Publicado em 30 de novembro de 2024 às 19:43
É possível ver, a quilômetros de distância, nuvens de fumaça espessas saindo do lixão de Agbogbloshie.>
O ar no vasto depósito de resíduos a céu aberto, a oeste da capital de Gana, Acra, é altamente tóxico. Quanto mais perto você chega, mais difícil fica respirar — e sua visão começa a ficar embaçada.>
Ao redor dessa fumaça, há dezenas de homens esperando os tratores descarregarem pilhas de cabos para atear fogo nelas. Outros sobem em uma montanha de lixo tóxico e derrubam aparelhos de televisão, computadores e peças de máquinas de lavar, e os incineram.>
Eles estão extraindo metais valiosos, como cobre e ouro, do lixo elétrico e eletrônico — conhecido como e-waste (em inglês) —, grande parte do qual chegou a Gana vindo de países ricos.>
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"Não estou bem", diz o jovem trabalhador Abdulla Yakubu, cujos olhos ficam vermelhos e lacrimejantes enquanto queima cabos e plástico.>
"O ar, como vocês podem ver, está muito poluído, e tenho que trabalhar aqui todos os dias, então isso definitivamente afeta a nossa saúde.">
Abiba Alhassan, mãe de quatro filhos, trabalha perto do local de incineração separando garrafas plásticas usadas — e tampouco é poupada da fumaça tóxica.>
"Às vezes, é muito difícil até respirar, meu peito fica pesado e me sinto muito mal", diz ela.>
O lixo eletrônico é o fluxo de resíduos que mais cresce no mundo, com 62 milhões de toneladas geradas em 2022, um aumento de 82% em relação a 2010, de acordo com um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU).>
É a "eletronização" das nossas sociedades que está principalmente por trás do aumento do lixo eletrônico — desde smartphones, computadores e alarmes inteligentes até automóveis com dispositivos eletrônicos instalados, cuja demanda está em constante crescimento.>
As remessas anuais de smartphones, por exemplo, mais do que dobraram desde 2010, atingindo 1,2 bilhão em 2023, de acordo com um relatório da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento deste ano.>
A ONU diz que apenas cerca de 15% do lixo eletrônico mundial é reciclado — por isso, empresas inescrupulosas estão tentando descarregá-lo em outros lugares, muitas vezes por meio de intermediários que, em seguida, traficam os resíduos para fora do país.>
Esses resíduos são difíceis de reciclar devido à sua composição complexa, incluindo substâncias químicas tóxicas, metais, plásticos e elementos que não podem ser facilmente separados e reciclados.>
Mesmo os países desenvolvidos não possuem uma infraestrutura adequada de gerenciamento de lixo eletrônico.>
Os investigadores da ONU afirmam que estão observando um aumento significativo no tráfico de lixo eletrônico de países desenvolvidos e economias emergentes em rápida ascensão. O lixo eletrônico é agora o item apreendido com mais frequência, sendo responsável por um em cada seis de todos os tipos de apreensão de resíduos a nível mundial, segundo a Organização Mundial de Alfândega.>
Autoridades do porto de Nápoles, na Itália, mostraram ao Serviço Mundial da BBC como os traficantes declaravam incorretamente e escondiam o lixo eletrônico, que, segundo eles, representava cerca de 30% de suas apreensões.>
Eles mostraram o escaneamento de um contêiner com destino à África, que transportava um carro. Mas quando os funcionários do porto abriram o contêiner, havia peças quebradas de veículos e lixo eletrônico empilhado dentro dele, com óleo vazando de alguns deles.>
"Você não empacota seus bens pessoais desta forma, grande parte disso é destinada ao despejo", diz Luigi Garruto, investigador do Escritório Europeu de Combate à Fraude (Olaf), que colabora com autoridades portuárias em toda a Europa.>
No Reino Unido, as autoridades dizem que também estão observando um aumento no tráfico de lixo eletrônico.>
No porto de Felixstowe, Ben Ryder, porta-voz da Agência Ambiental do Reino Unido, afirmou que os resíduos eram muitas vezes declarados erroneamente como reutilizáveis — mas, na realidade, eram "decompostos para a obtenção de metais preciosos e, na sequência, queimados ilegalmente após chegarem ao destino" em países como Gana.>
