Publicado em 5 de dezembro de 2025 às 10:44
Enquanto entrava na clínica médica para fazer meu exame de sangue, eu só conseguia pensar em como esconder o medo em frente à câmera.>
Eu não fazia ideia do que aquele exame iria revelar.>
Não tenho muita simpatia por agulhas. Mas, como parte de uma investigação sobre os chamados produtos químicos eternos para o programa de TV Panorama, da BBC, fui fazer o exame para descobrir qual a quantidade dessas substâncias no meu sangue.>
Como mãe de duas crianças pequenas, também quis saber se essas substâncias poderiam afetar minha família.>
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Os produtos químicos eternos — substâncias per e polifluoroalquila (PFAS, na sigla em inglês) — são um grupo de cerca de 10 mil substâncias. Eles são usados há décadas, em produtos que variam desde roupas à prova d'água até utensílios de cozinha, circuitos eletrônicos e equipamentos médicos.>
Trata-se de poluentes persistentes, ou seja, eles não se degradam com facilidade. Pelo contrário, eles se acumulam no ambiente.>
Os produtos químicos eternos estão nas nossas casas, na água e nos nossos alimentos. E os cientistas relacionaram uma pequena parte deles a riscos sérios, como infertilidade e câncer.>
Níveis de PFAS acima de 2 nanogramas (ng) por mililitro de sangue são considerados perigosos para a saúde, segundo Sabine Donnai, especialista em assistência médica preventiva. Ela nunca conheceu ninguém sem pelo menos alguns PFAS no sangue.>
Meu resultado foi de 9,8 ng por mililitro. Donnai contou a notícia com muita gentileza, mas, ainda assim, foi um choque.>
Os produtos químicos eternos no meu sangue "muito provavelmente" irão prejudicar minha saúde, segundo ela.>
Também fiquei sabendo que, infelizmente, meu sangue teria se livrado de parte dessas substâncias durante a gravidez, transmitindo os PFAS para meus filhos.>
Neste momento, a investigação da BBC deixou de ser simplesmente trabalho e passou a ser algo muito pessoal.>
"Os níveis de PFAS devem ter sido ainda mais altos durante a gravidez", contou Donnai. "Você certamente terá transmitido para os seus filhos.">
Fiquei preocupada e também furiosa. Como isso pode ter acontecido sem que eu tivesse nenhum conhecimento e muito pouco controle?>
Eu quis saber mais sobre essas substâncias e os problemas de saúde relacionados.>
Os PFAS "não se decompõem", segundo Stephanie Metzger, da Sociedade Real de Química do Reino Unido. "Quando entram no nosso corpo, eles se estabelecem e se acumulam, pouco a pouco, até começarem a interferir nos nossos sistemas.">
"Alguns PFAS foram relacionados a problemas da tireoide, outros a câncer do rim e do fígado e se demonstrou que alguns deles prejudicam a fertilidade.">
No meu caso, é "improvável" que eu consiga reduzir meus níveis para zero, segundo Donnai. "Mas você pode reduzi-los nos próximos dois ou três anos com uma estratégia.">
Ela sugeriu que eu aumentasse minha ingestão de fibras, seja comendo mais aveia, cevada, feijão, nozes e sementes, ou tomando suplementos de fibra formadora de gel.>
O aumento das fibras na alimentação é "até aqui, a evidência mais forte que pode ajudar", afirma ela.>
Se eu fizesse isso, a menstruação também ajudaria a reduzir meus níveis de PFAS ao longo do tempo, destaca Donnai.>
Ela também me orientou a identificar as maiores fontes de exposição em casa, substituindo meus utensílios de cozinha antiaderentes por alternativas de cerâmica, aço inoxidável ou ferro fundido.>
Donnai recomenda usar um filtro de água e adotar produtos de limpeza ecológicos, que declarem de forma transparente que são livres de PFAS. E também procurar produtos para os cabelos e de maquiagem livres de PFAS e evitar ingredientes com "fluoro" ou "PTFE" no nome.>
A futura mamãe Pam Kavanagh também recebeu conselhos similares. Nós a visitamos em sua casa em Berkshire, no Reino Unido, ao lado da Dra. Federica Amati, do Imperial College de Londres.>
Kavanagh estava ansiosa para saber como reduzir os possíveis riscos domésticos dos PFAS para o seu bebê. Já Amati estudou como os produtos químicos eternos podem afetar os bebês e as crianças.>
"Quando bebemos água da torneira, dependendo de onde moramos, ficamos expostos a variados níveis de exposição a PFAS", segundo Amati.>
