Publicado em 26 de janeiro de 2026 às 19:11
O presidente americano, Donald Trump, quer a Groenlândia para os Estados Unidos — e chegou a ventilar a possibilidade de comprar a ilha, que integra o Reino da Dinamarca.>
Trump prometeu, no seu discurso de posse, que "os Estados Unidos serão novamente considerados uma nação em crescimento, que aumenta sua riqueza, expande seu território" e também que "leva a nossa bandeira para novos e belos horizontes".>
Suas palavras e seu sonho de incorporar a maior ilha do mundo ao seu país recordam outras épocas da história americana.>
O historiador Walter A. McDougall, da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, declarou à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, que "as políticas de Trump relembram a tradição da terra prometida da Doutrina Monroe".>
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Esta doutrina, de 1823, serviu para justificar o intervencionismo expansionista dos Estados Unidos como ações legítimas contra a intromissão europeia no hemisfério ocidental.>
Outro historiador, Jay Sexton, da Universidade de Missouri, também nos Estados Unidos, destaca outro paralelo.>
"Como ocorre com a Groenlândia, Washington alegou que precisava ter o controle dos territórios antes que eles caíssem nas mãos de outras potências.">
Na verdade, a expansão territorial que transformou os Estados Unidos no vasto país atual começou poucos anos após sua fundação, em 1776.>
As guerras de conquista, a submissão dos povos originários, o deslocamento de colonos e acordos com as potências europeias foram meios comuns de crescimento da potência emergente.>
Mas a compra de territórios de outros Estados soberanos, como defende Trump em relação à Groenlândia, foi outro mecanismo empregado pelos líderes de Washington para ampliar o território do país.>
Aqui estão os episódios em que os Estados Unidos compraram territórios de outros países ao longo da sua história.>
Houve outras ocasiões em que Washington aceitou compensar potências estrangeiras pela cessão de território. >
Foi o que ocorreu com a Espanha em relação à Flórida, em 1819. Mas estes casos não envolveram operações de compra e venda, propriamente ditas.>
A decisão tomada pelo terceiro presidente americano, Thomas Jefferson (1743-1826), de comprar da França napoleônica o território da Louisiana foi a primeira grande expansão do novo país.>
Naquela época, Napoleão Bonaparte (1769-1821) já havia desistido do seu sonho de formar um império ultramarino para a França, após a revolta de escravos no atual Haiti. >
Por isso, ele aceitou vender à jovem república americana um vasto e pouco habitado território que não tinha mais valor estratégico.>
O general poderia, então destinar o dinheiro da venda para financiar as guerras de expansão do seu império na Europa.>
A Louisiana era, na época, um território muito maior que do atual Estado homônimo. E Jefferson via, na expansão para o oeste, o futuro dos Estados Unidos.>
O presidente queria garantir o controle do vale do Mississippi e do estratégico porto de Nova Orleans, no sul do país.>
Além disso, era sua intenção eliminar o risco de uma intervenção francesa no continente americano, algo muito temido na época.>
Os governos dos Estados Unidos e da França chegaram a um acordo e a Louisiana mudou de dono em novembro de 1803. Os americanos pagaram pelo território US$ 15 milhões, em valores da época.>
A enorme incorporação envolveu um território que compreendia toda a extensão entre os atuais Estados de Louisiana, ao sul, e Dakota do Norte e Montana, ao norte. >
Ela representou o acréscimo de mais de 2 milhões de quilômetros quadrados à União, que quase duplicou seu tamanho.>
Foi assim que se iniciou a expansão dos Estados Unidos rumo ao oeste.>
Na década de 1840, grande parte da opinião pública americana estava convencida de que seu "destino manifesto" era se expandir em direção ao oeste, até atingir o litoral do Pacífico.>
O objetivo acabou sendo alcançado às custas do México.>
Um dos maiores defensores da expansão foi o presidente americano James K. Polk (1795-1849). E, assim que chegou à Casa Branca, em 1845, ele herdou a disputa com o México pelo controle do Texas.>
No ano seguinte, após um embate entre tropas americanas e mexicanas na fronteira, Polk conseguiu fazer com que o Congresso dos Estados Unidos declarasse guerra ao México. Mas as causas do conflito eram mais profundas.>
"Os Estados Unidos haviam demonstrado seu interesse pela Califórnia, que na época pertencia ao México", explica Sexton.>
"Era uma das regiões economicamente mais vibrantes da América e detinha os portos de águas profundas que eram cobiçados para empreender o comércio com a Ásia.">
"Mas nenhum governo mexicano poderia aceitar vender a Califórnia e pretender ficar no poder", prossegue o historiador.>
