Publicado em 14 de fevereiro de 2026 às 08:09
"Para se apaixonar por qualquer pessoa, faça isto.">
O título era extremamente provocador. E irresistível.>
Era um artigo publicado na seção Modern Love ("Amor Moderno", em tradução livre) do jornal americano The New York Times, assinado pela escritora Mandy Len Catron, e que rapidamente se tornou um fenômeno viral.>
Na verdade, foi uma das matérias mais lidas do jornal naquele 2015.>
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No texto, Catron relatava que ela e um conhecido da universidade decidiram testar um experimento criado por psicólogos que tentava "fazer duas pessoas se apaixonarem".>
O estudo, de 1997, foi liderado pelo psicólogo Arthur Aron, da Universidade de Stony Brook, em Nova York (EUA). A metodologia era simples, mas poderosa.>
O experimento consistia em colocar dois desconhecidos sozinhos em uma sala, sentados frente a frente, respondendo a 36 perguntas que se tornavam cada vez mais pessoais.>
Ao final, explicava Catron, os dois deveriam se olhar nos olhos por quatro minutos em silêncio.>
"Seis meses depois, dois participantes se casaram. Eles convidaram o laboratório todo para a cerimônia", dizia.>
Talvez o aspecto mais encantador do artigo fosse que o experimento também funcionou para ela e para o colega que respondeu ao questionário.>
Sim, eles se apaixonaram.>
É verdade que não eram desconhecidos e que não realizaram o experimento em um laboratório, mas em um bar. Ainda assim, as perguntas criaram um "espaço íntimo" que, em outras circunstâncias, "poderia levar semanas ou meses" para surgir.>
"Embora seja difícil atribuir todo o mérito ao estudo (talvez tivesse acontecido de qualquer maneira), foi uma forma de iniciar uma relação que parece intencional", escreveu.>
E há mais: no ano passado, dez anos após aquele experimento, eles se casaram.>
Então, isso significa que funciona?>
Antes de explicar os pontos fortes e as limitações do estudo, vale começar pelo que desperta mais curiosidade: as 36 perguntas.>
O questionário, descrito como um "procedimento de geração de proximidade", elaborado por Aron e sua equipe, está dividido em três blocos.>
Grupo 1:>
1. Se pudesse escolher qualquer pessoa do mundo, quem convidaria para um jantar?>
2. Você gostaria de ser famoso? De que forma?>
3. Antes de fazer uma ligação telefônica, você ensaia às vezes o que vai dizer? Por quê?>
4. Como seria um dia "perfeito" para você?>
5. Quando foi a última vez que você cantou para si mesmo? E para outra pessoa?>
6. Se pudesse viver até os 90 anos e manter a mente ou o corpo de alguém de 30 anos durante os últimos 60 anos de vida, qual escolheria?>
7. Você tem algum pressentimento secreto sobre como vai morrer?>
8. Cite três coisas que você e seu parceiro parecem ter em comum.>
9. Pelo que você se sente mais grato em sua vida?>
10. Se pudesse mudar qualquer coisa na sua criação, o que seria?>
11. Reserve quatro minutos e conte ao seu parceiro a história da sua vida com o máximo de detalhes possível.>
12. Se pudesse acordar amanhã tendo adquirido qualquer qualidade ou habilidade, qual seria?>
Grupo 2: >
13. Se uma bola de cristal pudesse revelar a verdade sobre você, sua vida, o futuro ou qualquer outra coisa, o que você gostaria de saber?>
14. Existe algo que você sonha fazer há muito tempo? Por que ainda não fez?>
15. Qual é a sua maior conquista na vida?>
16. O que você mais valoriza em uma amizade?>
17. Qual é a sua lembrança mais preciosa?>
18. Qual é a sua lembrança mais terrível?>
19. Se soubesse que vai morrer daqui a um ano, mudaria algo na forma como vive hoje? Por quê?>
20. O que a amizade significa para você?>
21. Que papel desempenham o amor e o afeto na sua vida?>
22. Revezem-se para compartilhar cinco características que cada um considera positivas no outro.>
23. Quão unida e afetuosa é sua família? Você sente que a sua infância foi mais feliz do que a da maioria das pessoas?>
24. Como você se sente em relação à sua relação com a sua mãe?>
Grupo 3: >
25. Revezem-se para fazer três afirmações verdadeiras que envolvam os dois. Por exemplo: "Nós dois estamos nesta sala nos sentindo…".>
26. Complete a frase: "Gostaria de ter alguém com quem compartilhar…".>
27. Se fosse se tornar amigo próximo do seu parceiro, o que seria importante que ele soubesse?>
28. Diga ao seu parceiro o que você gosta nele; seja muito sincero desta vez, mencionando coisas que não diria a alguém que acabou de conhecer.>
29. Compartilhe com seu parceiro um momento constrangedor da sua vida.>
30. Quando foi a última vez que você chorou diante de outra pessoa? E sozinho?>
31. Diga ao seu parceiro algo de que você gosta nele.>
32. Existe algo sério demais para fazer piada? O quê?>
33. Se você morresse hoje à noite sem poder falar com ninguém, o que mais se arrependeria de não ter dito? Por que ainda não disse?>
34. Sua casa está pegando fogo. Depois de salvar as pessoas e os animais, você pode voltar uma última vez para pegar um objeto. Qual escolheria? Por quê?>
35. De todas as pessoas da sua família, qual a morte seria a mais dolorosa? Por quê?>
