Publicado em 22 de janeiro de 2026 às 06:11
Algo na Europa se rompeu.>
Na segunda-feira (19/1) à noite, o presidente americano Donald Trump defendeu novamente que os Estados Unidos "precisam ter" a Groenlândia, por razões de segurança nacional.>
Trump previu que os líderes europeus não "irão reagir muito". Mas não era o que eles tinham em mente para quando cruzassem com o presidente dos Estados Unidos durante a reunião anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça.>
A Groenlândia é um território semiautônomo da Dinamarca — que, por sua vez, é membro da União Europeia e da Otan.>
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Donald Trump vem exercendo forte pressão sobre os aliados da Dinamarca nas duas organizações para que abandonem Copenhague e deixem que Washington assuma o controle da Groenlândia. O presidente americano chegou a anunciar tarifas punitivas sobre todas as suas exportações para os Estados Unidos, mas voltou atrás após dizer ter alcançado "um possível acordo". >
As tarifas seriam um cenário de terror para as economias europeias, que já estão estagnadas — especialmente as que dependem das exportações para os EUA, como a indústria automobilística da Alemanha e o mercado de produtos de luxo da Itália.>
Na segunda-feira, o ministro das Finanças da Alemanha, Lars Klingbeil, declarou que não se deixaria chantagear, após uma reunião de emergência com seu homólogo francês, em preparação para o Fórum Econômico Mundial.>
As ameaças de Trump foram recebidas como um tapa no rosto dos governos europeus, que haviam acabado de firmar (separadamente, no caso da UE e do Reino Unido) acordos de tarifas com o presidente americano no ano passado.>
"Estamos atravessando territórios não mapeados", declarou o ministro das Finanças da França, Roland Lescure, após as ameaças sobre as tarifas. >
"Nunca vimos isso antes. Um aliado, um amigo de 250 anos, considerando usar tarifas... como arma geopolítica.">
Klingbeil acrescentou que "foi cruzada uma linha".>
"Você irá compreender que, hoje, não estou dizendo exatamente o que irá ocorrer. Mas um ponto precisa ficar claro: a Europa deve se preparar.">
Subitamente, a atitude complacente em relação a Donald Trump, claramente adotada pelos líderes europeus desde que ele voltou para seu segundo mandato na Casa Branca, parece ter passado da sua data de validade.>
E apesar da questão ter sido aparentemente resolvida com o anúncio do cancelamento das tarifas, a crise não será facilmente esquecida pela Europa, avalia Paul Adams, correspondente diplomático da BBC News. >
"Não demorará muito para que os detalhes do acordo venham à tona. Mas o fato de Donald Trump ter desencadeado duas semanas de grande tensão e uma sensação de crise existencial dentro da Otan para chegar a este ponto não será facilmente esquecido", afirma. >
Na quarta-feira (21/1), após um encontro com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte, realizado durante o Fórum Econômico Global, Trump anunciou que um acordo sobre a Groenlândia está próximo e cancelou as tarifas de importação contra países da União Europeia que entrariam em vigor em 1° de fevereiro. >
Ainda não é o momento da extrema-unção das relações transatlânticas.>
Mas a União Europeia, pelo menos, ainda espera abordar o presidente dos Estados Unidos "falando suavemente, mas carregando um grande porrete", parafraseando um ex-presidente americano.>
Theodore "Teddy" Roosevelt (1858-1919) acreditava que, para atingir seus objetivos, é preciso ter diplomacia, respaldada por um poder respeitável. E a Europa parece estar adotando agora a técnica do policial bom, policial mau.>
Os líderes europeus dizem ao presidente Trump que irão ajudá-lo a priorizar a segurança do Ártico e que, por isso, não é preciso que ele se dirija sozinho à Groenlândia.>
Paralelamente, diplomatas europeus divulgaram a possível imposição de 93 bilhões de euros (cerca de R$ 586 bilhões) em tarifas de importação sobre produtos americanos ou até mesmo a restrição de acesso de empresas dos Estados Unidos ao enorme mercado comum do bloco, possivelmente incluindo bancos e empresas de tecnologia.>
Tudo isso, se Trump tivesse mantido suas "tarifas da Groenlândia", como ficaram conhecidas.>
Estas medidas retaliatórias, muito provavelmente, também causariam um efeito em cadeia para os consumidores americanos.>
Os investidores da União Europeia mantêm presença massiva em quase todos os 50 Estados americanos. Calcula-se que eles sejam responsáveis por 3,4 milhões de empregos nos Estados Unidos.>
A voz da União Europeia é fraca no cenário da diplomacia internacional. O bloco é composto por 27 países que vivem discutindo com frequência.>
