Publicado em 26 de março de 2026 às 18:34
Importante: esta reportagem contém descrições de tentativas de suicídio que podem ser perturbadoras para alguns leitores.>
Caso você seja ou conheça alguém que apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, ou tenha perdido uma pessoa querida para o suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda no final desta reportagem.>
"Eu vou embora e vocês ficam com toda a dor. E quanto a toda a dor que sofri ao longo destes anos?">
O sofrimento ao longo da vida e os dois anos de luta na Justiça enfrentados pela espanhola Noelia Castillo Ramos, de 25 anos, chegaram ao fim nesta quinta-feira (26/3), quando ela foi submetida à eutanásia que havia solicitado em 2024.>
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Fontes do setor de saúde informaram a morte de Castillo Ramos aos jornalistas de vários veículos de imprensa presentes ao Hospital Residência Sant Camil, da comarca catalã de Garraf, na Espanha, onde se realizou o procedimento.>
A notícia foi confirmada posteriormente nas redes sociais pela organização ultracatólica Advogados Cristãos, que assessorava o pai da jovem, Gerónimo Castillo. Ele tentou impedir o procedimento até o último instante.>
Para a realização da eutanásia, Noelia Castillo Ramos precisou esperar que cinco instâncias judiciais (a última delas, o Tribunal Europeu de Direitos Humanos) se pronunciassem sobre o seu caso. Todas elas deram razão à jovem.>
As autoridades competentes mantiveram a aprovação em todas as instâncias, mas a oposição do seu pai, assessorado pelo grupo religioso, obrigou Castillo Ramos a postergar a situação. Por fim, na terça-feira (24/3), o tribunal europeu encerrou a batalha legal, autorizando a aplicação da eutanásia.>
Ela deixa para trás uma infância complicada em uma família desestruturada, que a levou a ficar temporariamente sob a tutela do Estado. Além disso, ela passou por várias agressões e abusos, uma violação coletiva e uma série de tentativas de suicídio.>
Uma destas tentativas a deixou paraplégica, com terríveis dores, depois de se atirar do quinto andar de um prédio.>
O longo litígio prolongou o sofrimento físico e psicológico da jovem transformou seu caso em jurisprudência na Espanha e foi o primeiro a chegar aos tribunais, desde a entrada em vigor da lei da eutanásia, em 2021.>
O caso também pôs à prova as vulnerabilidades da lei e uma questão talvez mais profunda: quem tem legitimidade para impedir uma pessoa adulta de receber a eutanásia.>
"Consegui e vamos ver se, finalmente, posso descansar, pois já não aguento mais", declarou a jovem de Barcelona esta semana, em entrevista ao programa Y Ahora Sonsoles, da TV espanhola Antena 3.>
"Não aguento mais esta família, não aguento mais as dores, não aguento mais tudo o que me atormenta na cabeça.">
A historia de Castillo gerou controvérsias na Espanha, devido à sua pouca idade e porque ela não se encontra em uma situação socialmente percebida como terminal.>
Mas seu pedido de receber a eutanásia recebeu aval científico unânime da Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha, o comitê de profissionais independentes dedicado a avaliar estes casos naquela região da Espanha.>
A lei exige que o solicitante sofra de uma doença grave e incurável, ou sofrimento crônico insuportável. E a comissão de especialistas afirmou que a jovem atendia aos requisitos, já que apresentava "uma situação clínica sem possibilidade de recuperação".>
Esta situação gerava, segundo o comitê composto por médicos e juristas, "uma dependência grave, dor e sofrimento crônico e incapacitante", repercutindo na sua autonomia e nas suas atividades diárias.>
Além disso, todas as resoluções judiciais emitidas para o seu caso determinaram que Castillo Ramos conserva intactas suas faculdades mentais, o que é imprescindível para que a decisão de pedir a eutanásia seja "livre, consciente e informada", como exige a lei.>
Ela própria deixou clara sua vontade no programa de televisão, quando explicou que passava por profundo sofrimento psíquico. Foi sua primeira e última aparição nos meios de comunicação, desde que seu caso foi para a Justiça.>
"Antes de pedir a eutanásia, eu via meu mundo muito obscuro, não tinha metas, nem objetivos, nem nada", relatou ela às câmeras.>
Castillo explicou que tentou tirar a vida diversas vezes.>