A guerra terminou com a vitória americana e a assinatura, em fevereiro de 1848, do Tratado Guadalupe Hidalgo, que concedeu aos Estados Unidos o território do Texas, Califórnia, Novo México, Arizona, Nevada, Utah e partes do Colorado, Wyoming, Kansas e Oklahoma.>
Os Estados Unidos pagaram US$ 15 milhões, mas, como diz Sexton, "os mexicanos nunca teriam aceitado ceder os territórios se não tivessem perdido a guerra. Foi uma venda à força".>
O México perdeu mais da metade do território que detinha antes da guerra. A derrota e a consequente mutilação territorial geraram um trauma nacional duradouro para o país.>
Poucos anos depois, em 1853, o México concordou em vender para os Estados Unidos uma pequena faixa de território, que ficava ao sul dos atuais Estados americanos do Arizona e do Novo México.>
A operação é conhecida no México como a Venda de La Mesilla e, nos Estados Unidos, como a Compra de Gadsden.>
Ela foi o resultado do interesse americano pela construção de uma ferrovia transcontinental e dos apuros do governo mexicano, que acabou aceitando receber US$ 10 milhões pelo território.>
Sexton explica que "os escravagistas do sul dos Estados Unidos queriam uma ferrovia que chegasse ao Pacífico e receavam que o trajeto desviasse das Montanhas Rochosas pelo norte, beneficiando os Estados não escravagistas. Por isso, eles promoveram uma estrada de ferro no sul, que levasse até Nova Orleans".>
Muitas pessoas não entenderam por que o então secretário de Estado americano, William Seward (1801-1872), dedicou tanto empenho para comprar do governo do czar russo Alexandre 2° (1818-1881) o longínquo território ártico do Alasca, em 1867.>
Seward acreditava que o Alasca tinha grande valor estratégico, já que afastaria o risco de uma intervenção britânica da América do Norte e permitiria que os Estados Unidos tivessem acesso a ricas regiões pesqueiras no Oceano Pacífico. Por isso, ele fechou um acordo com a Rússia para comprar o Alasca por US$ 7,2 milhões.>
A compra gerou enorme polêmica. Os jornais da época chegaram a chamar a operação de "a estupidez de Seward".>
A Rússia czarista acreditava ter se livrado de um território de pouco valor, cuja administração era muito cara e que era considerado vulnerável a um possível ataque do Reino Unido, seu principal rival da época.>
Apesar das críticas, o Congresso americano ratificou o tratado de compra e venda e o Alasca passou a fazer parte dos Estados Unidos.>
Décadas depois, a descoberta de ouro e grandes jazidas de petróleo, além da importância militar adquirida pelo Alasca durante a Guerra Fria (1947-1991), reabilitaram Seward pela sua decisão de comprar o território.>
A última vez em que os Estados Unidos compraram um território foi justamente da Dinamarca, que, agora, não quer vender a Groenlândia para os americanos.>
As Índias Ocidentais Dinamarquesas, como eram conhecidas na época, eram um grupo de ilhas do Caribe, cobiçadas pelos estrategistas americanos desde meados do século 19.>
Uma primeira tentativa fracassada de negociação também teve Seward como protagonista.>
Um artigo do historiador dinamarquês Hans Christian Bjerg explica que, "após a Guerra Civil Americana (1861-1865), havia chegado o momento de analisar as condições estratégicas no Caribe e o secretário de Estado Seward se concentrou tanto na anexação do México, quanto em uma possível expansão dos Estados Unidos no Caribe".>
Os estrategistas americanos tinham interesse específico pelo porto da ilha de Saint Thomas, devido à excelente proteção natural oferecida pelo relevo local.>
A Dinamarca passou décadas explorando grandes plantações nas ilhas, cultivadas por pessoas africanas escravizadas. Mas a queda do preço do açúcar fez com que o país europeu perdesse o interesse pelo arquipélago.>
Um primeiro acordo de compra e venda firmado pelos dois governos em 1867 não se concretizou porque não foi ratificado pelo Congresso americano.>
O início da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e a ameaça aos Estados Unidos representada pelos submarinos alemães reacenderam o interesse de Washington.>
Os americanos receavam que a Alemanha invadisse a Dinamarca e ficasse com o controle do porto de Saint Thomas.>
Astrid Andersen, do Instituto Dinamarquês de Estudos Internacionais, contou à BBC que "existem reminiscências do que estamos ouvindo, agora, com a Groenlândia, pois os Estados Unidos vieram dizer 'ou vocês nos vendem ou iremos invadir'.">
Por fim, os dois países concordaram com a venda das ilhas para os Estados Unidos por US$ 25 milhões.>
E, como parte do acordo, os Estados Unidos se comprometeram a não se opor a que a Dinamarca "estenda seus interesses políticos e econômicos sobre toda a Groenlândia".>
* Mapa de Caroline Souza, da equipe de Jornalismo Visual da BBC News Mundo.>
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