Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 17:11
O mês de dezembro de 2025 foi marcado por uma movimentação peculiar no Vale do Silício, região da Califórnia (EUA) que é considerada a capital global da tecnologia e lar de muitos dos bilionários que fizeram sua fortuna no setor.>
À medida que o fim do ano se aproximava, cresciam rumores de que alguns desses residentes mais ricos planejavam reduzir seus vínculos com a Califórnia ou até mesmo abandonar completamente o Estado.>
A suposta revolta seria provocada pela ameaça de um novo imposto estadual de 5% sobre fortunas a partir de US$ 1 bilhão.>
Caso aprovado, o imposto será aplicado retroativamente a todos os bilionários residentes da Califórnia em 1º de janeiro de 2026, o que explicaria a aparente urgência em deixar o Estado antes do fim de 2025.>
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O empresário e investidor David Sacks, assessor especial para Inteligência Artificial e Cripto do governo do presidente Donald Trump, aumentou a especulação sobre o assunto em um post na rede social X em 21 de dezembro. >
Ao comentar sobre um protesto contra bilionários em San Francisco, ele escreveu: "Mensagem recebida".>
Dez dias depois, em 31 de dezembro, Sacks postou: "Tenho o prazer de encerrar o ano anunciando que a Craft Ventures [empresa de capital de risco da qual é fundador] abriu um escritório em Austin [no Texas]. Que Deus abençoe o Texas e feliz ano novo!". Segundo comunicado da empresa, Sacks se mudou para Austin em dezembro.>
No mesmo dia, Peter Thiel, cofundador da PayPal e da empresa de software Palantir Technologies, entre outras, anunciou que sua empresa de investimentos privados, Thiel Capital, estava abrindo um escritório em Miami, na Flórida. >
A nova unidade, segundo comunicado, irá "complementar" as operações da empresa em Los Angeles.>
A imprensa americana também relatou que Sergey Brin e Larry Page, os fundadores do Google, retiraram diversos ativos da Califórnia pouco antes do Natal, incluindo a transferência para outros Estados de empresas de responsabilidade limitada (LLCs) que gerenciam parte de seus interesses comerciais e investimentos.>
Como a Califórnia tem mais de 200 bilionários, mais do que qualquer outro Estado americano, a possibilidade de taxação sobre essas fortunas gerou um enorme debate, envolvendo não apenas líderes do setor de tecnologia, mas também deixando claras divisões no Partido Democrata, que domina a política local.>
A proposta de taxar bilionários foi apresentada no fim do ano passado pelo Service Employees International Union-United Healthcare Workers West (SEIU-UHW), um sindicato que representa mais de 120 mil profissionais de saúde, trabalhadores de hospitais e pacientes na Califórnia.>
Residentes do Estado com fortunas a partir de US$ 1 bilhão estariam sujeitos ao novo imposto, cuja alíquota aumenta de forma progressiva e linear, partindo de 0% até chegar a 5% para aqueles com US$ 1,1 bilhão ou mais.>
Na prática, quase todos os afetados pagariam a alíquota de 5%. Isso porque, de acordo com a lista de bilionários compilada pela Revista Forbes, citada pelos autores da proposta, apenas um entre os 204 bilionários da Califórnia tem fortuna abaixo de US$ 1,1 bilhão.>
Esse imposto estadual seria pago uma única vez, não seria recorrente, e o pagamento poderia ser dividido ao longo de cinco anos, em parcelas de 1% (acrescidas de "uma pequena taxa").>
Mas a medida só entrará em vigor caso seja aprovada por consulta popular na eleição legislativa de novembro deste ano. E nem mesmo a inclusão da proposta nas cédulas de votação está garantida, já que depende da assinatura de 875 mil eleitores da Califórnia.>
O SEIU-UHW anunciou que começou a coleta de assinaturas neste mês, mas opositores da ideia, entre eles o governador do Estado, o democrata Gavin Newsom, já avisaram que pretendem lutar para que não seja incluída nas cédulas de votação.>
Caso o SEIU-UHW consiga reunir o número necessário de assinaturas e a pergunta realmente chegue às cédulas, são esperadas campanhas intensas, tanto por parte de apoiadores quanto de opositores, para convencer os eleitores a votar pelo "sim" ou pelo "não".>
Peter Thiel já doou US$ 3 milhões para uma campanha contra a medida, e há relatos na imprensa americana de que vários outros investidores também fizeram doações.>
Se a proposta for aprovada em novembro, os contribuintes afetados terão de pagar o imposto já em 2027, e o montante exato devido será calculado com base em seu patrimônio líquido total em 31 de dezembro de 2026. Mesmo se aprovada, porém, muitos apostam que a mudança será contestada na Justiça.>
O SEIU-UHW e um grupo de especialistas em direito e política tributária consultados para elaborar a proposta afirmam que a taxação dos bilionários serviria para compensar cortes de gastos na saúde adotados pelo governo Trump em 2025.>
