Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 08:09
O pastor Sergio Amezcua recebe uma ligação de emergência informando: um jovem pulou da janela do terceiro andar ao perceber policiais uniformizados patrulhando o prédio onde morava, à procura de imigrantes ilegais.>
Amezcua, de 46 anos, lembra de ter pedido detalhes sobre onde o jovem estava, seu estado e o que poderia ser feito para ajudá-lo. A pessoa que telefonou respondeu que o jovem havia se machucado na queda.>
"O jovem estava lavando roupa na lavanderia e, ao ouvir o barulho no corredor, quebrou a janela e pulou para escapar", explicou o pastor de Minneapolis, onde lidera a igreja evangélica Dios Habla Hoy.>
O imigrante caminhou por cerca de um quilômetro até que alguns vizinhos o abrigaram, relatou o pastor.>
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"Quando foi socorrido, estava descalço e sem camisa, usando apenas bermuda em temperaturas abaixo de zero, batendo nas portas e chorando.">
Amezcua afirma que recebe ligações sobre diferentes casos todos os dias desde a primeira semana de dezembro do ano passado, quando o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) iniciou as operações no Estado de Minnesota.>
Uma mulher de sua congregação ajoelhou-se com seu bebê nos braços diante de agentes do ICE, implorando para que não levassem seu marido — um gesto registrado em vídeo que viralizou nas redes sociais.>
Em outro caso, um homem se escondeu em um canteiro de obras por quatro horas em temperaturas abaixo de zero para escapar de uma operação do ICE.>
"As pessoas me ligam pedindo ajuda para localizar familiares que foram detidos, conseguir um advogado ou obter comida, leite e fraldas", explica Amezcua. "Muitas vezes, eles pedem ajuda para pagar o aluguel.">
"Os agentes estão caçando pessoas comuns quando elas saem de seus apartamentos para tirar o lixo. É terrível o que está acontecendo em Minnesota." >
Em dezembro, o Departamento de Segurança Interna anunciou que mais de 2,5 milhões de imigrantes indocumentados deixaram os EUA até 2025. Mais de 605 mil foram deportados, em meio a uma repressão nacional lançada pelo governo do presidente Donald Trump contra imigrantes indocumentados.>
Amezcua nasceu no México. Chegou a Minnesota há 24 anos e obteve a cidadania americana. Há mais de uma década, fundou uma igreja evangélica que realiza cultos em inglês e espanhol para uma congregação predominantemente latina.>
Em maio do ano passado, a maior comunidade imigrante em Minnesota era composta por mexicanos, com 59.137 residentes, seguida por cidadãos somalis (42.503) e indianos (30.632), segundo dados da Assembleia Legislativa estadual.>
Embora Minnesota abrigue menos de 1% dos aproximadamente 14 milhões de imigrantes indocumentados que vivem nos EUA, de acordo com estimativas do Migration Policy Institute, o governo Trump ordenou o maior envio de agentes do ICE até então, justamente para este Estado fronteiriço com o Canadá.>
A Operação Metro Surge envolveu a mobilização de mais de 2 mil agentes federais em Minneapolis desde dezembro do ano passado, com o objetivo de deter e deportar imigrantes indocumentados.>
Essa decisão foi anunciada após diversos escândalos envolvendo supostas fraudes com fundos públicos e membros da comunidade somali de Minnesota.>
Em um desses casos, um YouTuber pró-Trump mostrou em um vídeo creches supostamente administradas por somalis que não estavam funcionando, apesar de receberem verbas públicas.>
Em resposta à controvérsia, a Secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, afirmou que o ICE conduziria uma investigação minuciosa, de porta em porta, sobre a suposta fraude nas creches em Minnesota.>
No entanto, moradores de Minneapolis foram às ruas protestar contra a presença do ICE, especialmente após agentes federais terem matado a tiros Renee Good, em 7 de janeiro, e Alex Pretti, em 24 de janeiro, dois cidadãos americanos que resistiram às ações das operações.>
