Publicado em 18 de março de 2025 às 17:44
"Desde quando me entendo por gente, nunca tive controle financeiro". A coordenadora de recepção Jennifer de Souza Silva, de 33 anos, diz à BBC News Brasil que sempre fez compras por impulso sem se preocupar em como as pagaria.>
Nos últimos meses, no entanto, ela conta ter acumulado dívidas que se tornaram uma "bola de neve". >
Quando viu que não conseguiria pagar todas as contas, ela começou a participar de jogos caça-níqueis online, como o famoso "jogo do Tigrinho", para tentar ganhar dinheiro e quitar as dívidas.>
Jennifer não está sozinha. Segundo levantamento feito pela Serasa em outubro de 2024, 44% dos endividados que já apostaram relatam ter jogado com o objetivo de quitar uma dívida.>
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Para Jennifer a tentativa resultou em um descontrole ainda maior. Quando percebeu, ela devia não apenas para bancos, familiares, mas também para cinco agiotas.>
"Perdi o controle sobre tudo. Tanto as dívidas quanto os jogos. À medida que eu perdia no jogo, me endividava mais e mais", diz Jennifer.>
Ela conta que mantinha as dívidas em segredo. Não contava nem sequer para o marido.>
"Eu carregava tudo sozinha. Às vezes, até desabafava com alguém pedindo ajuda, mas nunca tive coragem de contar toda a verdade. Eu sentia muito medo e vergonha", conta.>
O marido de Jennifer só soube quando as dívidas se tornaram "impagáveis" e "a água já estava batendo no pescoço".>
"Um dia fiquei aflita porque precisava pagar um dos agiotas, mas ainda faltava dinheiro. No desespero, mandei mensagem para muitas pessoas e acabaram contando para meu marido", diz Jennifer.>
"Não foi fácil. Ele ficou muito chateado, mas foi tentando entender e está me ajudando. Me sinto mais aliviada, mas muito triste, pois estamos tentando acertar as coisas aos poucos e o sentimento de estar devendo, principalmente pessoas [agiotas], é devastador", diz a coordenadora de recepção.>
Hoje, ela organizou em uma planilha o que deve e diz que ainda tem R$ 30 mil em dívidas com agiotas e ao menos mais R$ 70 mil com bancos e familiares. O salário mensal de Jennifer é de R$ 3.600.>
"Eu choro todo o tempo. Por dentro, estou sempre em uma luta de culpa", conta.>
Recorrer a agiotas foi a última opção de Jennifer, por conta das altíssimas taxas de juros que geralmente são cobradas nesse tipo de empréstimo e pela maneira, algumas vezes violenta, como as cobranças são feitas.>
"Comecei pegando empréstimos com bancos. Quando não tinha mais crédito com bancos, recorri a familiares, amigos e cinco agiotas".>
Ela conta que não chegou a ser ameaçada porque conhece alguns dos emprestadores desde a infância e nunca atrasou o pagamento.>
Ela conta que os empréstimos mais baratos que ela pegou com agiotas tiveram juros de 20%. Ou seja, quando pegava R$ 1.000, tinha de pagar R$ 1.200.>
Mas os juros dos empréstimos maiores também foram mais elevados.>
"Dois [agiotas] me emprestaram R$ 15 mil porque conheciam minha família e me conheciam desde pequena. Esses dois parcelaram em mais vezes, mas a dívida cresceu para R$ 40 mil. Foram 20 [parcelas] de R$ 2 mil", conta Jennifer.>
A economista e professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Carla Beni explica que a agiotagem é um empréstimo de dinheiro entre pessoas.>
"Há uma possibilidade de você emprestar dinheiro para outra pessoa. Emprestar dinheiro a juros não é crime. Agiotagem é a cobrança de juros extorsivos, prevista no artigo quarto da Lei 1521, que prevê detenção de seis meses a dois anos", explica.>
A professora, entretanto, diz que após a revogação, em 1999, de uma lei que previa um limite de cobrança de juros, é difícil definir o que é uma cobrança extorsiva. O limite era de 1% ao mês de juro linear — 12% ao ano.>
"Depois, chegaram a existir tarifas de mais de 500% ao ano no rotativo do cartão de crédito. A falta de uma lei dificulta [para a vítima] entrar com processo por juros extorsivos porque você não tem um número fechado a esse respeito", explica Carla Beni.>
Em tese, até um banco tradicional poderia ser condenado por agiotagem. >
A economista avalia que, na teoria, "400% de juros no rotativo do cartão é agiotagem", mas que é quase impossível uma pessoa física ganhar uma ação desse tipo contra um banco na Justiça.>
A professora explica que o uso da palavra agiota hoje geralmente tem uma conotação pejorativa, pois esse crime contra a economia popular é geralmente ligado à coerção e até ameaça ou dano físico ao devedor.>
Os jogos virtuais conhecidos popularmente como "jogo do Tigrinho" são caça-níqueis online nos quais o jogador aciona uma roleta e torce para que, ao parar, ela forme uma sequência premiada.>
