Publicado em 26 de fevereiro de 2026 às 20:09
O Congresso mexicano aprovou na terça-feira (24/2) uma emenda constitucional histórica para reduzir, de forma gradual, a jornada de trabalho de 48 para 40 horas semanais. A medida começará a ser implementada já no próximo ano. >
Apoiada pela presidente Claudia Sheinbaum e pela base governista, a lei estabelece que até 2030, a jornada semanal seja de 40 horas — uma mudança significativa para milhares de trabalhadores do país e alinhada à tendência global de redução do tempo de trabalho.>
Na América Latina, apenas o Equador já adota a jornada de 40 horas semanais. >
Segundo dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o México — segunda maior economia da América Latina atrás apenas do Brasil — apresenta um dos piores equilíbrios entre vida pessoal e trabalho, além de baixos índices de produtividade e os menores salários entre os 38 países membros do grupo.>
>
Por isso, o governo comemorou a decisão tomada quase em unanimidade pelo Congresso. >
"A jornada de trabalho de 48 horas está na legislação mexicana há 106 anos. Já era hora disso mudar", afirmou o coordenador sindical e deputado governista Pedro Haces, que participou da elaboração da proposta.>
"A produtividade não se mede por esgotamento. Se constrói com dignidade", acrescentou. >
Ainda assim, vários deputados e representantes dos trabalhadores criticaram a lei por não incluir dois dias de descanso a cada cinco trabalhados, como previa a proposta inicial — algo que vem sendo debatido no Brasil por meio de projetos que propõem o fim da escala 6X1.>
"É um regresso em muitos sentidos. Para começar, não estão sendo garantidos os dois dias de descanso, que eram o espírito original da proposta apresentada pelo nosso movimento", afirmou ao jornal El País Ángel Castellanos, porta-voz da Frente Nacional pelas 40 Horas.>
Mas como funciona a jordana de trabalho em outros países da América Latina?>
Embora a jornada de 40 horas semanais — geralmente distribuída em cinco dias de oito horas — tenha se consolidado em grande parte dos países do hemisfério ocidental, ela não é um padrão na América Latina.>
Em países europeus, inclusive, já avançam iniciativas para reduzir a semana de trabalho para quatro dias, com três de descanso (jornada 4x3). >
Os países latino-americanos ainda mantêm jornadas entre 44 e 46 horas semanais, que frequentemente incluem o trabalho aos sábados, como é o caso do Brasil.>
Isso acontece mesmo com recomendações da Organização Internacional do Trabalho, que busca promover diálogo entre os países da região para incentivar jornadas que favoreçam um melhor equilíbrio entre vida profissional e pessoal.>
"O tempo é um recurso finito e irrecuperável. A forma como ele é distribuído entre trabalho, vida pessoal e descanso impacta profundamente a saúde, a produtividade e a coesão social", afirma a organização em um relatório de 2025 sobre a América Latina.>
Hoje, o único país da América Latina que possui um regime de trabalho de oito horas por dia em cinco dias da semana é o Equador — o modelo foi adotado em 1980 e está em vigor há 46 anos. >
Outros países que estão no processo para reduzir a jornada em 40 horas semanais são o Chile e, agora, o México.>
No Chile, a lei foi aprovada em abril de 2024. Desde então, iniciou-se um cronograma progressivo de diminuição das horas. >
Primeiro, a jornada caiu de 48 para 44 horas; no próximo abril será reduzida para 42, e a expectativa é que, em abril de 2028, o país alcance finalmente as 40 horas semanais.>
Com a lei aprovada nesta terça-feira, o México também iniciará um processo gradual de redução da jornada. A implementação total está prevista para 2030.>
Tanto no Equador quanto no Chile foram criados mecanismos de flexibilização para colocar em prática essas mudanças, permitindo que trabalhadores e empregadores negociem a melhor forma de organização da jornada. >
No entanto, no Chile, o limite de trabalho por dia é de 10 horas.>
A Colômbia é o país da região que, depois de Chile, Equador e México, está mais perto de reduzir sua jornada de trabalho para 40 horas semanais.>
O país está atualmente em fase final de implementação da lei aprovada em 2021, que estabeleceu a redução gradual da jornada semanal, de 48 horas. >
Em julho, a jornada passará para 42 horas semanais, que poderão ser distribuídas em cinco ou seis dias, com limite máximo de nove horas por dia.>
Outros países, como Guatemala, El Salvador e o Brasil, mantêm atualmente semanas de trabalho de 44 horas.>
O governo brasileiro tem se manifestado favorável a projetos que reduzem a jornada de trabalho e modificam a escala 6x1 no país, em que o funcionário trabalha seis dias na semana e tem apenas um dia de descanso.>
