Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 05:11
Depois de conquistar inéditos dois Globos de Ouro,O Agente Secreto segue em campanha no circuito internacional de premiações.>
Na semana passada, o diretor Kleber Mendonça Filho esteve em Londres para participar de sessões especiais do filme voltadas a membros da Academia Britânica de Cinema, responsável pelo BAFTA 2026 — o principal prêmio do cinema britânico, equivalente ao Oscar nos Estados Unidos.>
O longa integra a lista de pré-indicados ao BAFTA, com o anúncio oficial marcado para 27 de janeiro. Antes disso, a equipe aguarda o anúncio das indicações ao Oscar, que acontece nesta quinta-feira (22/1).>
Durante sua passagem pela capital britânica, Mendonça Filho visitou a sede da BBC — onde concedeu entrevistas à BBC News e à BBC News Brasil e falou sobre o reconhecimento internacional do longa e a recepção calorosa dos brasileiros. O encontro foi registrado pelo diretor com uma foto em suas redes sociais.>
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A presença de O Agente Secreto em tantas premiações é vista por Mendonça Filho como uma prova concreta do prestígio alcançado pelo cinema brasileiro fora do país. >
Mas, segundo ele, "muito importante, talvez até, em primeiro lugar, é que os filmes brasileiros sejam vistos no próprio Brasil".>
"Eu acho que é incrível o Brasil, o brasileiro, as brasileiras terem orgulho de um produto cultural que é brasileiro e que está tendo uma aceitação internacional. Eu acho que o público brasileiro vê no cinema um pouco do que senti vendo a Seleção numa boa fase. Um atleta, um músico", afirmou.>
"Fico muito feliz de ver O Agente Secreto tendo se transformado num arrasa-quarteirão, num blockbuster brasileiro no Brasil.">
Segundo o diretor, fazer com que o cinema nacional seja visto no próprio Brasil é um dos principais desafios da produção audiovisual, em um cenário marcado pela presença dominante de Hollywood.>
"E esse é um desafio constante não só para o cinema brasileiro, mas para o cinema francês, para o cinema alemão, para o cinema canadense, para o cinema do mundo inteiro", diz.>
Mas O Agente Secreto parece ter rompido essa barreira. O filme extrapolou as telas do cinema e se refletiu na cultura popular do país. Em São Paulo, por exemplo, foi criado o bloco de Carnaval "A gente é secreto", que Mendonça Filho diz ter achado "sensacional". >
"Não sei se vocês sabem, mas tem o bloco Pitombeira dos Quatro Cantos em Olinda, e o Wagner usa uma camisa da Pitombeira de 1977. A venda dessas camisas já garantiu não só esse Carnaval, mas o do ano que vem também. Ou seja, o filme está se desdobrando de várias maneiras e isso é muito especial", declarou. >
A recepção calorosa do público brasileiro ao filme e a forma como cada premiação de O Agente Secreto é celebrada nas redes sociais também é destacada pelo diretor. >
Segundo ele, "é lindo ver o público brasileiro mandando tanta energia e se fazendo presente na internet".>
E essa mobilização dos brasileiros tem deixado os americanos impressionados.>
"Os amigos da Neon, que é a distribuidora nos Estados Unidos, ficam encantados e pasmos com a força do Brasil na internet, no sentido de apoiar um filme brasileiro", afirma. >
Com orçamento total estimado em cerca de R$ 28 milhões, O Agente Secreto contou com diferentes fontes de financiamento, entre recursos nacionais e internacionais. >
Segundo a assessoria da produção do filme, a maior parte — pouco mais de R$ 14 milhões — veio de coprodutores estrangeiros da França, Alemanha e Holanda. >
Cerca de R$ 5,5 milhões foram financiados pela iniciativa privada e R$ 7,5 milhões pelo Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), ligado à Agência Nacional do Cinema (Ancine).>
O fato de parte do dinheiro usado para produção ser proveniente de verba pública gerou críticas ao longa, o que, na avaliação de Mendonça Filho, reflete uma "visão atrasada", desconectada da forma como outros países tratam a cultura. >
"Eu acho que é uma falta de visão extraordinária, porque um país inteligente investe na sua própria cultura, da mesma maneira que um país inteligente investe na educação e na saúde. São investimentos que voltam multiplicados em relação ao que o país, como nação, ganha em identidade, em compreensão do próprio país", afirmou o diretor. >
"Então, quanto mais informação ou quanto mais capacidade de você se identificar com o que é feito no país, é melhor para o país.">
De acordo com Mendonça Filho, pouco mais de 100 filmes são feitos todo ano no Brasil, a maior parte deles com incentivos públicos. >
"E o Brasil não está sozinho nisso", pontuou, citando exemplos de países que mantêm políticas de investimento em produção cultural. >
"A Coreia do Sul, a França, a Alemanha, Holanda, Austrália, o Canadá, o México, são países que investem na sua própria cultura. Então, me parece que é uma visão muito atrasada e que eu não entendo como ela continua sendo propagada como algo que faz sentido, porque não faz o menor sentido.">
O Agente Secretocontabiliza mais de 50 prêmios nacionais e internacionais no currículo. Até agora, o longa-metragem já conquistou 56 troféus em 36 premiações, incluindo a mais recente, no Globo de Ouro. >
Entre as premiações, uma chamou atenção não apenas pelo reconhecimento internacional, mas pela forma como o prêmio foi entregue. >
No início de janeiro, o longa venceu o prêmio de Melhor Filme Internacional no Critics Choice Awards 2026.>
Diferentemente do habitual, a categoria não foi apresentada no palco ao lado das demais, nem transmitida ao vivo durante a cerimônia. >
A entrega aconteceu no tapete vermelho, na entrada do evento, durante uma entrevista com Kléber Mendonça Filho, que se mostrou visivelmente surpreso com a situação.>
À BBC News Brasil, o diretor disse que a forma como a entrega aconteceu "foi um grande erro", principalmente por se tratar de um filme internacional, e que espera um tratamento mais respeitoso ao cinema estrangeiro. >
"Num momento político pelo qual os Estados Unidos passam hoje, onde existe uma energia tão negativa em relação ao elemento externo, estrangeiro, imigrante, e o prêmio ser entregue do lado de fora como uma coisa super frívola e superficial, quase como uma brincadeira. Eu acho que não pegou bem de forma alguma", afirmou. >
"Eu espero que no ano que vem os filmes estrangeiros tenham um tratamento mais respeitoso.">
Apesar do episódio, Mendonça Filho conta que, dias depois, conseguiu se posicionar em relação ao que tinha acontecido, ao anunciar, junto com Wagner Moura, o prêmio de melhor filme no Critics Choice Awards. >
Durante o anúncio — que consagrou Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson — Wagner Moura fez uma brincadeira no palco ao comentar sobre a categoria: "Como chamamos no Brasil: melhor prêmio internacional".>
"A gente meio que usou a oportunidade para mandar um bom recado, que eu acho que foi no ponto, foi elegante e nós tivemos ainda a honra de entregar o prêmio da Sony para a sua equipe", disse.>
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