36. Compartilhe um problema pessoal e peça ao seu parceiro um conselho sobre como poderia enfrentá-lo. Além disso, peça que ele diga como acredita que você se sente em relação ao problema escolhido.>
Embora a história de amor de Mandy Len Catron seja real, o artigo apresentava dados incorretos ou imprecisos sobre o estudo original.>
Alguns pontos são detalhes, como o exercício final de se olhar nos olhos por quatro minutos, que não fazia parte do experimento.>
Mas outros são mais relevantes.>
No próprio artigo científico, os autores esclarecem que o objetivo do questionário era "desenvolver um sentimento temporário de proximidade, não um relacionamento real e duradouro".>
O que a equipe fez foi aplicar o conhecimento disponível à época sobre como se constrói uma relação próxima (que pode ser romântica, mas também de amizade) para criar um procedimento capaz de gerar o máximo de intimidade no menor tempo possível (45 minutos, especificamente).>
Segundo o estudo, "um padrão fundamental associado ao desenvolvimento de um relacionamento próximo entre pares é a autorrevelação sustentada, crescente, recíproca e pessoal".>
A "autorrevelação" é o intercâmbio de informações pessoais ou particulares que uma pessoa revela à outra durante uma conversa.>
É por isso que o questionário se torna progressivamente mais íntimo.>
O mesmo ocorre com perguntas que buscam destacar pontos em comum entre os participantes e estimular elogios mútuos.>
Com esse procedimento, explicam os pesquisadores, é possível selecionar participantes para formar uma relação em laboratório e, assim, medir variáveis antes, durante e depois da interação — de alterações hormonais a atitudes e preconceitos sociais.>
Estudos recentes recorreram ao método, por exemplo, para criar vínculos entre estudantes em ensino remoto, modalidade que costuma apresentar altas taxas de evasão.>
"Acreditamos que a proximidade produzida nesses estudos é vivenciada de forma semelhante, em muitos aspectos importantes, à proximidade sentida em relações naturais que se desenvolvem ao longo do tempo", afirmaram Aron e seus colegas.>
Catron, naturalmente, descreveu "o procedimento" de forma muito mais romântica e emotiva.>
"As perguntas me lembraram o famoso experimento do sapo na panela com água quente, em que o animal não percebe que a água está esquentando até que seja tarde demais", disse.>
"No nosso caso, como o nível de vulnerabilidade aumentava gradualmente, eu não percebi que já tínhamos entrado em um território íntimo até estarmos lá, um processo que costuma levar semanas ou meses", acrescentou.>
Depois refletiu: "A maioria de nós pensa no amor como algo que simplesmente nos acontece (...). Mas o que gosto neste estudo é que ele parte do princípio de que o amor é uma ação".>
É "fazer o esforço de conhecer alguém, que, na verdade, é também uma história sobre o que significa alguém te conhecer".>
Muita coisa mudou na vida de Catron desde a publicação do texto viral.>
Ela lançou o livro How to Fall in Love with Anyone ("Como se Apaixonar por Qualquer Pessoa", em tradução livre), fez uma palestra TEDx e criou uma newsletter sobre amor, entre outros projetos profissionais.>
Na vida pessoal, além de se casar com aquele "conhecido" chamado Mark Janusz Bondyra, o casal teve gêmeos.>
Até hoje, o ensaio "continua sendo muito lido", informou no ano passado o jornal americano The New York Times em reportagem sobre o casamento.>
Na cerimônia, segundo o relato, cartões com as 36 perguntas foram colocados nas mesas e no bar, em referência ao início da história do casal.>
Embora, ao longo desses 11 anos, Catron tenha tentado se afastar da posição de "caso de estudo", ela reconhece por que seu ensaio, e sua própria história de amor, ainda despertam interesse.>
"Acho que a maioria das pessoas quer se sentir vista e compreendida por outra", disse Catron à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.>
E acrescentou: "Esse desejo se tornou especialmente forte nos últimos 10, 15 anos, com grande parte da nossa vida social mediada por telas".>
Para ela, "as 36 perguntas oferecem uma estrutura que torna esse tipo de vulnerabilidade e conexão mais acessível".>
Catron está convencida de que a ferramenta "é valiosa para qualquer pessoa", inclusive familiares e amigos: "É uma forma maravilhosa de aprender mais sobre si mesmo e sobre o outro".>
No entanto, quando se trata de relacionamentos amorosos, ela escreveu no ensaio: "O estudo de Arthur Aron me ensinou que é possível (até simples) gerar confiança e intimidade, os sentimentos que o amor precisa para prosperar".>
Mas, como afirmou diversas vezes desde então, apaixonar-se é fácil; permanecer apaixonado é o desafio. Isso implica em escolher um ao outro repetidamente.>
Por isso, contou em sua palestra TEDx, embora gostasse de ter a certeza de um final feliz como sugere o título de seu ensaio, a realidade é diferente.>
"O que tenho, em vez disso, é a oportunidade de escolher amar alguém e a esperança de que ele também me ame. É assustador, mas é assim que o amor funciona.">
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