Publicado em 3 de janeiro de 2026 às 08:10
Três pescadores descansavam sob um telhado de palha na tarde de 18 de dezembro quando foram surpreendidos por um forte estrondo no povoado de Poolosü, parte do município venezuelano de Guajira.>
Assustados, eles buscaram abrigo em uma espécie de barraco onde costumavam guardar redes de pesca e outros equipamentos de trabalho.>
No entanto, ao chegar lá, constataram que o barraco havia sido destruído. E perceberam que um outro local próximo, uma estrutura feita de madeira e folhas de palmeira usada como depósito, havia sido o epicentro da explosão. >
"Pensamos que tivesse sido um raio", disse uma das testemunhas à BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).>
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Entretanto, ao se depararem com destroços de objetos, perceberam que provavelmente não se tratava de um desastre natural.>
Os relatos da explosão no município de Guajira, no estado de Zulia, geraram especulações dentro e fora da Venezuela sobre se o local teria sido alvo de uma operação dos Estados Unidos.>
Isto porque, pouco depois, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que seu país havia realizado, alguns dias antes, seu primeiro ataque terrestre em solo venezuelano.>
Neste sábado (3/1), Donald Trump confirmou um outro ataque à Venezuela, desta vez em grande escala. Segundo o americano, o presidente venezuelano Nicolás Maduro foi capturado, junto com sua esposa, e retirado do país por via aérea.>
Explosões foram ouvidas e fumaça pôde ser vista subindo sobre a capital venezuelana, Caracas, na madrugada deste sábado. Vídeos gravados por moradores mostravam colunas de fumaça e detonações, além de algumas aeronaves voando a baixa altitude.>
Os relatos sobre o suposto primeiro ataque americano, porém, foram mais confusos e cheio de mistério. >
"O cheiro de pólvora era forte", lembra uma das testemunhas, do grupo indígena Wayuu, que habita predominantemente esta cidade no noroeste do país, na fronteira com a Colômbia e às margens do Golfo da Venezuela. >
A testemunha pediu para não ser identificada, por medo de represálias.>
"Encontramos pedaços de metal com inscrições em inglês", diz a testemunha, membro de uma comunidade que fala principalmente Wayuunaiki, a língua dos Wayuu, e um pouco de espanhol.>
A BBC News Mundo confirmou que o local atingido por uma explosão permanece em estado semelhante ao descrito pelos pescadores: árvores e galhos quebrados; folhas de palmeira espalhadas em um raio de 30 metros; e destroços no chão, com o mar a poucos passos de distância.>
Há fragmentos e restos metálicos acinzentados espalhados pela areia, que os moradores locais especulam serem partes de um possível artefato explosivo.>
"Eu senti o forte impacto, mas não sabíamos de onde veio", contou outro pescador.>
Uma reportagem publicada em 30 de dezembro pela rede americana NBC afirmou que duas testemunhas da comunidade Wayuu descreveram uma explosão ocorrida em 18 de dezembro na cidade costeira como "misteriosa" e "inexplicável".>
Mas a NBC reconheceu que não é possível estabelecer uma ligação direta entre a explosão e a fala de Donald Trump sobre um primeiro ataque americano em solo venezuelano — que, de acordo com ele, teria causado "uma grande explosão" em uma área portuária.>
Segundo o presidente americano, barcos estavam sendo carregados com drogas na área atacada. >
Imagens divulgadas pela NBC mostraram o que parecem ser fragmentos acinzentados de um míssil, marcados com números e a palavra em inglês "warning" (algo como "aviso" ou "advertência").>
Uma fonte disse à emissora americana que a explosão foi tão forte que vários parentes perderam a audição por algumas horas.>
Trump anunciou que os EUA teriam feito o suposto primeiro ataque terrestre à Venezuela em 26 de dezembro, durante entrevista ao bilionário John Catsimatidis, seu apoiador.>
Dias depois, o presidente americano repetiu a afirmação, durante uma reunião com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu.>
Reportagens subsequentes da CNN e do The New York Times afirmaram que a agência de inteligência dos EUA, a CIA, confirmou que o ataque foi realizado com um drone.>
Nem o presidente Nicolás Maduro nem outros membros do governo venezuelano comentaram as declarações de Trump sobre o suposto ataque.>
"Esse pode ser um assunto que discutiremos em alguns dias", disse Maduro na quinta-feira (01/01), quando questionado sobre o assunto em entrevista ao jornalista espanhol Ignacio Ramonet, transmitida pelo canal VTV.>
"O que posso dizer é que o sistema de defesa nacional, que combina forças populares, militares e policiais, garantiu e continua a garantir a integridade territorial, a paz do país e o uso e gozo de todo o nosso território.". >
Maduro acrescentou estar, naquele momento, aberto a conversas "sérias" com os Estados Unidos sobre acordos relacionados a petróleo, migração e combate ao narcotráfico.>
