Publicado em 27 de março de 2026 às 06:34
Até o dia 28 de fevereiro de 2026, o Irã, com uma produção diária de cerca de 4,5 milhões de barris de petróleo cru e condensados, controlava o equivalente a 4% da oferta global do produto.>
Depois dos ataques norte-americanos e israelenses, a república islâmica passou a dispor de 20% do petróleo mundial.>
A chave para esse incremento não é econômica ou política, mas militar, e reside no domínio sobre um corredor marítimo de 150 a 170 quilômetros entre os golfos Pérsico e de Omã: o Estreito de Ormuz.>
Situado na margem norte do estreito — ao sul, está Omã, sultanato que historicamente mantém relações amistosas com Teerã —, o Irã pode atingir com facilidade embarcações que usam o estreito para escoar a produção petrolífera do Golfo, responsável por um quinto da oferta mundial de óleo.>
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A situação foi sintetizada na capa da edição de 28 de março da revista britânica The Economist, que mostra um mapa-múndi de papel amassado em formato de funil por uma mão que ostenta um anel com a bandeira iraniana, sob o título "Vantagem para o Irã".>
Embora tenha ameaçado fechar o estreito anteriormente, esta é a primeira vez que o Irã adota a medida de fato — alegando que vale apenas para "nações hostis" como Estados Unidos, Israel e seus aliados.>
Desde o início da Guerra do Irã, apenas algumas dezenas de petroleiros tiveram sinal verde para cruzar o estreito — em tempos de paz, esse é volume de tráfego de um único dia na região.>
Para bloquear a passagem pelo local, as forças armadas iranianas não precisam de grandes recursos dissuasórios: a simples ameaça de instalação de minas marítimas ou de ataques com mísseis ou drones é suficiente para desencorajar companhias de navegação e seguradoras.>
Nos estudos de segurança e defesa, o gesto iraniano recebe um nome sofisticado: guerra assimétrica.>
O termo designa um tipo de conflito armado no qual as estratégias e meios militares das potências envolvidas não são equivalentes, ou seja, quando há profunda disparidade de objetivos e recursos entre os beligerantes.>
"Apesar de ser uma potência média, o Irã não consegue travar uma guerra em pé de igualdade com os Estados Unidos e, por isso, desenvolveu a capacidade de lutar de forma assimétrica", explica Eduardo Svartman, professor do Programa de Pós-graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Associação Brasileira de Estudos de Defesa (Abed).>
Entre os recursos utilizados pela república islâmica, explica o pesquisador, a principal é o apoio a forças irregulares como o Hezbollah no Líbano e os houthis no Iêmen.>
No conflito atual, o Irã decidiu dificultar, limitar ou restringir a circulação de navios por Ormuz a fim de "impor custos que serão dirigidos aos Estados Unidos e a seus aliados", explica Svartman.>
"O estreito não é chave apenas para a produção de petróleo cru. Fertilizantes, polímeros e outros derivados também transitam a bordo dos navios que o atravessam.">
As características de Ormuz, com uma profundidade máxima de cem metros e canais de navegação de apenas três quilômetros em cada direção, permitem que o bloqueio seja efetivado até mesmo por meio de drones, afirma o professor.>
Para Juliano Cortinhas, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), o uso da guerra assimétrica por parte do Irã era previsível diante dos ataques dos Estados Unidos e de Israel.>
"Cada país usa o que tem. O Irã teve a sua soberania atacada, estava pronto para esse cenário e tinha uma capacidade de impor perdas aos Estados Unidos e seus aliados maior do que esses imaginavam", sustenta.>
A abordagem da guerra pelo Irã, se não chegou a surpreender o governo americano, deixou evidentes os erros de cálculo da maior potência militar do mundo, avalia Cortinhas.>
"A máquina de guerra, de poder militar absoluto dos Estados Unidos dá a essas pessoas que têm pouca capacidade analítica a impressão de que podem fazer qualquer coisa. No mundo atual de guerras assimétricas e tecnologias emergentes, isso não é mais possível porque a resistência também é facilitada pelo uso desses recursos.">
