetos de Santa Catarina", disse o ministro da Habitação, Sherif el-Sherbiny, no ano passado.>
Embora o trabalho pareça ter sido interrompido — ao menos temporariamente — por questões de financiamento, a Planície de el-Raha, com vista para o Mosteiro de Santa Catarina, já foi transformada. A construção de novas estradas continua.>
É nesse local que os seguidores de Moisés, os israelitas, teriam esperado por ele durante seu tempo no Monte Sinai. E críticos afirmam que as características naturais especiais da área estão sendo destruídas.>
Destacando o valor universal excepcional do sítio, a Unesco observa como "a paisagem montanhosa e acidentada ao redor... forma um cenário perfeito para o Mosteiro".>
Ela acrescenta: "Sua localização demonstra uma tentativa deliberada de estabelecer um vínculo íntimo entre a beleza natural e o isolamento, por um lado, e o compromisso espiritual humano, por outro.">
Em 2023, a Unesco destacou suas preocupações e pediu ao Egito que interrompesse os empreendimentos, avaliasse seu impacto e elaborasse um plano de conservação.>
Isso não aconteceu.>
Em julho, a World Heritage Watch enviou uma carta aberta pedindo ao Comitê do Patrimônio Mundial da Unesco que colocasse a área de Santa Catarina na Lista de Patrimônios Mundiais em Perigo.>
Ativistas também procuraram o rei Charles 3º, como patrono da St Catherine Foundation, que arrecada fundos para conservar e estudar o patrimônio do mosteiro, incluindo sua coleção de valiosos manuscritos cristãos antigos. O rei descreveu o local como "um grande tesouro espiritual que deve ser preservado para as futuras gerações".>
O megaempreendimento não é o primeiro no Egito a receber críticas por falta de sensibilidade à história única do país.>
Mas o governo vê sua série de projetos grandiosos como essencial para reativar a economia enfraquecida.>
O setor turístico do Egito, que antes prosperava, começava a se recuperar dos efeitos da pandemia de Covid-19 quando foi atingido pela guerra brutal em Gaza e por uma nova onda de instabilidade regional. O governo estabeleceu como meta atingir 30 milhões de visitantes até 2028.>
Sob sucessivos governos egípcios, o desenvolvimento comercial do Sinai tem sido realizado sem consultar as comunidades beduínas indígenas.>
A península foi ocupada por Israel durante a Guerra do Oriente Médio em 1967 e só retornou ao Egito após os dois países assinarem um tratado de paz em 1979. Desde então, os beduínos reclamam de terem sido tratados como cidadãos de segunda classe.>
A construção dos populares destinos do Mar Vermelho no Egito, incluindo Sharm el-Sheikh, começou no sul do Sinai na década de 1980. Muitos veem semelhanças com o que está acontecendo em Santa Catarina agora.>
"Os beduínos eram o povo da região, eram os guias, os trabalhadores, as pessoas de quem se alugava", diz o jornalista egípcio Mohannad Sabry.>
"Então o turismo industrial chegou e eles foram afastados — não apenas do negócio, mas fisicamente empurrados do mar para o interior.">
Como aconteceu com os destinos do Mar Vermelho, espera-se que egípcios de outras partes do país sejam trazidos para trabalhar no novo complexo de Santa Catarina. No entanto, o governo afirma que também está "modernizando" as áreas residenciais dos beduínos.>
O Mosteiro de Santa Catarina suportou muitas transformações ao longo do último milênio e meio, mas, quando os monges mais antigos do local se instalaram ali, ainda se tratava de um refúgio remoto.>
Isso começou a mudar com a expansão dos resorts do Mar Vermelho, que trouxe milhares de peregrinos em visitas de um dia nos períodos de maior movimento.>
Nos últimos anos, grandes multidões eram frequentemente vistas passando pelos supostos restos da sarça ardente ou visitando um museu que exibe páginas do Códice Sinaítico – a cópia manuscrita quase completa mais antiga do Novo Testamento que sobreviveu até hoje.>
Agora, embora o mosteiro e a profunda importância religiosa do local permaneçam, seus arredores e modos de vida seculares parecem prestes a serem transformados de maneira irreversível.>
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