Publicado em 14 de janeiro de 2026 às 16:11
Retratar o que ocorreu nos dias 8, 9 e 10 de janeiro em diferentes cidades do Irã é muito difícil porque o acesso à internet e às comunicações telefônicas com o exterior foi amplamente interrompido.>
Ainda assim, vídeos e relatos de pessoas com acesso à internet via satélites Starlink chegaram às mãos do serviço persa da BBC.>
A BBC não consegue verificar de forma independente esses relatos nas atuais circunstâncias, mas a análise conjunta dos depoimentos recebidos revela padrões e descrições consistentes sobre a forma de atuação das forças de segurança e o clima predominante nas cidades.>
O serviço persa da BBC, para proteger a segurança de suas fontes, evita mencionar nomes e outros dados pessoais de quem forneceu esses relatos.>
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Um conjunto de relatos recebidos pelo serviço persa da BBC de diferentes cidades do Irã descreve uma repressão em grande escala, sem precedentes, que incluiu o uso de violência letal contra manifestantes e cidadãos comuns.>
Segundo pessoas presentes, foram utilizadas munições letais, drones, atiradores de elite, agentes à paisana e unidades da Guarda Revolucionária para conter os protestos de quinta (8/1) e sexta-feira.>
A seguir, alguns dos depoimentos coletados pelo serviço persa da BBC.>
Várias testemunhas na cidade de Fardis (a cerca de 40 km a oeste de Teerã) afirmaram que, na sexta-feira (9/1), depois de várias horas em que nenhuma força policial foi vista nas ruas, unidades ligadas à Guarda Revolucionária atacaram repentinamente manifestantes em parques e vielas.>
Segundo uma das testemunhas ouvidas pela BBC, homens "com roupas e motocicletas características da Ansar" (unidades motorizadas da Guarda Revolucionária que atuam em protestos) dispararam diretamente com armas de guerra.>
A mesma fonte afirmou que os agentes armados "entraram nas vielas em veículos particulares e atiraram de dentro dos carros contra as pessoas".>
"Eram dois ou três mortos em cada beco", destacou.>
De acordo com fontes locais, as forças da Guarda Revolucionária se concentraram em três pontos principais da cidade e dispararam contra manifestantes, motoristas e até pedestres, "sem se importar com a situação em que se encontravam".>
Dois vídeos que circularam nas redes sociais mostravam corpos com ferimentos de bala, aparentemente relacionados aos protestos de quinta-feira (8/1).>
Em um desses vídeos, uma pessoa, cuja voz é o único som que se ouve, diz: "Hoje, 8 de janeiro, vejam o que fizeram com as pessoas em Fardis. São 9h da noite; mataram pessoas com munição real".>
Nos dois vídeos, aparecem entre oito e dez pessoas deitadas no chão com sangramento intenso, e até o momento não se sabe o que ocorreu com elas depois.>
Algumas fontes locais estimam que o número de mortos em Fardis poderia ter chegado a centenas e afirmam que os corpos não foram retirados dos becos até a manhã seguinte.>
Por sua vez, testemunhas em Teerã e Karaj (região central do país) disseram ao serviço persa da BBC que as forças de segurança dispararam contra as pessoas a partir de pontes e terraços de prédios.>
Segundo uma das testemunhas, os agentes apontavam para as pessoas com lasers e "se você corresse, não era perseguido, mas se parasse e gritasse palavras de ordem, abriam fogo".>
A mesma testemunha acrescentou que cápsulas de bala foram deixadas nas ruas, apesar de as forças de segurança terem tentado recolhê-las.>
Algumas fontes locais e testemunhas presenciais mencionaram números de mortos que variam de alguns milhares a dezenas de milhares.>
A Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos (HRANA, na sigla em inglês), sediada nos EUA, informou que até o momento havia conseguido confirmar a morte de 2.571 pessoas.>
Esse total incluiria 2.403 manifestantes, 147 pessoas ligadas ao governo, 12 menores de 18 anos e nove civis que não participavam dos protestos.>
A BBC ainda não conseguiu verificar esses dados de forma independente, e as autoridades também não divulgaram números oficiais e transparentes.>