A indignação provocada por esses casos intensificou-se depois que um pedestre fotografou um agente do ICE segurando Liam Conejo Ramos, um menino de 5 anos, pela mochila. Liam havia sido preso junto com seu pai em 20 de janeiro, em frente à sua casa em Minneapolis.>
"Por que estão detendo uma criança de 5 anos? Não me digam que essa criança será classificada como criminosa violenta", questionou Zena Stenvik, superintendente das Escolas Públicas de Columbia Heights, na época.>
"O ICE NÃO estava visando uma criança", respondeu o Departamento de Segurança Interna em um comunicado divulgado por X. Dias depois, Liam e seu pai foram liberados do centro de detenção do Texas para onde haviam sido transferidos e retornaram a Minneapolis.>
Além do debate público, Amezcua alerta que os migrantes optaram por se refugiar em suas casas e limitar seus deslocamentos para evitar encontros com patrulhas do ICE, uma decisão que impacta até mesmo a vida espiritual dos moradores de Minneapolis.>
"Oitenta por cento da congregação não está frequentando os cultos por medo do ICE. Estou falando de cidadãos, residentes legais, todo tipo de pessoa, porque eles prenderam cidadãos e as pessoas não querem que seus filhos passem pelo trauma dessa experiência.">
O pastor percebe o medo até mesmo dentro de sua própria casa, através de suas filhas adolescentes.>
"Quando uma encomenda da Amazon chega na minha casa, os entregadores geralmente estão com o rosto coberto por causa do frio, e minhas filhas ficam com medo porque pensam que é o ICE.">
"O trauma é coletivo e afeta a todos, não apenas os migrantes, mas também as pessoas nascidas aqui.">
Amezcua enfrentou o desafio de coordenar ajuda humanitária para os membros da igreja pela primeira vez na pandemia, quando as famílias foram obrigadas a ficar em casa devido aos lockdowns.>
Agora, desde que o ICE começou a patrulhar as ruas de Minneapolis, o pastor tem liderado uma enorme operação para entregar alimentos a imigrantes que temem ser detidos nas ruas e deportados para seus países de origem.>
A ajuda é anunciada pelas redes sociais da igreja. E, em mensagens privadas, o pastor responde convidando as pessoas a se inscreverem para receber uma cesta básica nos próximos sete dias.>
"Estamos apoiando mais de 100 mil pessoas em nossa comunidade, distribuindo entre 175 e 200 toneladas de alimentos por semana", explica ele. Os alimentos são financiados por membros da igreja, bancos de alimentos e fundações de apoio.>
Amezcua garante que a igreja treina os voluntários que se oferecem para distribuir os alimentos. Atualmente, 4 mil pessoas estão colaborando nesse esforço.>
"Não posso dar mais detalhes, mas se eles virem que a imigração está os perseguindo, eles voltam e não entregam a comida.">
A ajuda para uma família inclui vegetais, frutas, macarrão, molhos, proteína, leite e queijo.>
"Varia um pouco a cada dia, mas inclui: tortillas, farinha, massa de milho, óleo, açúcar, sal, sabão, fraldas, fórmula infantil e papel higiênico.">
Seu desafio atual é conseguir um caminhão — próprio ou alugado — e um armazém para seus produtos.>
"Há muita ajuda disponível e não temos onde guardar todos esses suprimentos.">
Os fieis não estão apenas evitando ir ao supermercado. Muitos também pararam de mandar seus filhos para a escola e não vão ao hospital quando ficam doentes.>
"É um esforço coletivo", diz o pastor. "Estamos aqui para ajudar, não para confrontar o governo. Não perguntamos quem tem documentos. Quem pede ajuda, nós ajudamos.">
Sem dar maiores detalhes sobre o imigrante que saltou do terceiro andar, o pastor garante que ele sobreviveu e está se recuperando.>
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