Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 11:09
Foday Musa fica arrasado quando ouve a última mensagem de voz que recebeu do seu filho.>
São 76 segundos de duração. O jovem parece desesperado. Ele chora e suplica pela ajuda do pai.>
"É muito difícil ouvi-lo. Escutar sua voz dói", declarou Musa à BBC News África.>
A equipe do programa investigativo BBC Africa Eye teve acesso exclusivo a uma unidade policial que ajudou Musa na busca de dois dos seus filhos, vítimas de criminosos.>
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Em fevereiro de 2024, agentes prometendo trabalho no exterior recrutaram seu filho de 22 anos e sua filha de 18, além de mais cinco pessoas, na remota aldeia da região de Faranah, na região central da Guiné, onde eles moravam.>
O trabalho nunca se materializou e os supostos recrutadores, na verdade, eram traficantes de pessoas. O grupo foi levado para o outro lado da fronteira e mantido em cativeiro em Serra Leoa.>
"Meu coração está destruído", lamenta Musa. "Não consigo parar de chorar. Se você olhar nos meus olhos, pode ver a dor.">
Seu caso foi acolhido pela agência policial internacional Interpol na Guiné, que pediu ajuda à sua unidade em Serra Leoa.>
Em agosto do ano passado, Musa viajou para Makeni, no centro de Serra Leoa, para tentar encontrá-los.>
Milhares de pessoas em toda a África ocidental são ludibriadas pelo esquema de tráfico de pessoas conhecido como QNET.>
Criada em Hong Kong, a QNET é uma empresa legítima, dedicada ao bem-estar e estilo de vida. Ela permite que as pessoas se inscrevam para comprar seus produtos e vendê-los online.>
Seu modelo de negócio enfrentou algumas críticas. Mas, na África ocidental, existem gangues criminosas que usam seu nome como cobertura para ocultar suas atividades ilegais.>
Os traficantes procuram pessoas com a promessa de oportunidades de trabalho em lugares como os Estados Unidos, Canadá, Dubai (Emirados Árabes Unidos) e Europa. Eles pedem o pagamento de grandes somas de dinheiro para cobrir gastos administrativos, antes de começar o trabalho.>
Após o pagamento, as pessoas são frequentemente levadas para um país vizinho, sob o pretexto de que só poderão viajar depois de recrutarem outras pessoas para o programa.>
Mas, mesmo quando elas trazem familiares e amigos, o trabalho nunca se torna realidade.>
A própria QNET criou uma campanha em toda a região, com outdoors e anúncios nos meios de comunicação. Todos eles trazem o slogan "QNET contra os golpes" e a empresa rejeitou as acusações de que estaria vinculada ao tráfico de pessoas.>
Musa e sua família entregaram aos traficantes US$ 25 mil (cerca de R$ 130 mil). O valor incluiu as quotas de inscrição e o dinheiro extra pago para tentar fazer com que seus filhos voltassem para casa.>
Viajar pessoalmente para Serra Leoa era sua última esperança.>
Mahmou Conteh é chefe de investigações da unidade contra o tráfico de pessoas da Interpol, dentro da polícia de Serra Leoa. Ele afirmou que o caso é prioritário para sua unidade.>
"É muito fácil para esses traficantes atravessar cada uma das nossas fronteiras, nos pontos de cruzamento ilegais", declarou ele à BBC.>
Conteh recebeu um aviso de que um grande número de jovens estava retido em um local em Makeni. Musa participou da batida do imóvel junto com a polícia, na esperança de encontrar seus filhos.>
Bolsas e roupas estavam espalhadas pelo chão. Calcula-se que havia 10 a 15 pessoas dormindo em cada quarto.>
A equipe da Interpol reuniu todos os que se encontravam no imóvel e descobriu que alguns deles tinham apenas 14 anos.>
"A maioria é da Guiné", afirma Conteh. "Há só um serra-leonês entre eles. Todos os demais são guineanos.">
Os filhos de Musa não se encontravam no local. Mas um jovem declarou que eles haviam estado ali na semana anterior, o que seria o primeiro possível avistamento dos seus filhos em um ano.>
O grupo foi levado para a delegacia para triagem. Posteriormente, 19 deles foram levados de volta para a Guiné.>
A polícia informou ter realizado mais de 20 batidas como esta no ano passado, resgatando centenas de vítimas de tráfico de pessoas.>
Os traficantes frequentemente transportam suas vítimas através das fronteiras. Mas outras são vítimas do tráfico dentro dos seus próprios países.>
Foi o caso de Aminata, uma jovem de 23 anos de Serra Leoa. Seu nome é fictício, para proteger sua identidade.>