Ao longo de semanas, Trump alertou que ataques terrestres no país sul-americano aconteceriam "em breve" e seriam "mais fáceis" do que bombardear barcos carregados de drogas no Caribe.>
Em agosto, Trump ordenou um deslocamento sem precedentes das forças armadas americanas em direção ao Mar do Caribe, com a justificativa de impedir o envio de drogas para os Estados Unidos. >
A operação envolve milhares de militares e dezenas de caças e navios de guerra — incluindo o maior e mais poderoso porta-aviões do mundo, o USS Gerald Ford.>
Forças americanas já atacaram 35 embarcações e mataram mais de 100 tripulantes na costa norte da Venezuela e no Oceano Pacífico, segundo o Departamento de Defesa dos EUA, chefiado por Pete Hegseth.>
Somente entre 30 e 31 de dezembro, os EUA dizem ter destruído cinco embarcações e matado oito pessoas.>
A pressão militar dos Estados Unidos contra Maduro, a quem o Secretário de Estado Marco Rubio chama de governante "ilegítimo", também inclui sanções individuais contra familiares e membros do círculo íntimo do poder político em Caracas.>
Envolve ainda a apreensão de petroleiros que fariam parte de uma frota fantasma com a qual a Venezuela tentaria burlar sanções econômicas impostas pelos EUA.>
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Caças da Força Aérea Venezuelana sobrevoaram Guajira no dia seguinte à suposta explosão de dezembro, segundo testemunhas e moradores de Poolosü relataram à BBC News Mundo. >
Militares em terra também coletaram evidências e agentes de serviço de inteligência permanceram na área por três dias, disseram os entrevistados.>
O local da suposta explosão fica a poucos minutos de um posto da Guarda Nacional Bolivariana na cidade de Cojoro e a poucos quilômetros de dois batalhões do Exército.>
Desde então, pescadores locais ficaram com medo de ir para o mar, onde dizem que a situação está "tensa" e que pode haver novos ataques.>
Moradores do povoado dizem que queriam que a imprensa cobrisse imediatamente a suposta explosão no local, mas o acesso à área é difícil não só devido ao terreno, mas também pelo controle exercido por grupos criminosos e cartéis de drogas. >
A comunidade relata que a área se tornou um porto de tráfico de drogas "há meses", operando sob o olhar atento do Clã do Golfo e de organizações criminosas mexicanas.>
Autoridades venezuelanas garantiram aos moradores que o ataque de 18 de dezembro foi realizado por elas em sua luta contra o narcotráfico, mas os moradores duvidam dessa versão. >
Segundo estes, membros das Forças Armadas Bolivarianas têm feito mais perguntas do que dado respostas.>
"O Exército esteve aqui interrogando todos que trabalham com a pesca e recolheu todas as provas como se estivesse investigando. Por isso, acreditamos que não foram eles que realizaram o ataque", disse uma mulher que relata ter ouvido a explosão.>
Outra possível ocorrência que foi vinculada às declarações de Trump foi um incêndio que começou na madrugada de 24 de dezembro em uma empresa química no município de San Francisco, também no estado de Zulia.>
A Primazol, que importa insumos químicos para laboratórios farmacêuticos e para os setores de nutrição animal, alimentos e bebidas, negou os rumores de que suas instalações teriam sido atacadas e atribuiu o incidente a uma falha em sua fiação elétrica.>
A empresa, localizada a cerca de 7 km da margem oeste do Lago Maracaibo — um dos maiores lagos das Américas, com acesso ao Golfo da Venezuela e ao Mar do Caribe —, divulgou imagens de câmeras de segurança mostrando como o incêndio começou em um de seus armazéns e os esforços dos bombeiros.>
As especulações sobre o suposto envolvimento da Primazol em operações de narcotráfico foram alimentadas no dia seguinte pelo presidente colombiano Gustavo Petro, que afirmou que uma "fábrica" na região servia ao grupo guerrilheiro ELN e havia sido alvo de ataques das forças militares americanas.>
"Sabemos que Trump bombardeou uma fábrica em Maracaibo. Tememos que estejam misturando pasta de coca para produzir cocaína e se aproveitando da localização às margens do Lago Maracaibo", escreveu Petro em 30 de dezembro em sua conta no Twitter.>
"É simplesmente o ELN. O ELN, com seu narcotráfico e ideologia dogmática, está permitindo a invasão da Venezuela", acrescentou.>
O grupo guerrilheiro surgiu na década de 1960 e é acusado pela oposição de conluio com o governo de Nicolás Maduro em atividades ilícitas, como a mineração ilegal nos estados do sul.>
A Primazol respondeu ao presidente colombiano, afirmando que não fabrica nem embala "qualquer tipo de narcótico" e pedindo que o mandatário parasse de "difamar" seu nome.>
Nas praias de Poolosü, a comunidade só quer que "a verdade venha à tona".>
"Estamos com medo", confessou uma das testemunhas sobre a explosão que abalou aquela tarde tranquila do mês passado.>
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