Jennifer conta que passou a fazer apostas nessas plataformas porque "não estava vendo o dinheiro com o valor que ele realmente tem" e viu no jogo uma maneira de quitar as dívidas.>
"Na mesma hora que eu metia os pés pelas mãos, achando que daria certo, eu me sentia um lixo. Me sentia sozinha", conta emocionada à reportagem.>
Jennifer conta que foi afundando ainda mais num limbo psicológico e financeiro.>
"Me sentia no fundo do poço quando jogava e perdia o que já não tinha. Isso piorava quando estava chegando as datas de pagar as pessoas. Eu já cheguei a pensar em tirar a minha vida. Assim eu acabaria com tanta dor", conta.>
Uma pesquisa da Serasa, em parceria com a plataforma de pesquisas de mercado Opinion Box, apontou que 5 em cada 10 endividados brasileiros já fizeram pelo menos uma aposta, e 34% deles continuam apostando atualmente.>
Ainda segundo o levantamento, 44% dos endividados que já apostaram relatam ter jogado com o objetivo de quitar uma dívida.>
Jennifer diz que agora trabalha para reestruturar a saúde financeira da família, repensar os erros do passado e servir como exemplo e alerta para outras pessoas em situação semelhante. Esse foi inclusive o motivo de ela ter aceitado contar seu relato publicamente.>
"Eu tinha paz. Meu erro foi não dividir minhas dores com minha família. Espero poder pagar todas as pessoas, principalmente amigos e familiares, e voltar a andar com a minha cabeça erguida. E nunca mais passar por isso novamente", diz.>
Jennifer e o marido montaram uma planilha com todas as dívidas para organizar os pagamentos e não atrasar nenhuma data. A prioridade são os agiotas.>
A economista e professora da FGV diz que a "recomendação número um" quando uma pessoa está em uma situação de dívida como essa é buscar ajuda.>
"Essa ajuda é falar para a família. Esse é o primeiro ponto. Porque a pessoa fica tomada por um sentimento de vergonha e de fracasso. Ela tem que enfrentar uma questão moral porque a maioria das pessoas que joga faz isso escondido", diz.>
A especialista diz que muitas famílias não sabem do vício porque estudos apontam que o pico do horário em que esses jogos são feitos é das 22h às 2h — momento em que muitos filhos e parceiros já estão dormindo.>
"O cônjuge não sabe que o parceiro está jogando. O filho não sabe que o pai joga, o pai não sabe que o filho joga. Primeiro é procurar ajuda porque não adianta pensar em reestruturar a questão financeira. Fazer planilha não dá. Não dá para pensar em nada disso", diz a professora Carla Beni.>
Jennifer contou à reportagem que abriu uma loja de pijamas e começou a trabalhar como motorista de aplicativo aos fins de semana para complementar a renda e pagar o que deve.>
"A vida está uma correria. Mas creio que logo sairei dessa", diz.>
Graças à ajuda de amigas, que fizeram uma vaquinha, Jennifer também está recebendo acompanhamento psicológico.>
Segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), feita pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 76,4% das famílias brasileiras possuíam algum tipo de dívida em fevereiro de 2025. No mesmo período de 2024, esse número foi de 77,9%.>
A maior parte dessas dívidas, segundo o levantamento, foram feitas com prazos menores e custos mais elevados, como o cartão de crédito, que corresponde a 83,8% dessas contas.>
Isso é um sinal, segundo os especialistas do CNC, que essa dívida foi feita por pessoas que estão "com a corda no pescoço" e precisaram recorrer ao crédito para quitar os gastos acima do previsto.>
Já o número daquelas que não terão condição de pagar as dívidas em atraso, como Jennifer, chegou ao patamar de 12,3% em fevereiro.>
As famílias com renda de até três salários mínimos são as mais afetadas pelo endividamento e inadimplência, segundo a Peic. >
O levantamento aponta que 79,7% dessas pessoas tinham dívidas em fevereiro de 2025. Especialistas afirmam que isso ocorre porque essas são as pessoas que mais necessitam de crédito para consumir.>
A economista Carla Beni explica que, no caso de dependência de jogos, é mais urgente buscar ajuda médica do que tentar planilhar ou buscar mais empréstimos para pagar as contas.>
"Se a pessoa tiver um nível de vício muito grande, ela vai ter que procurar ajuda médica ou também jurídica, porque há uma lei específica só com o superendividamento".>
A professora explica que há o risco de a pessoa não conseguir mais manter sua sobrevivência ou pagar contas básicas de alimentação, energia elétrica e aluguel.>
"Eventualmente, ela precisa procurar o Procon e o tribunal de pequenas causas para pedir ajuda. Existe uma lei do superendividamento que ela pode tentar se enquadrar. Mas é muito importante lembrar que ela precisa de ajuda médica, psicológica ou até psiquiátrica".>
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