Uma fonte bem informada disse ao serviço persa da BBC que, na madrugada de sexta-feira (9/1), entre 180 e 200 corpos foram levados para um necrotério na cidade de Mashhad (nordeste do país, perto da fronteira com o Turcomenistão) e foram rapidamente enterrados.>
Segundo essa fonte, a maioria deles apresentava ferimentos graves na cabeça.>
Outra pessoa que compareceu ao instituto forense de Kermanshah (oeste do país) para identificar um familiar afirmou ter visto cerca de 200 corpos no local.>
Algumas testemunhas denunciaram que os cadáveres estavam "empilhados" e que muitos não estavam sendo entregues às famílias.>
No canal do Telegram do blogueiro iraniano Vahid Online, foram divulgados vídeos mostrando grande número de corpos em sacos mortuários pretos e famílias em luto tentando identificar seus entes queridos no instituto forense de Kahrizak (próximo a Teerã). Em outro vídeo, um caminhão descarregava cadáveres no local.>
Segundo dados de uma fonte confiável em Rasht (na costa do mar Cáspio), 70 corpos de pessoas mortas nos protestos de 8 de janeiro foram levados ao hospital local Poursina.>
A mesma fonte afirmou que o necrotério do hospital não tinha capacidade para todos os corpos. Também disse que agentes de segurança exigiam das famílias o pagamento de um "dinheiro pelas balas" para entregar os corpos de seus entes queridos.>
Um membro da equipe de saúde de um hospital no leste de Teerã disse à BBC que, em 8 de janeiro, cerca de 40 mortos foram levados para lá. Por questões de segurança, o nome do hospital não foi informado.>
Veículos de comunicação dentro do Irã também relataram a morte de 100 membros das forças de segurança durante os protestos e afirmaram que os manifestantes, descritos como "agitadores", incendiaram dezenas de mesquitas e bancos em várias cidades.>
Vídeos verificados pelo serviço persa da BBC mostram que, em diferentes locais, veículos policiais e prédios governamentais também foram incendiados.>
Várias fontes relataram o uso extensivo de drones pelas forças de segurança para identificar e alvejar manifestantes.>
"Os drones sobrevoavam constantemente as pessoas. Atiravam diretamente e não importava se a pessoa era manifestante ou apenas estava na rua", contou uma pessoa de fora de Teerã.>
Além disso, várias testemunhas afirmaram que foram usadas armas como fuzis Kalashnikov e que os disparos eram "diretos e letais".>
"Isso já não era mais um protesto, era um campo de batalha; com a diferença de que apenas um lado tinha armas", disse uma das testemunhas.>
Em praticamente todos os relatos recebidos, mencionou-se a interrupção ou o grave comprometimento do serviço de internet e da telefonia móvel.>
Alguns afirmaram que a única forma de comunicação disponível era a internet via satélites Starlink.>
Outros expressaram preocupação de que, ao usar o Starlink, as forças de segurança pudessem rastrear sua localização.>
Segundo as testemunhas, em muitas cidades os celulares funcionavam apenas pela manhã e ficavam completamente desconectados a partir da tarde.>
Algumas pessoas disseram que nem era possível enviar mensagens de texto, e que as únicas mensagens recebidas eram ameaças do governo, alertando a população para não participar dos protestos.>
Muitos afirmaram que, após a sexta-feira (9/1), a qual se referem como "a sexta-feira sangrenta", instalou-se um medo generalizado entre a população.>
De acordo com os relatos, a presença de pessoas nas ruas diminuiu drasticamente, embora os cânticos continuem sendo entoados de dentro das casas e dos telhados.>
Uma das testemunhas comentou: "Agora, sair significa caminhar em direção à morte.">
As manifestações começaram em meio à indignação com o colapso da moeda iraniana e o aumento acelerado do custo de vida, e se espalharam por 180 cidades e municípios das 31 províncias do país.>
Esses protestos se expandiram rapidamente, se transformando em reivindicações por mudanças políticas e se tornaram um dos desafios mais sérios ao regime clerical desde a Revolução Islâmica de 1979.>
Os atos se intensificaram de forma significativa na quinta-feira (8/1).>
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