Em dezembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) declarou que o Brasil estava pronto para acabar com esse regime de trabalho.>
"Não existe existe um único argumento que possa dizer que a sociedade brasileira não está pronta. Porque se nos anos 1980 a gente já queria reduzir a jornada de trabalho, e já faz 45 anos, temos que medir os avanços tecnológicos desses 45 anos.">
Nesta semana, Lula fez um publicação na rede social X citando um filósofo sul-coreano e sua teoria sobre a "sociedade do cansaço", que fala sobre o desequilíbrio entre vida pessoal e trabalho.>
"O filósofo coreano Byung-Chul Han diz que vivemos em uma 'sociedade do cansaço', em que a pressão pelo desempenho afeta o equilíbrio entre a vida pessoal e a profissional", escreveu.>
"Estamos discutindo no Brasil o fim da chamada jornada 6x1, para assegurar que o trabalhador tenha dois dias de descanso semanal.">
Atualmente dois Projetos de Emenda à Constituição (PEC) estão avançando no Congresso brasileiro para alterar a jornada de trabalho.>
Apesar de algumas diferenças, ambos propõem a redução de 44 para 36 horas semanais sem redução salarial.>
Uma das propostas proíbe a escala 6x1 e fixa como regra uma escala 4x3 — com três dias de descanso para cada quatro trabalhados.>
O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), disse que o tema será uma das prioridades do Congresso neste ano e que a PEC que prevê a mudança na jornada de trabalho deve ser votada em plenário em maio.>
O tema tem provocado reação em diversos setores da sociedade. >
Atualmente, existe uma petição com quase 3 milhões de assinaturas pelo fim da escala 6X1, que foi criada pelo fundador do movimento Vida Além do Trabalho (VAT), Rick Azevedo (Psol), hoje vereador do Rio de Janeiro. >
Azevedo e outras pessoas que são a favor da mudança defendem que ela trará bem-estar e qualidade de vida a uma mão de obra hoje exausta, além de impactos econômicos positivos e alinhamento a tendências mundiais.>
Quem é contra, critica a forma como a discussão tem sido discutida no Brasil e afirma que a sociedade ainda não está ciente dos custos econômicos que o fim da escala 6X1 pode trazer.>
Um dos problemas seria a redução da jornada dos trabalhadores com manutenção da mesma remuneração.>
Uma pesquisa divulgada em fevereiro pela Nexus - Pesquisa e Inteligência de Dados apontou que 73% dos brasileiros apoiam o fim da escala 6x1, desde que não haja redução de salário.>
Com a diminuição do salário, o total de pessoas favoráveis ao fim da escala cai para 28%, ou seja, a minoria.>
De modo geral, o regime de trabalho mais comum na América Latina ainda é a jornada de 48 horas semanais. >
Até poucos anos atrás, eram raros os países com cargas inferiores a oito horas diárias distribuídas por seis dias de trabalho.>
Atualmente, esse modelo continua em vigor em países como Argentina, Peru, Bolívia, Uruguai, Costa Rica e Paraguai.>
Ainda assim, segundo a Organização Internacional do Trabalho, em muitos desses países a média real de horas trabalhadas por semana se aproxima de 44.>
Por isso, em vários deles avançam debates políticos para reduzir formalmente a jornada, o que faz com que a decisão recente do México tenha impacto regional relevante.>
Na Argentina, por exemplo, tem acontecido um debate intenso sobre o tempo de trabalho. Uma das propostas em discussão prevê a possibilidade de jornadas diárias de até 12 horas, mantendo o limite máximo de 48 horas semanais.>
Especialistas afirmam, porém, que esse tipo de iniciativa vai na contramão das tendências globais, que buscam reduzir o tempo dedicado ao trabalho.>
"Esse tipo de medida tende a se tornar um freio à inovação empresarial e ao desenvolvimento tecnológico", afirmou ao jornal Público o economista argentino Jorge Torres.>
"Querem tornar as empresas competitivas à base da exploração dos trabalhadores, e não por meio da inovação", acrescentou.>
Além da jornada de trabalho, a aprovação da lei no México também abriu espaço para o debate sobre outros temas ligados aos direitos trabalhistas, como férias, horas extras, informalidade no emprego e desigualdade de gênero no mercado de trabalho.>
Por exemplo, a média de dias de férias na América Latina é de cerca de 15 dias — bem abaixo da Europa, onde a média chega a 25. A informalidade também segue elevada em grande parte da região.>
No México, a taxa de informalidade atinge cerca de 55%, enquanto no Brasil e a Argentina gira em torno de 40%.>
Notou alguma informação incorreta no conteúdo de A Gazeta? Nos ajude a corrigir o mais rápido possível! Clique no botão ao lado e envie sua mensagem.
Envie sua sugestão, comentário ou crítica diretamente aos editores de A Gazeta