Publicado em 23 de outubro de 2025 às 10:32
Aviso: o artigo contém informações que podem ser consideradas perturbadoras>
Quando uma menina de 14 anos começou a conversar com outros adolescentes pela internet, sua mãe não se preocupou muito.>
Mas, em poucas semanas, Christina (nome fictício) percebeu que o comportamento da filha havia saído do controle.>
A adolescente havia caído nas redes do grupo satanista de extrema direita chamado 764, formado principalmente por adolescentes e jovens que buscam fazer mal às meninas.>
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Pelo menos quatro adolescentes britânicos foram presos em conexão com as atividades do grupo internacional, entre eles Cameron Finnigan, membro do 764, de Horsham, em West Sussex, condenado a seis anos de prisão em janeiro.>
Christina acredita que a filha foi alvo do grupo 764 depois de visitar uma sala de bate-papo onde as pessoas discutiam automutilação.>
O grupo convence as vítimas a praticar atos sexuais, se automutilar e até mesmo tentar o suicídio durante chamadas de vídeo ao vivo, enquanto seus membros assistem.>
Segundo Christina, um integrante do 764 ganhou a confiança de sua filha antes de manipulá-la e coagí-la.>
Ela relatou: "Vi minha mãe ser diagnosticada com câncer de mama em estágio quatro e lutar pela vida, e não foi tão difícil quanto ver minha filha se deteriorar".>
"Ela se deteriorou mais rápido e pior do que assistir alguém essencialmente morrendo de câncer.">
Christina disse que tirar a filha do controle do grupo 764 foi um grande desafio.>
"Eu ficava dizendo: 'apenas bloqueie-os, pare de falar com eles', mas eu não estava vendo o nível de influência que já existia, nem o nível de medo", contou.>
"Eles a esmagaram completamente para fazê-la sentir que não era absolutamente nada sem eles ou com eles.">
Christina e a filha estão reconstruindo a vida aos poucos, e ela diz querer que outros pais entendam o perigo que esses grupos representam.>
"Minha filha parou de dormir. Parou de comer", afirmou. "Como mãe, eu me sentia sozinha. Eu estava assustada, estava desamparada, sem esperança.">
A Agência Nacional do Crime (NCA, na sigla em inglês) considera grupos como o 764 uma das "ameaças online mais graves e sérias" com as quais lida atualmente.>
Rob Richardson, vice-chefe da divisão de combate ao abuso sexual infantil online da NCA, afirma que os membros desses grupos estão cada vez mais jovens e que seus crimes são pouco denunciados.>
"Conseguir falar com as vítimas costuma ser bastante desafiador do ponto de vista da aplicação da lei", disse Richardson.>
"Muitas vezes, elas não se reconhecem como vítimas, o que torna tudo ainda mais difícil. As meninas jovens são extremamente vulneráveis.">
O conselho aos pais é que demonstrem interesse no que elas estão fazendo na internet, usem controles parentais e, se possível, tentem ter conversas sem julgamentos.">
A Fundação Molly Rose, criada em memória de Molly Russell, de 14 anos, que cometeu suicídio após ser exposta a conteúdo nocivo na internet, afirma estar alarmada com o "crescimento explosivo" de grupos como o 764.>
Andy Burrows, CEO da fundação, disse: "Sabemos que eles estão operando abertamente em grandes plataformas que a maioria das crianças deste país usa todos os dias. Esses grupos estão na linha de frente da ameaça de suicídio e automutilação que nossos adolescentes enfrentam.">
A rede 764 foi fundada em 2020 por um adolescente americano, Bradley Cadenhead, então com 15 anos. Acredita-se que o nome tenha sido inspirado em parte do código postal de sua cidade natal, no Texas.>
Segundo a polícia, o grupo integra uma rede internacional de grupos de extrema direita que adotam o que os policiais chamam de "ideologia aceleracionista militante".>
Em conversas online, Finnigan — que entrou para o grupo 764 depois de a filha de Christina ter sido alvo — se gabava com outros membros de suas tentativas de induzir crianças a se machucarem.>
Após sua prisão, Finnigan, então com 18 anos, foi questionado pela polícia sobre o que sabia a respeito do grupo 764.>
Finnigan disse: "Eles extorquem pessoas com problemas raciais, de saúde mental ou que sejam mentalmente vulneráveis para que qualquer um possa realmente se aproveitar".>
Finnigan se declarou culpado por incentivar o suicídio e por possuir um manual de terrorismo e imagens indecentes de uma criança.>
Na sentença, o juiz afirmou que Finnigan representava "alto risco de causar sérios danos ao público".>
A polícia antiterrorismo alerta que o grupo representa uma "ameaça imensa".>
Desde 2009, a unidade de Combate ao Terrorismo do Sudeste do Reino Unido é responsável por coordenar a resposta regional contra o terrorismo e oferecer apoio especializado às forças policiais de Hampshire, Kent, Surrey, Sussex e do Thames Valley.>
A detetive superintendente Claire Finlay, chefe da unidade, disse: "O caso de Cameron Finnigan realmente expôs o controle que esses grupos online exercem. Parte do nosso trabalho é justamente fazer com que pais, responsáveis e tutores estejam mais cientes do perigo e do que os jovens estão sendo levados a fazer.">
No ano passado, o FBI (a polícia federal americana) emitiu um alerta sem precedentes sobre o grupo 764, afirmando que ele "usa ameaças, chantagem e manipulação para controlar as vítimas e levá-las a gravar ou transmitir ao vivo automutilações, atos sexuais explícitos e/ou suicídios".>
O grupo costuma buscar meninas vulneráveis nas redes sociais, sobretudo em comunidades sobre automutilação ou saúde mental. Integrantes se comunicam com elas por aplicativos de mensagens como Discord e Telegram, e frequentemente enviam material de abuso infantil com conteúdo sexual explícito.>
O órgão revelou ter aberto investigações contra 250 pessoas ligadas ao 764 e a outras redes online.>
Prisões relacionadas ao grupo já foram feitas por crimes de abuso infantil, sequestro e homicídio em pelo menos oito países, incluindo o Reino Unido.>
Em entrevista ao podcast Assume Nothing: Creation of a Teenage Satanist, nova série da BBC que investiga o grupo 764, o principal responsável pela investigação do caso de Cameron Finnigan afirmou temer que mais jovens sejam influenciados a cometer crimes violentos.>
Ele disse: "Cada vez mais pessoas que, inicialmente, se envolveram com o [764] por acharem divertido explorar pessoas vulneráveis ou fazer trotes com falsas ameaças de bomba acabam sendo radicalizadas dentro do próprio grupo".>
O governo federal brasileiro publicou uma cartilha em 2020 com orientações sobre a proteção de crianças e adolescentes na internet. "A melhor prevenção é a informação, pois ao conhecerem os reais riscos e ameaças, as crianças e os adolescentes poderão se prevenir.">
Há sete principais recomendações no material:>
Se você ou alguém que conhece foi vítima de assédio ou abuso, na internet ou fora dela, há serviços públicos que oferecem orientação e acolhimento:>
Se houver sinais de risco de suicídio ou se você perdeu alguém por suicídio, também existem canais de ajuda:>
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