Mas a UE tem enorme influência sobre o comércio e a economia global, setores em que a maior parte das decisões é tomada pela Comissão Europeia, em nome dos membros isolados do bloco.>
A União Europeia é o maior comerciante de bens e serviços do mundo. Ela representou cerca de 16% do comércio mundial em 2024. Por isso, Bruxelas manteve os dedos cruzados para que o presidente Trump descesse da sua posição maximalista para negociar uma solução intermediária.>
Afinal, ele poderia ganhar uma ilha (a Groenlândia), mas provavelmente à custa de aliados próximos (a Europa). E ainda poderia ser considerado responsável pelo aumento dos custos para o consumidor nos Estados Unidos, se fossem efetivadas as tarifas retaliatórias da UE.>
"Nossa prioridade é atrair, não intensificar", declarou na segunda-feira (19/1) o vice-porta-voz da Comissão Europeia, Olof Gill.>
"Trump está forçando os europeus a criar coragem", afirma o economista Niclas Poitiers, especialista em comércio internacional do centro de estudos Bruegel, com sede em Bruxelas, na Bélgica.>
"Os danos causados pelas tarifas de Trump seriam bem administráveis para a Europa... mas a questão maior aqui não é sobre economia, mas sobre segurança e política externa.">
"A União Europeia não pode deixar de reagir", destaca ele.>
Na segunda-feira (19/1), o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, pareceu pouco impressionado. Falando em Davos, ele pintou o quadro de um presidente americano decidido.>
"O presidente considera a Groenlândia um ativo estratégico para os Estados Unidos", segundo Bessent. "Não iremos terceirizar a segurança do nosso hemisfério para ninguém.">
Ele alertou que eventuais tarifas retaliatórias europeias seriam "insensatas".>
E, aqui, a Europa se sentiu travada. Condenada se tomar medidas. Condenada se não fizer nada.>
Alguns na Europa temiam que, se confrontassem Trump, correriam o risco de alienar os Estados Unidos ainda mais.>
E a verdade brutal é que a Europa precisa de Washington para garantir um acordo de paz sustentável para a Ucrânia e para a própria segurança do continente. Isso porque, mesmo prometendo gastar mais com a defesa, a Europa ainda depende muito dos Estados Unidos.>
Ao mesmo tempo em que reiterava seu apoio à soberania da Dinamarca e da Groenlândia, o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, enfrentou dificuldades para deixar claro este ponto na segunda-feira.>
Ele afirmou que, no "interesse nacional do Reino Unido, continuamos a trabalhar com os americanos em assuntos de defesa, segurança e inteligência".>
"Nossa dissuasão nuclear é a nossa principal arma. Essa dissuasão, para garantir a segurança de todos no Reino Unido, é minha tarefa fundamental e exige um bom relacionamento com os Estados Unidos.">
Mas, se a Europa continuar a tentar "administrar" Trump, em vez de confrontá-lo em um momento em que ele ameaça a soberania de um dos seus aliados na Otan (a Dinamarca), o continente correrá o risco de parecer seriamente enfraquecido.>
No X (antigo Twitter), a principal diplomata da União Europeia, Kaja Kallas, escreveu: "Não temos interesse em comprar uma briga, mas iremos nos defender.">
Como ex-primeira-ministra da Estônia (um país que teme a sombra iminente da Rússia expansionista), ela se empenha para demonstrar a Moscou que a Europa pode e irá mostrar os dentes, se for necessário.>
"Os europeus não podem mais se esconder", segundo Tara Varma, especialista em segurança e geopolítica do centro de estudos Fundo Marshall Alemão dos Estados Unidos.>
"Eles tentaram apenas a diplomacia pessoal com Donald Trump no ano passado, para vincular o presidente americano à defesa coletiva da Europa e garantir a segurança da Ucrânia após um cessar-fogo com a Rússia", explica ela.>
Mas, se ele virar as costas novamente, mencionando razões econômicas e de segurança e ameaçando a Otan se não conseguir o que quer sobre uma questão específica, Varma pergunta: "Em última análise, qual confiança a Europa pode depositar nas garantias de segurança dos Estados Unidos com base neste governo?">
Quem assiste a tudo isso de camarote, além da Rússia, é a China.>
Aos olhos dos dois países, o Ocidente (tradicionalmente, com os Estados Unidos e a Europa coesos no seu núcleo e dominando a política global há décadas) está, agora, se desfazendo.>
O mundo é cada vez mais dominado por uma série de grandes potências. Elas incluem a Rússia e a China, mas também a Índia, a Arábia Saudita e, até certo ponto, o Brasil.>
A China espera que a aparente inconstância de Donald Trump junto aos seus aliados possa fazer Pequim parecer um parceiro mais estável e confiável, atraindo uma parcela maior do comércio internacional.>
O Canadá — que o presidente Trump ameaçou transformar no 51° Estado americano — acaba de firmar um acordo comercial limitado com Pequim. Ottawa está tentando reduzir sua exposição a Washington.>