Sentada em uma cadeira de plástico, tendo ao fundo as colinas de Wusum, em Makeni, ela conta à BBC como uma amiga apresentou a ela certas pessoas que afirmavam ser representantes da QNET, em meados de 2024.>
Aminata foi aprovada em uma entrevista e disseram a ela que haveria um curso, antes do voo para os Estados Unidos, para que ela continuasse estudando e trabalhando.>
O único inconveniente era que ela precisaria pagar US$ 1 mil (cerca de R$ 5,2 mil) para participar do programa. Mas, certa de que o processo era legítimo, sua família deu a ela o dinheiro que estava guardado para sua faculdade.>
"Quando eles recrutam, eles dão comida e cuidam de você. Mas, com o passar do tempo, eles deixam de fazer isso", contou ela à BBC.>
Aminata explica que foi ali que precisou fazer um "esforço adicional" para sobreviver.>
"Você precisa vender seu corpo e dormir com homens para conseguir dinheiro e poder se manter", segundo ela.>
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Aminata conta que os recrutadores informaram que, se ela quisesse viajar, precisaria recrutar outras pessoas para o programa.>
Para isso, os traficantes deram a ela um número de telefone internacional, para parecer que ela já estava no exterior, quando entrasse em contato com eles.>
"Eles levam você para o aeroporto com boas roupas, como se estivesse a ponto de viajar. Dão um passaporte e documentos de viagem falsos", explicou ela. "Depois, tiram uma foto para que você envie aos seus amigos e familiares.">
Aminata conseguiu convencer seis familiares e amigos a se inscrever no programa, ainda com a esperança de que o trabalho nos Estados Unidos se tornasse realidade, o que nunca aconteceu.>
"Eu me senti mal porque eles perderam seu dinheiro e sofreram por minha culpa", lamenta ela.>
Aminata ficou retida por cerca de um ano em algum lugar na periferia da capital de Serra Leoa, Freetown, até se dar conta de que o trabalho nunca viria.>
Quando ela não conseguiu recrutar ninguém, os traficantes aparentemente concluíram que ela não era mais útil. E, quando ela decidiu fugir, eles não a detiveram.>
Voltar para casa depois de tudo o que ela havia enfrentado foi difícil, principalmente porque todos pensavam que ela estivesse morando no exterior.>
"Tive medo de voltar para casa", relembra ela.>
"Eu havia dito aos meus amigos que havia viajado para o exterior. Havia dito o mesmo para minha família. Pensava em todo o dinheiro que eles haviam me dado para chegar até ali.">
Não há estatísticas sobre o número de vitimas deste tipo de golpe. Mas a imprensa da África ocidental publica constantemente notícias sobre gangues que levam pessoas desesperadas a acreditar que esses programas de emprego no exterior são verdadeiros.>
A BBC acompanhou a polícia em uma dezena de batidas realizadas durante três dias em Makeni e conheceu centenas de jovens que haviam sido vítimas de tráfico em toda a região. Eles são provenientes de países como Burkina Faso, Guiné, Máli e Costa do Marfim.>
Ao todo, a polícia afirmou ter detido 12 supostos traficantes. Mas a realidade é que apenas alguns poucos casos resultaram em condenação.>
As autoridades da região contam com poucos recursos e costumam enfrentar árduas batalhas para combater este tipo de golpe.>
Estatísticas do Departamento de Estado americano indicam que, entre julho de 2022 (quando foi aprovada a lei contra o tráfico de pessoas em Serra Leoa) e abril de 2025, apenas quatro pessoas fora condenadas pelo crime.>
Musa não encontrou seus filhos e não teve outro remédio senão voltar para a Guiné sem eles, no final de setembro do ano passado.>
Conteh declarou à BBC que os traficantes liberaram os filhos de Musa pouco tempo depois.>
A BBC confirmou que a filha de Musa voltou para outro local da Guiné e não quis dar entrevista. Ela não entrou em contato com o pai, o que evidencia a vergonha sentida por muitas das vítimas deste golpe.>
O paradeiro do filho de Musa é desconhecido. E a situação continua sendo desesperadora para o pai.>
"Depois de tudo o que enfrentei, só quero que tudo isso termine para que eu possa ver meus filhos", lamenta Musa. "Eu adoraria que eles voltassem agora para a aldeia, adoraria que estivessem aqui comigo.">
Com colaboração de Paul Myles, Chris Walter, Olivia Acland e Tamasin Ford.>
Assista ao documentário da série Africa Eye (em inglês), que deu origem a esta reportagem, no canal da BBC News África no YouTube.>
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