Publicado em 5 de fevereiro de 2026 às 10:09
Roupas brancas às sextas-feiras, o som dos atabaques, patuás junto ao corpo, a cabeça no chão como gesto de respeito.>
Esses são alguns rituais praticados em terreiros de candomblé, umbanda e quimbanda — religiões de matriz africana que surgidas no Brasil com a vinda forçada de povos escravizados.>
Mas o que muita gente não sabe — e muitos livros de história não registram — é que estes rituais têm influência do islamismo africano, já que parte dos escravizados que vieram ao Brasil seguiam esta fé.>
Os malês, como ficaram conhecidos os africanos muçulmanos escravizados, vieram da região do Golfo do Benim e desembarcaram no Brasil entre os séculos 18 e 19.>
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De acordo com a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, docente do departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), o termo malê tem origem no iorubá e está associado a muçulmano, mestre ou sábio — refletindo o reconhecimento social que esses africanos possuíam em suas regiões de origem, sobretudo no atual sudoeste da Nigéria e Benim.>
Vivendo principalmente em Salvador, eles dominavam a leitura e a escrita em árabe, conheciam o Alcorão e mantinham práticas religiosas regulares — como orações, jejum e ensino religioso estruturado.>
No Brasil, os malês se destacaram pelo alto grau de organização religiosa, política e intelectual.>
"Por serem muçulmanos, eles se reconheciam entre si, mesmo não tendo vindo todos da mesma região. A religião criava um vínculo que facilitava a organização coletiva", explica Barbosa.>
Mas essas práticas eram reprimidas pelas autoridades coloniais e depois imperiais do Brasil — onde por séculos o catolicismo foi a religião oficial e outras crenças, inclusive as de africanos não-islâmicos, foram fortemente reprimidas.>
Até que, em 1835, os malês protagonizaram um dos levantes regenciais (revoltas ocorridas no Brasil durante o Período Regencial, entre 1831 e 1840) mais importantes do século 19 e uma das principais rebeliões de africanos escravizados em áreas urbanas do Brasil.>
A Revolta dos Malês ocorreu em 25 de janeiro de 1835, em Salvador.>
Segundo o historiador Wilher Freitas Guimarães, mestre em educação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), o movimento foi protagonizado por cerca de 600 africanos escravizados, em sua maioria muçulmanos.>
Vestidos com abadás brancos e portando amuletos considerados protetores, os participantes se organizaram para enfrentar as forças do poder colonial.>
O levante foi rapidamente reprimido pelas autoridades, mas é apontado por pesquisadores como um marco da resistência negra no período regencial e da presença islâmica africana na história do Brasil.>
Após a revolta, o Islã passou a ser ainda mais associado ao risco de insurreição.>
Segundo o antropólogo e historiador Vitor Queiroz, o episódio gerou pânico entre autoridades e parlamentares, que temiam que o Brasil seguisse o caminho do Haiti.>
A Revolução Haitiana, iniciada em 1791 na então colônia francesa de Saint-Domingue, foi a única revolta de pessoas escravizadas nas Américas que resultou na criação de um Estado independente, governado por ex-escravizados.>
"Esse medo levou à perseguição dos muçulmanos, a tentativas de deportação e ao fortalecimento do controle sobre suas práticas religiosas, o que acabou reforçando o apagamento de sua presença na história oficial", explica Queiroz, coordenador do Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).>
Outra explicação para o pouco conhecimento sobre a história dos malês no Brasil era o próprio desinteresse das elites da época nesse povo escravizado, acrescenta o antropólogo e historiador.>
Fatores demográficos também contribuíram para esse silenciamento.>
Com a proibição ao tráfico transatlântico de escravizados para o Brasil, em 1850, a entrada de africanos da África Ocidental, região mais islamizada, diminuiu drasticamente.>
Sem reposição populacional e sob vigilância constante, essa presença foi se diluindo ao longo da segunda metade do século 19.>
Mais tarde, essa herança foi ofuscada pela imigração árabe e pela consolidação de correntes islâmicas mais ortodoxas.>
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O que sobreviveu da cultura islâmica africana no Brasil se perpetuou na memória oral e nas religiões afro-brasileiras, influenciadas por três principais grupos originários: banto (vindo de Angola e Congo), jeje (do antigo Daomé) e nagô (de tradição iorubá).>
Entre os exemplos mais visíveis está o uso do branco, especialmente às sextas-feiras.>
Barbosa, professora da USP, explica que no Islã a cor está associada à preparação espiritual e à limpeza ritual. Segundo ela, antes da reza, há um ritual de purificação do corpo, que inclui banho e higiene.>
"Os muçulmanos usam roupa branca porque era a roupa que o profeta Muhammad usava. É uma roupa que precisa estar limpa, purificada, especialmente para a oração de sexta-feira", afirma.>
A presença dessa cor também aparece nos terreiros, mas não como reprodução pura e simples do rito islâmico — uma comparação com a qual é preciso cautela, diz o historiador Wilher Freitas Guimarães.>