O argumento é o de que a Califórnia enfrenta "uma crise fiscal aguda", causada "em grande parte" pelos cortes federais, que devem causar um aumento nos custos de saúde. >
É citado o risco de fechamento de hospitais, demissão de funcionários e perda cobertura de saúde para muitos moradores, entre outros impactos negativos.>
"Novas receitas são necessárias para atenuar o impacto desses danos", afirmam coautores da propostas em um artigo recente.>
Eles observam que muitos dos cortes federais foram "para compensar o custo de grandes isenções fiscais para os mais ricos". >
A ideia do imposto seria "utilizar fundos dos que mais ganharam com as recentes mudanças federais para proteger aqueles que foram mais prejudicados".>
"Economistas projetam que a Califórnia perderá cerca de US$ 100 bilhões nos próximos cinco anos [em cortes à saúde]", diz à BBC News Brasil um dos autores, Brian Galle, professor da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Berkeley (UC Berkeley).>
"Nossa pesquisa sugere que a maneira economicamente mais sensata de preencher esse rombo seria impor um imposto sobre este grupo de pessoas que já são extraordinariamente confortáveis [financeiramente]", afirma Galle.>
A expectativa é a de que o novo imposto arrecade cerca de US$ 100 bilhões ao longo de cinco anos, sendo US$ 20 bilhões por ano, de 2027 a 2031. Pela proposta, 90% da receita seria investida em saúde, e o restante em assistência alimentar e educação.>
A perspectiva de um imposto sobre fortunas desencadeou uma reação imediata por parte de bilionários e investidores. >
Em uma mobilização online, críticos como David Sacks, que comanda um podcast popular, passaram a ressaltar os possíveis impactos negativos no setor de tecnologia e na economia do Estado.>
Um dos argumentos é o de que o imposto tributaria ativos e participação acionária em vez de renda e prejudicaria fundadores de empresas e startups. >
Há o temor da necessidade de vender grande quantidade de ações para pagar o imposto, com impacto negativo no valor das empresas.>
O investidor do setor de tecnologia Chamath Palihapitiya disse em postagem no X em dezembro que a medida levaria a Califórnia à falência. >
"O desfecho inevitável será um êxodo dos empreendedores mais talentosos, que podem — e irão — optar por fundar suas empresas em Estados menos regressivos.">
Em postagem no X neste mês, Andy Fang, cofundador da empresa de entrega de comida DoorDash, disse que ama a Califórnia, "mas propostas estúpidas de imposto sobre a fortuna como esta tornam irresponsável da minha parte não planejar sair do Estado".>
Outros bilionários, porém, descartaram planos de deixar o Estado, entre eles o CEO da Nvidia, Jensen Huang, e o fundador do Airbnb, Brian Chesky>
O debate deixou claras as divisões não apenas entre fundadores, CEOs e investidores do Vale do Silício, mas também na política local e no Partido Democrata, em um ano eleitoral que irá definir o controle do Congresso em Washington.>
Em um momento de crescente preocupação com o aumento dos níveis de desigualdade nos Estados Unidos, políticos da ala progressista do partido, entre eles o novo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, têm ganhado destaque com a defesa de alta de impostos para os mais ricos.>
A proposta de taxação na Califórnia já recebeu apoio de nomes como o senador Bernie Sanders, que é independente mas vota com os democratas no Congresso, e o deputado federal Ro Khanna, que representa o distrito que engloba o Vale do Silício.>
No entanto, a discussão pode complicar a estratégia do governador Gavin Newsom, que vem tentando se firmar como um dos críticos mais proeminentes de Trump, de olho em uma posssível candidatura democrata à Presidência em 2028.>
Newsom, que tem uma relação próxima com a indústria de tecnologia e já foi prefeito de San Francisco, onde vivem muitos dos líderes do setor, prometeu lutar para impedir que a proposta vá adiante.>
Segundo o governador, o novo imposto poderia inibir a inovação e tornar a Califórnia menos atraente para startups. Em entrevista recente ao jornal New York Times, ele disse que a mera introdução da proposta já havia prejudicado o Estado, ao levar alguns bilionários a se mudarem e, assim, "levarem seus dólares de impostos com eles".>
Em análise conjunta, o órgão técnico e apartidário de assessoria fiscal da Assembleia Legislativa da Califórnia e o Departamento de Finanças do governador estimam que o novo imposto resultaria em dezenas de bilhões de dólares em receitas extraordinárias.>
Ao mesmo tempo, preveem que possa levar a centenas de milhões de dólares por ano em perdas contínuas devido à provável saída de alguns bilionários da Califórnia, para evitar a tributação.>