A simples compra de um filtro de água pode ajudar a reduzir a exposição, afirma ela, seja uma jarra com filtro no seu interior ou um filtro instalado na própria torneira.>
Amati também aconselha a descartar todas as frigideiras antiaderentes riscadas. Panelas de aço inoxidável ou cerâmica "são muito mais seguras", segundo ela.>
Tapetes podem ser tratados com PFAS para aumentar sua resistência a manchas, destaca Amati. Por isso, ela sugere passar aspirador nos tapetes todos os dias.>
"É uma boa ideia sempre ventilar o quarto, abrindo as janelas todos os dias", orienta Amati. "Os PFAS, de fato, se acumulam na forma de poeira doméstica.">
Amati passa a comentar as roupas das crianças. Kavanagh fica "sem palavras" ao descobrir que roupas à prova d'água ou resistentes a manchas podem conter PFAS.>
Os fabricantes não são obrigados a revelar esta informação. E alguns produtos infantis anunciados como livres de PFAS, na verdade, contêm as substâncias, segundo descobriu a BBC.>
Encontramos PFAS em um casaco infantil adquirido há alguns meses no website Mountain Warehouse. O site afirma que nenhum dos seus produtos infantis usa produtos químicos eternos na sua fabricação.>
O casaco que testamos veio de um pequeno lote de estoque antigo, produzido há mais de três anos, segundo declarou o site à BBC. O casaco "atende aos padrões de segurança do Reino Unido", mas foi retirado de oferta.>
A empresa declarou estar trabalhando "para eliminar os PFAS de todos os produtos assim que possível" e que "as roupas infantis fabricadas desde 2023 são livres de PFAS".>
Tecidos contendo PFAS que ficarem em "contato prolongado com a pele humana" podem fazer com que as substâncias sejam absorvidas pela pele, explica o professor Stuart Harrad, da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, que testou o casaco para a BBC.>
Para reduzir o risco, prefira tecidos não tratados e evite rótulos como "à prova d'água" ou "repelente de manchas", a menos que eles sejam certificados como livres de PFAS, orienta Donnai.>
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A nossa maior exposição aos produtos químicos eternos vem dos alimentos, principalmente peixe, carne, ovos, frutas e produtos de frutas, segundo a Autoridade Europeia de Segurança Alimentar.>
Um inocente morango pode ter sofrido exposição a PFAS. Eles podem ser adicionados a pesticidas "para ajudá-los a se aderirem melhor à fruta, fazendo com que não sejam levados pela chuva", explica o professor David Megson, da Universidade Metropolitana de Manchester, no Reino Unido.>
Dentre os produtos comuns que consultamos, uma garrafa de vinho pode trazer o maior risco de exposição a PFAS, segundo Megson.>
"Nós concentramos centenas de uvas em cada garrafa", explica ele. "À medida que o pesticida se decompõe, o PFAS fica para trás.">
Os PFAS estão tão incrustados na vida moderna que nenhum de nós consegue escapar totalmente deles.>
Eles tornaram nossas vidas convenientes e nossos produtos duráveis, mas a um custo potencial que só agora começamos a avaliar.>
A Comissão Europeia está avaliando a proibição completa de cerca de 10 mil produtos químicos eternos. O governo britânico afirma que procura proibir ou restringir algumas substâncias, mas não se comprometeu com uma proibição generalizada.>
O governo do Reino Unido declarou estar "trabalhando em conjunto com os órgãos reguladores para determinar os níveis de PFAS no meio ambiente, suas fontes e potenciais riscos", como base informativa para decidir sobre sua "política e regulamentação".>
Os PFAS podem ter muitos usos essenciais e ainda não há substitutos mais seguros disponíveis, defende a Associação das Indústrias Químicas. A entidade afirma que "os órgãos reguladores e a indústria precisam trabalhar em conjunto para definir períodos de transição" e trazer alternativas para o mercado.>
Quando fiz o exame de sangue, imaginei que ele forneceria uma cena interessante para o nosso documentário. Mas, depois que você sabe que essas substâncias estão dentro de você, é impossível ignorar o fato.>
Ter um plano para reduzir minha exposição é um pequeno conforto. Mas, para ser honesta, também é mais um motivo de preocupação.>
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