"Temos que ter o cuidado epistemológico em não associar diretamente a influência islâmica como estruturadora das práticas religiosas de matriz africana", afirma.>
Segundo ele, o uso do branco nas religiões de matriz africana resulta de uma formação própria ocorrida no Brasil, na qual a participação dos africanos muçulmanos atuou como um dos componentes, e não origem exclusiva.>
Outra convergência, embora Guimarães novamente aponte que não se pode falar em uma influência direta, está no uso de patuás e amuletos.>
No Islã tradicional, especialmente no norte da África e Península Arábica, não se usa o termo "patuá" — mas existem as hizbs ou ta'wiz, pequenos pedaços de papel ou couro com versículos do Alcorão escritos à mão, para proteção.>
Nas tradições islâmicas africanas, a escrita tem função protetiva — e muitos patuás usados no Brasil também trazem inscrições, reforçando a conexão com as forças espirituais.>
"Ao escrever no patuá, [uma pessoa] aumenta o vínculo com as forças espirituais e deixa claro sua intenção, no objeto, com as forças nas quais acredita", explica Guimarães.>
Barbosa aponta para outros rituais que revelam esse encontro de heranças, como o encostar a cabeça no chão como gesto de respeito, o uso de pequenas bolsas de couro junto ao corpo e até a organização comunitária dos terreiros.>
André Aluize, antropólogo e sacerdote de candomblé (função conhecida também como pai de santo ou babalorixá) da nação ketu (uma das vertentes do candomblé, neste caso de origem iorubá), também pondera que não é possível fazer uma ligação direta entre certos elementos presentes em religiões afro-brasileiras e práticas islâmicas.>
Para Aluize, vice-coordenador da Rede Temática Educaxé (grupo de estudos na Universidade Estadual Paulista), é melhor falar em "incorporação" e "ressignificação" desses elementos no Brasil.>
O pesquisador destaca a influência islâmica, por exemplo, nas batas e adornos de cabeça utilizados nos terreiros, como os turbantes.>
Outro exemplo é o atabaque. Embora o instrumento tenha origem africana, Aluize explica que ele chegou ao Brasil trazido por povos escravizados com forte identidade cultural islâmica.>
Nos terreiros, os atabaques não são apenas instrumentos musicais, mas entidades sagradas, indispensáveis para a realização dos rituais, ressalta o antropólogo.>
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Mais do que falar em sincretismo, especialistas sugerem olhar para essa convergência como resultado de um diálogo forçado entre tradições submetidas à violência da escravidão.>
Aluize propõe que a relação entre o Islã e as religiões afro-brasileiras seja compreendida em dois momentos principais. >
O primeiro tem a ver com a ancestralidade africana comum, anterior à formação histórica das religiões organizadas.>
"Independentemente do tempo histórico, das convenções, territorialidades, dogmas e doutrinas, a noção de sagrado e as relações com ele têm origem no continente africano", destaca Aluize.>
O segundo ocorre com a chegada forçada dos malês ao Brasil, quando suas práticas e concepções religiosas passam a dialogar com outras tradições africanas já presentes no território.>
Para a professora Francirosy Campos Barbosa, da USP, o termo "mistura" não contempla a complexidade do encontro de culturas e crenças ocorrido no Brasil.>
"Não é uma fusão equilibrada, mas uma aproximação construída por pessoas africanas escravizadas, que precisavam criar estratégias para manter vivas suas crenças", explica.>
Assim, elementos do Islã, especialmente aqueles ligados à espiritualidade africana, não sobreviveram como religião organizada, mas foram fragmentados e reinterpretados.>
Para Guimarães, não se trata de afirmar a continuidade de um rito islâmico, mas de reconhecer uma adaptação estratégica.>
"Talvez seja mais produtivo falar em sobrevivência religiosa. Não foi uma mistura livre, mas uma adaptação calculada para continuar existindo em um ambiente de repressão", afirma.>
Sacerdote de candomblé, o antropólogo André Aluize avalia que muitas comunidades de terreiro já veem de forma positiva as influências do islamismo, entendendo-o como parte da formação das religiões afro-brasileiras.>
Contribui para isso o crescimento recente de pesquisas acadêmicas sobre religiosidades de matriz africana no Brasil, que ajudam a reconhecer a "plurietnicidade" na origem dessas tradições, ele aponta.>
Para o público geral, reconhecer a presença islâmica africana na formação religiosa e cultural do Brasil ajuda a ampliar a leitura sobre a escravidão para além da violência física e do trabalho forçado, dizem os entrevistados.>
Segundo Barbosa, há pouco espaço para compreender os africanos escravizados como pessoas letradas e organizadas. A escassez de estudos e a presença limitada da revolta dos Malês nos livros didáticos, segundo a pesquisadora, refletem esse processo de invisibilização.>
Para ela, o resgate dessa história ajuda a revelar a contribuição do Islã para a história brasileira.>
"Infelizmente, há o estigma de um Islã terrorista, que oprime mulheres. Não há o devido conhecimento sobre os muçulmanos, sua história rica de conhecimento e expansão. Com os africanos, pior ainda, porque vivemos em um país racista. Difícil vermos religiosos negros sendo protagonistas", lamenta a antropóloga.>
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