Publicado em 3 de março de 2026 às 13:08
Desde a publicação dos últimos arquivos do caso Epstein, não foram apenas as principais redações de notícias que começaram a vasculhar aquele vasto conjunto de documentos. O caso também despertou amplo interesse do público na internet.>
Entre os jornalistas cidadãos independentes que apoiam este trabalho, está a escritora Ellie Leonard.>
Dos Estados Unidos, ela trabalha em conjunto com outras pessoas para destrinchar o mais recente lote de documentos publicado pelo Departamento de Justiça americano.>
"Preciso aceitar a ideia de que não consigo examinar integralmente 3,5 milhões de páginas", confidenciou Leonard à BBC.>
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Ela conta que, inicialmente, não sabia nada sobre Jeffrey Epstein (1953-2019). Mas ela começou a pesquisar as relações de Epstein com o presidente americano Donald Trump, inspirada pelo seu interesse na justiça social e sua oposição às políticas econômicas e de imigração do presidente.>
O último lote de material, publicado em 30 de janeiro, incluiu três milhões de páginas, 180 mil imagens, 2 mil vídeos e uma série de nomes conhecidos, como os empresários Richard Branson, Bill Gates e Elon Musk.>
Não há nenhuma indicação de que a menção deles nos documentos implique qualquer irregularidade. Muitas pessoas que aparecem nos documentos publicados anteriormente negaram ter cometido qualquer ilegalidade.>
Leonard afirma que se demitiu do emprego na escola do seu filho no final de dezembro de 2025 para se dedicar a esta tarefa. Mas, com o aumento do material, ela logo percebeu que precisaria de ajuda.>
A publicação recente veio semanas depois do prazo definido pela Lei de Transparência dos Arquivos de Epstein, sancionada por Trump em novembro. A lei exigiu a publicação completa de todos os documentos relativos ao caso.>
Leonard convidou pessoas de todo o mundo para ajudá-la a examinar os arquivos e "elas responderam ao meu chamado", nas suas palavras.>
Ela calcula que bem mais de 1 mil jornalistas cidadãos, de países como a Coreia do Sul até a Noruega, se uniram ao seu projeto na plataforma online Substack. Eles têm interesses e especialidades variadas, desde a psicanálise e métrica de dados até o direito.>
Leonard tem experiência em simplificar documentos políticos complexos, para ajudar as pessoas a se informar melhor antes de votar. Por isso, ela sentiu que poderia ajudar da mesma forma com os arquivos de Epstein.>
Mas sua principal motivação é conseguir justiça para as vítimas cujos relatos, muitas vezes, não receberam crédito.>
"Quando as mulheres ou sobreviventes se apresentam e contam sua história, vou acreditar nelas. Vou dar a elas o benefício da dúvida.">
"Depois, vou começar a procurar e encontrar o que elas dizem. Acho que é muito importante validar suas histórias desta forma", ela conta.>
A abordagem do grupo é diferente da de muitos órgãos de imprensa. Em vez de começar pelo topo de cada lote de documentos recém-publicado, onde normalmente são encontrados os vídeos, cópias de tela e citações de maior circulação, ela aconselha o grupo a começar em outra parte.>
"Quando sai uma nova pilha de arquivos, existem muitos pontos de destaque que as pessoas comentam sem parar... e eles costumam vir do começo das pilhas", explica ela.>
"Por isso, sempre recomendo que as pessoas se dividam e comecem no meio, perto do fim ou de trás para frente, porque tudo está fora de ordem.">
Dividindo os documentos desta forma, ela conta que o grupo pode comparar anotações, identificar lacunas e evitar trabalho em duplicidade muito mais facilmente.>
"Todos estão procurando com seus próprios conhecimentos e sua própria parte dos arquivos e estamos todos trabalhando em conjunto", segundo Leonard.>
Leonard destaca que o diálogo público costuma gravitar em torno das figuras mais conhecidas mencionadas nos documentos — as "grandes personalidades" que dominam as manchetes quando é publicado novo material.>
Mas ela ressalta que este foco pode obscurecer outras partes dos registros que são igualmente importantes.>
"Acho que, neste caso, existem pontos menores que contêm mais detalhes", explica ela.>
Trocas de e-mail, comunicações internas e pequenos fragmentos de evidências, segundo Leonard, "servem de recibos das histórias das sobreviventes".>
Ela menciona uma mulher que forneceu às autoridades o nome de Epstein logo no início do processo.>
"Maria Farmer fez a denúncia ao FBI em 1996", relembra ela, "e agora pudemos ver que o que ela dizia era verdade.">
Farmer é uma artista que trabalhou para Epstein. Ela declarou ao FBI que Epstein havia roubado fotos pessoais tiradas por ela das suas irmãs de 12 e 16 anos de idade.>
Na denúncia, ela disse acreditar que Epstein tenha vendido as fotos para possíveis compradores e que ele ameaçou incendiar sua casa se ela contasse isso a alguém.>
Farmer também acusou Epstein de ter pedido a ela que tirasse fotos de meninas jovens em piscinas para ele.>
Após a publicação dos arquivos, Farmer declarou se sentir "redimida", após quase 30 anos.>
Leonard conta que, para ela, o efeito cumulativo de pequenas evidências é o mais surpreendente, devido à forma em que elas preenchem as lacunas e confirmam a linha do tempo.>
"Posso ver o que as pessoas estavam pensando, com quem elas falavam, quem eram seus amigos, onde elas deixaram cair a guarda e quais informações elas nos fornecem naquelas conversas", segundo ela.>
"Realmente acho que os pontos importantes deste caso virão dessas conversas, pois eles nunca acreditaram que elas viessem a público.">
Leonard afirma que observa os documentos sem a experiência de um jornalista tradicional, mas com as técnicas analíticas derivadas da sua formação em arte e cultura clássica.>
"O jornalismo tradicional se baseia em manter padrões, em se manter vigilante", explica ela. "Penso especificamente em mim, eu realmente me concentro nas citações e na apuração dos fatos.">
Ela ainda consulta jornalistas formados conhecidos e mostra a eles os textos antes da publicação.>
"Recebo muitos incentivos deles. E acho que isso me permite seguir adiante, sabendo que contei a história da melhor forma que posso.">
Como mãe, Leonard afirma que, para ela, este trabalho é de "responsabilização".>
"Sou mãe e farei o que for preciso para fazer do mundo um lugar melhor e mais seguro para meus filhos.">
Em relação ao seu trabalho investigativo, ela espera que ele traga conclusões.>
"É preciso colocar um fim para essas sobreviventes e elas precisam encontrar justiça", afirma Leonard. "Acho que o objetivo é encontrar isso para elas — e é por isso que todos nós estamos trabalhando tanto.">
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