Segundo Cortinhas, o presidente dos EUA, Donald Trump, cercou-se de colaboradores que tinham como principal credencial a afinidade ideológica com o chefe e não a competência, como o secretário de Defesa, Pete Hegseth.>
"O processo decisório nos Estados Unidos está completamente caótico", define.>
Além disso, lembra o professor, a inteligência norte-americana parece ter falhado ao não dispor de uma avaliação precisa da capacidade iraniana de defesa.>
As falhas na campanha norte-americana contra o Irã não decorrem de simples improvisação, na opinião de Svartman.>
"Deve haver uma salinha no Pentágono [sede do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, em Washington, D.C.] cheia de planos para dar conta do Estreito de Ormuz desde a Revolução Islâmica. Planejamento militar certamente há. A questão é que, enquanto o planejamento militar é mais técnico, a decisão de usar o poder militar é política", argumenta.>
Uma das possibilidades, cogita Svartman, é de que o governo norte-americano tenha confiado na versão propalada pela inteligência de Israel de que, se a cúpula do regime fosse eliminada por meio de ataques aéreos, uma revolução eclodiria naturalmente no país.>
"Até o momento, isso não aconteceu", observa.>
Lembrando que Trump havia prometido durante a campanha eleitoral não empregar forças terrestres no exterior, Svartman explica que o poder aéreo, embora importante, não é onipotente.>
"Há limites do que se pode obter com ataques aéreos. Uma mudança de regime ou da postura do regime existente não se produziu, e esse timing está começando a ficar caro para os Estados Unidos.">
Além de compensar a inferioridade bélica, a guerra assimétrica pode servir ao Irã como forma de conferir certa ambiguidade ao conflito, diz Maria Eduarda Dourado, mestre em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba.>
"[A guerra assimétrica] dificulta o reconhecimento pela comunidade internacional das ações iranianas como atos formais de guerra", afirma.>
Para a pesquisadora, responder a ameaças assimétricas requer o abandono da mentalidade militar convencional.>
"A lógica da vitória militar convencional deve ser substituída por outra de resiliência e dissuasão multidimensional. A ideia central é tornar o ataque do inimigo inútil, caro ou politicamente impossível", explica Maria Eduarda.>
"A eficácia do controle de Ormuz depende menos da destruição física do adversário e mais da capacidade de sustentar narrativas e coalizões internacionais. A presença da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) torna-se importante, visto que transformará a disputa entre Estados Unidos e Irã em uma questão de segurança coletiva.">
Ex-embaixador no Irã e com passagens pelas embaixadas brasileiras no Iraque e no Kuwait, o embaixador aposentado Sérgio Tutikian lembra que a ameaça de fechamento do Estreito de Ormuz é feita pelo regime de Teerã desde a Guerra Irã-Iraque, de 1980 a 1988.>
O próprio diplomata alerta para esse risco em conversas e entrevistas desde janeiro de 2022, quando os EUA mataram o general iraniano Qassem Soleimani, 62 anos, no aeroporto de Bagdá, no Iraque.>
Tutikian diz que, se eventuais operações terrestres dos EUA na região do Golfo forem estendidas até junho, quando se inicia o verão na região, as forças norte-americanas enfrentarão temperaturas de até 50ºC.>
"Quase todos os países da região têm a mesma temperatura, com a exceção do Bahrein, de clima mais ameno. A umidade relativa do ar é de 100% no verão, causando dor de cabeça. A própria água do Golfo Pérsico é quente", explica.>
Entre as localidades do Golfo que Tutikian visitou ao servir na região, está a ilha iraniana de Kharg, sede de importantes instalações de distribuição de petróleo e cogitada como possível objetivo de uma invasão terrestre dos Estados Unidos.>
"Quando estive no Irã pela primeira vez, nos anos 1970, a ilha era basicamente um ponto turístico.">
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