Segundo ele, os traficantes também tentam esconder o lixo eletrônico triturando-o e misturando-o com outras formas de plástico que podem ser exportadas com a documentação correta.>
Um relatório anterior da Organização Mundial de Alfândega mostrou que houve um aumento de quase 700% no tráfico de veículos motorizados fora de uso — uma enorme fonte de lixo eletrônico.>
Mas os especialistas dizem que tais apreensões e casos registrados são apenas a ponta do iceberg.>
Embora não haja um estudo global abrangente que rastreie todo o lixo eletrônico traficado para fora do mundo desenvolvido, o relatório de lixo eletrônico da ONU mostra que os países do Sudeste Asiático ainda são um destino importante.>
Mas, como alguns desses países agora estão reprimindo o tráfico de resíduos, os investigadores e ativistas da ONU dizem que mais lixo eletrônico está chegando aos países africanos.>
Na Malásia, as autoridades apreenderam 106 contêineres de lixo eletrônico perigoso de maio a junho de 2024, de acordo com Masood Karimipour, representante regional do Escritório da ONU de Combate às Drogas e ao Crime no Sudeste Asiático e no Pacífico.>
Mas os traficantes muitas vezes enganam as autoridades com novas táticas de contrabando, e os governos não conseguem alcançá-los suficientemente rápido, dizem investigadores da ONU.>
"Quando os navios que transportam resíduos perigosos, como lixo eletrônico, não conseguem descarregá-los facilmente em seu destino habitual, eles desligam seu farol quando estão no meio do mar para não serem detectados", conta Karimapour.>
"E a remessa ilegal é despejada no mar como parte de um modelo de negócio de atividade criminosa organizada.">
"Há um número enorme de grupos e países lucrando com esse empreendimento criminoso a nível global.">
Quando o lixo eletrônico é queimado ou descartado, o plástico e os metais que ele contém podem ser muito perigosos para a saúde humana e ter efeitos negativos no meio ambiente, afirmou um relatório recente da Organização Mundial da Saúde (OMS).>
A OMS adverte que em muitos países receptores também há reciclagem informal de lixo eletrônico, o que significa que pessoas não treinadas, incluindo mulheres e crianças, estão fazendo o trabalho sem equipamentos de proteção e sem a infraestrutura adequada, e estão expostas a substâncias tóxicas como o chumbo.>
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a OMS estimam que milhões de mulheres e crianças que trabalham no setor informal de reciclagem podem ser afetadas.>
As organizações também alertam que a exposição durante o desenvolvimento fetal e a infância pode causar distúrbios relacionados ao neurodesenvolvimento e ao neurocomportamento.>
A partir de janeiro de 2025, o tratado global sobre resíduos, a Convenção da Basileia, vai exigir que os exportadores declarem todo o lixo eletrônico — e obtenham permissão dos países destinatários. Os investigadores esperam que isso acabe com algumas das brechas que os traficantes têm usado para transportar esse tipo de resíduo pelo mundo.>
Mas há alguns países, incluindo os EUA — um grande exportador de lixo eletrônico — que não ratificaram a Convenção da Basileia —, uma das razões pelas quais os ativistas dizem que o tráfico de lixo eletrônico continua.>
"Enquanto começamos a reprimir, os EUA estão enviando cada vez mais caminhões pela fronteira com o México", afirma Jim Puckett, diretor executivo da Basel Action Network, organização que faz campanha para acabar com o comércio de produtos tóxicos, incluindo o lixo eletrônico.>
Enquanto isso, no lixão de Agbogbloshie, em Gana, a situação está piorando a cada dia.>
Abiba diz que gasta quase metade do dinheiro que ganha com a coleta de resíduos em medicamentos para lidar com as condições resultantes do trabalho no lixão.>
"Mas ainda estou aqui porque este é o meu meio de sobrevivência e da minha família.">
A Autoridade Tributária e o Ministério do Meio Ambiente de Gana não responderam a vários pedidos de comentários.>
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