Publicado em 24 de fevereiro de 2026 às 19:08
Uma combinação de três fenômenos climáticos resultou na tempestade histórica que matou ao menos 28 pessoas e deixou dezenas de desaparecidos na Zona da Mata de Minas Gerais no início desta semana.>
Juiz de Fora, uma das cidades mais atingidas, registra até o momento 21 óbitos confirmados nas últimas 24 horas e ao menos 37 pessoas desaparecidas. Em Ubá, a cerca de 100 quilômetros de Juiz de Fora, sete mortes foram confirmadas e três pessoas estão desaparecidas.>
As cidades registraram deslizamento de encostas e soterramento de residências, com ruas alagadas, imóveis destruídos e centenas de desabrigados.>
Uma frente fria, impulsionada por um cavado e a formação de uma supercélula estão por trás da tragédia climática, explica Maria Clara Sassaki, porta-voz da Tempo OK Metereologia.>
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"Nós tivemos a passagem de uma frente fria pelo sudeste do Brasil, que acabou trazendo bastante instabilidade desde o litoral do Estado de São Paulo, passando pelo Rio de Janeiro e também com acumulado significativo, ontem e hoje, na região da Zona da Mata Mineira", diz Sassaki.>
Essa frente fria encontrou uma condição perfeita para a instabilidade, explica a especialista, com temperaturas elevadas e bastante umidade disponível na atmosfera, o que favoreceu a formação das nuvens carregadas.>
"A chuva ficou presa entre as áreas do oceano e a região do relevo, com isso os maiores transtornos foram registrados em áreas de encosta, que têm uma condição de relevo propícia para prender essa umidade por algumas horas.">
Em Juiz de Fora, por exemplo, foram registrados 100 milímetros (mm) de chuva em menos de 12 horas, ante uma média mensal de 170 mm para o mês de fevereiro, diz a porta-voz da Tempo OK.>
A frente fria que afetou a região provocou a formação de uma supercélula, uma nuvem gigante com uma corrente de ar ascendente e rotativa, conhecida como mesociclone.>
Segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), das quatro classificações de tempestade (supercélula, multicélula, unicélula e linha de instabilidade), as supercélulas são as menos comuns, e também as mais severas.>
Ainda conforme a agência, as supercélulas podem produzir ventos fortes, chuva intensa com granizo, tornados mortais, enchentes e descargas elétricas.>
"É uma nuvem extensa e de grande extensão territorial", diz Sassaki.>
"Ela atinge uma área muito grande e é muito carregada de água, o que provoca uma chuva muito intensa, e em curto período de tempo, porque é uma nuvem tão pesada que as correntes de ar não conseguem sustentar toda essa água dentro dessa nuvem, o que acaba despejando-as de uma vez em pontos isolados.">
Já o cavado foi um fenômeno que ajudou na formação dessa "super nuvem", diz a especialista.>
Trata-se de uma região alongada de baixa pressão, geralmente em médios níveis da atmosfera, que favorece a subida do ar e a formação de nuvens e tempestades.>
É como se fosse uma área onde o ar está "mais leve" e em altitudes elevadas, o que cria um efeito de sucção, puxando a umidade do solo para o alto.>
"Imagina que o cavado é um vento que vai jogar ar úmido da superfície para a atmosfera. Esse movimento vai levando umidade para a nuvem, alimentando essa nuvem e vai trazendo mais condições para que essa nuvem cresça na atmosfera", diz Sassaki.>
"Quanto mais umidade, mais ingrediente ela tem para crescer. A supercélula nada mais é que uma cumulonimbus de grande extensão, muito intensa, que atinge uma vasta região.">
Questionada se o fenômeno tem relação com as mudanças climáticas e o aquecimento global, a especialista afirma que trata-se de algo típico dos meses de verão.>
"Esses fenômenos são comuns durante os meses de verão. Não é possível afirmar que um evento isolado esteja diretamente relacionado às mudanças climáticas, sendo necessários estudos mais aprofundados sobre o tema.">
Para os próximos dias, ainda há expectativa de chuvas na Zona da Mata de Minas Gerais, mas não tão volumosa quanto a já ocorrida.>
"Esses eventos extremos, essas chuvas muito acima da média, acontecem uma vez e demoram um certo tempo para acontecer de novo", diz a porta-voz da Tempo OK.>
"Em geral, não acontecem imediatamente dois eventos extremos numa mesma semana ou um dia depois do outro, mas ainda há previsão de chuva [na região] até a próxima sexta-feira [27/2].">
Ainda que em menor volume, essa chuva é preocupante porque o solo da região já está encharcado, o que pode provocar novos deslizamentos, transbordamento do nível dos rios e enchentes, não só na região da Zona da Mata mineira, mas avançando também para outras regiões de Minas Gerais, como Vale do Jequitinhonha, Vale do Rio Doce e a região da bacia do Muriaé.>
"A partir de quinta-feira, essa chuva deve ser um pouco mais intensa e ainda mantendo esse potencial para transtornos nas áreas que já foram atingidas e nessas outras regiões que devem receber uma chuva mais intensa até o final da semana", diz a especialista.>
No Sudeste, também há potencial de chuvas volumosas no Espírito Santo, Rio de Janeiro e litoral norte do Estado de São Paulo.>
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