O presidente americano também manifesta pouco interesse pelas instituições multilaterais, como a Otan e a ONU, criadas pelas potências ocidentais após a Segunda Guerra Mundial, (1939-1945) para gerenciar a ordem global.>
Alguns fazem referência ao Conselho de Paz sendo formado por Donald Trump e à cerimônia de assinatura, que ele supostamente deseja realizar na quinta-feira (22/1), em Davos. Muitos líderes mundiais e figuras importantes do mundo dos negócios estarão presentes à conferência.>
O Conselho é ostensivamente projetado para administrar a reconstrução da Faixa de Gaza, após a devastadora ofensiva israelense dos últimos dois anos, com o objetivo de destruir o Hamas depois do seu ataque a Israel, em 7 de outubro de 2023.>
Mas o estatuto do Conselho convoca "um organismo internacional de construção da paz mais ágil e eficaz", o que sugere que sua missão será muito mais ampla, possivelmente competindo com a ONU.>
É assim que o presidente da França vê o Conselho.>
Uma fonte próxima a Emmanuel Macron emitiu uma declaração na segunda-feira, afirmando que a França não pretende aceitar o convite recebido, "ao lado de muitos países", para fazer parte do Conselho de Paz.>
"O estatuto do Conselho levanta questões importantes, principalmente em relação ao respeito aos princípios e à estrutura das Nações Unidas, o que não pode ser colocado em questão sob nenhuma circunstância", diz a declaração.>
O Kremlin afirmou na segunda-feira que o presidente da Rússia, Vladimir Putin, também foi convidado a fazer parte do Conselho.>
O convite indica que Trump está disposto a manter suas relações com o presidente russo, mesmo com a invasão da Ucrânia por Moscou, que já dura quatro anos, e com a sua recusa, até o momento, em aceitar um plano de paz apoiado pelos Estados Unidos.>
Também foram levantadas questões sobre o papel dominante de Trump no Conselho e sua exigência de que os líderes mundiais paguem US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,4 bilhões) por sua participação permanente.>
Mas Tara Varma defende que o Conselho de Paz não trata da paz. "Como poderia tratar, se líderes como Putin foram convidados a fazer parte dele?">
"Trump quer ser visto como um pacificador", explica ela.>
"Ele quer as manchetes, mas sem desenvolver o árduo trabalho de estabelecer as bases necessárias para que a paz seja duradoura. Sua estratégia é mais de bater e correr.">
Para Varma, "ele não pode substituir instituições multilaterais, como as Nações Unidas, que existem há 80 anos.">
Mas o presidente Trump, com seu desprezo às normas internacionais existentes há décadas, talvez agite um pouco essas instituições multilaterais, impulsionando ou até forçando para que elas se modernizem e se tornem mais relevantes.>
A participação no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo, deveria ser menos centralizada no Ocidente e representar melhor as mudanças ocorridas na estrutura global de poder.>
Os membros europeus da Otan também reconheceram que devem pagar mais pela sua própria defesa. Trump não é o primeiro presidente americano a afirmar isso, mas ele é muito mais incisivo.>
Foi depois que ele ameaçou fazer com que os Estados Unidos deixem de defender nações que não pagam a sua parte que todos os membros da Otan, exceto a Espanha, concordaram em aumentar drasticamente seus gastos com segurança.>
Voltando à Groenlândia, as pesquisas indicam que 55% dos americanos não querem comprar a ilha e 86% se opõem à sua tomada militar pelos Estados Unidos.>
A Dinamarca e outras potências europeias vêm fazendo lobby junto aos legisladores no Capitólio, para convencê-los a proteger a soberania dinamarquesa.>
As relações transatlânticas não foram rompidas, mas ficaram abaladas.>
Donald Trump continua pegando o telefone para falar com sua parceira, a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni, com Starmer e com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte. Ou seja, as linhas de comunicação ainda estão abertas.>
Mas, em última análise, se os europeus quiserem enfrentar Trump, precisarão se manter coesos. E não apenas os Estados membros da UE isoladamente, nem só a Otan: mas todos os países, juntos.>
E o Reino Unido, que mantém relacionamento mais próximo com os EUA, será fundamental neste ponto.>
Ocorre que os líderes europeus estão divididos entre fazer o que eles acreditam ser o certo no cenário internacional e suas próprias preocupações domésticas. Afinal, se for deflagrada uma guerra comercial transatlântica, seus eleitores serão prejudicados.>
Será difícil manter todos cantando no mesmo tom em relação à Groenlândia por muito tempo.>
*Com Paul Adams, correspondente diplomático da BBC News>
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