"Tive duas tentativas de suicídio com comprimidos, até que minha mãe me levou ao primeiro hospital psiquiátrico", ela conta. Ali, ela se feriu com cortes e bebeu um produto tóxico retirado de um carrinho de limpeza.>
"No segundo hospital psiquiátrico, eu me machuquei duas ou três vezes e tentei dois suicídios", relata ela.>
Depois de sofrer vários abusos, entre eles uma agressão sexual múltipla nas mãos de três meninos, ela conta que, no dia 4 de outubro de 2022, se atirou do quinto andar de um prédio. A queda não a matou, mas a deixou paraplégica e com graves sequelas.>
Em abril de 2024, Castillo pediu a eutanásia para a Comissão de Garantia e Avaliação da Catalunha, que deu sua aprovação por unanimidade três meses depois.>
Mas seu pai apresentou recurso para impedir o procedimento poucos dias antes da data prevista, em agosto daquele mesmo ano.>
Gerónimo Castillo foi assessorado em todo o processo pelo grupo ultracatólico Advogados Cristãos. Ele alegava que sua filha sofria de problemas de saúde mental e, por isso, não estava em condições de tomar uma decisão totalmente livre.>
Seus advogados também pediram que a jovem recebesse tratamento psicológico, antes de autorizar a morte assistida. Eles acusavam o sistema de não ter esgotado todas as vias terapêuticas possíveis, antes de dar início a um processo irreversível.>
Um tribunal da Catalunha interrompeu o processo de forma cautelar e, sete meses depois, Castillo Ramos compareceu perante a juíza e ratificou sua decisão.>
"Quero terminar com dignidade, de uma vez por todas", declarou ela, na ocasião.>
A jovem declarou ter sofrido "coação" de grupos religiosos que haviam levado desenhos, cruzes e símbolos religiosos ao quarto no centro onde morava.>
A juíza deu razão a Castillo Ramos, mas o caso não acabou ali. A organização Advogados Cristãos levou o caso para o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha, que ratificou a sentença e deu luz verde para a eutanásia.>
Em seguida, tanto a Suprema Corte como o Tribunal Constitucional espanhol rejeitaram o recurso apresentado pelo pai, a quem só restou a via europeia.>
Mas o Tribunal Europeu de Direitos Humanos rejeitou, no dia 10 de março, as medidas cautelares apresentadas pela organização Advogados Cristãos para impedir o processo.>
"Eles sabiam desde o princípio que perderiam e, ainda assim, fizeram Noelia passar por este longuíssimo périplo de quase dois anos, até chegar à alta instância europeia. É revoltante", denunciou à agência de notícias EFE a presidente da Associação pelo Direito a Morrer Dignamente da Catalunha, Cristina Vallès.>
Desde que a lei entrou em vigor na Espanha em 2021, 1,3 mil pessoas conseguiram exercer seu direito à eutanásia e morrer acompanhadas de suas famílias, segundo Vallès.>
"São pessoas que sofrem tanto que preferem ir descansar", destacou ela. "E as famílias as acompanham porque acompanhar e deixar ir é um ato de amor.">
O caso de Noelia Castillo Ramos se transformou em um símbolo na Espanha para os defensores da morte digna. Mas ela deixou claro que não quer ser "exemplo de ninguém".>
"Eu só quero ir embora em paz e parar de sofrer", conclui a jovem.>
Caso você seja ou conheça alguém que apresente sinais de alerta relacionados ao suicídio, ou tenha perdido uma pessoa querida para o suicídio, confira alguns locais para pedir ajuda: >
- O Centro de Valorização da Vida (CVV), por meio do telefone 188, oferece atendimento gratuito 24h por dia; há também a opção de conversa por chat, e-mail e busca por postos de atendimento em todo o Brasil;>
- Para jovens de 13 a 24 anos, a Unicef oferece também o chat Pode Falar;>
- Em casos de emergência, outra recomendação de especialistas é ligar para os Bombeiros (telefone 193) ou para a Polícia Militar (telefone190);>
- Outra opção é ligar para o SAMU, pelo telefone 192;>
- Na rede pública local, é possível buscar ajuda também nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Unidades de Pronto Atendimento (UPA) 24h; >
- Confira também o Mapa da Saúde Mental, que ajuda a encontrar atendimento em saúde mental gratuito em todo o Brasil.>
- Para aqueles que perderam alguém para o suicídio, a Associação Brasileira dos Sobreviventes Enlutados por Suicídio (Abrases) oferece assistência e grupos de apoio. >
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