Apoiadores da proposta, no entanto, descartam a possibilidade de um grande "êxodo" de bilionários. "Minha opinião é a de que falar é fácil", observa Galle.>
"Em muitos casos anteriores, quando um governo, seja nacional ou local, iria adotar novos impostos para os super-ricos, ouvimos ameaças de que essas pessoas iriam partir. Mas elas não foram embora", afirma o professor da UC Berkeley.>
Galle cita o caso da própria Califórnia, que em 2012 estabeleceu um novo imposto sobre milionários. >
"Opositores disseram que iria destruir a economia. Em vez disso, hoje a Califórnia tem uma parcela maior de pessoas que ganham US$ 1 milhão do que tinha antes do imposto.">
"Há muitas evidências econômicas, ao redor do mundo e nos Estados Unidos, sobre se esses tipos de impostos causam respostas reais de deslocamento. E a evidência é de que, sim, alguns se mudam. Mas são poucos", diz Galle.>
Estabelecer domicilio fiscal fora da Califórnia é um processo complexo, que leva em conta uma série de fatores e envolve mais do que simplesmente comprar uma casa em outro Estado.>
"É um teste complicado para definir quem conta como residente da Califórnia, que analisa todos os vínculos sociais e comerciais, onde seus filhos frequentam a escola, quem é seu médico, que escritórios você frequenta quando vai trabalhar", destaca Galle.>
"Seria muito difícil mudar todos esses fatores para conseguir deixar de ser residente nas poucas semanas entre quando os bilionários começaram a falar sobre isso e o dia 1º de janeiro", diz Galle, lembrando que quem sair do Estado após essa data não vai evitar pagar o imposto.>
O debate na Califórnia ocorre em um momento em que inúmeros estudos e especialistas em tributação indicam que os mais ricos pagam taxas de imposto menores do que a classe média trabalhadora.>
No artigo conjunto, os autores da proposta estimam que, "incluindo todos os impostos em todos os níveis de governo, bilionários pagaram 24% de sua verdadeira renda econômica em impostos nos anos de 2018 a 2020, enquanto a média nacional dos EUA foi de 30%".>
O novo imposto poderia ajudar a corrigir esse desequilíbrio, ao tributar toda a riqueza, "independentemente de ter sido realizada como renda ou não".>
Diferentemente de contribuintes assalariados, a maior parte da riqueza dos bilionários está em ações e outros ativos intangíveis e em investimentos tributados a uma alíquota menor. >
Os sistemas de imposto de renda dos Estados Unidos e da Califórnia tributam ganhos de capital e investimentos apenas quando o proprietário vende seus ativos.>
"O imposto de renda, mesmo que tenha alíquotas progressivas, em que as pessoas pagam mais conforme sua capacidade de pagar, não é muito eficiente em tributar os super-ricos", diz à BBC News Brasil outro dos arquitetos da proposta, Darien Shanske, professor da Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Davis (UC Davis).>
"Isso ocorre porque os super-ricos não recebem renda. Eles têm muitos ativos, é isso que os torna ricos, e não precisam vendê-los para se beneficiar deles", afirma Shanske.>
"A maioria dos sistemas de imposto de renda tributa os investidores apenas quando vendem seus investimentos", complementa Galle. >
"Há um incentivo muito forte para que indivíduos ricos nos Estados Unidos simplesmente mantenham seus investimentos para sempre e não os vendam.">
Para os autores da proposta, como os bilionários "geralmente não têm muita renda comum, nem costumam vender seus ativos", mesmo se alguns realmente deixarem o Estado, o impacto não seria tão profundo.>
"Sua renda representa uma parcela relativamente pequena [cerca de 2,5%] do total de receitas do imposto de renda da Califórnia", diz o artigo, ao sugerir que a perda seria "muito pequena em relação à receita esperada de US$ 100 bilhões com o [novo] imposto".>
Dados citados pelos autores indicam que "o crescimento anual da riqueza dos bilionários [nos EUA] de 1982 a 2025 foi de cerca de 7,5% ao ano [ajustado pela inflação], enquanto a renda média cresceu apenas 1,5% ao ano no mesmo período".>
"O que é intrigante e, francamente, um pouco desanimador sobre algumas das reclamações por parte dos bilionários é que cada um deles, mesmo que pague o total de 5% no primeiro ano [em parcela única], ainda estará mais rico ao final do ano do que quando começou", afirma Shanske. "Porque seus ativos estão se valorizando a mais de 5%.">
"Como o pagamento pode ser parcelado em cinco anos, na prática, os bilionários continuarão a ver sua riqueza crescer, em média, cerca de 6,5% ao ano, ao mesmo tempo que fornecem ao Estado uma receita valiosa", diz o artigo.>
Segundo os autores, com o novo imposto, os super-ricos passariam a contribuir "com algo mais próximo de uma parcela justa de sua riqueza para sustentar o Estado no qual construíram suas fortunas".>
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