Publicado em 15 de fevereiro de 2026 às 07:09
Em uma noite quente de verão, Nisha Vaishnav, então com 14 anos, treinava futebol com a irmã Munna, de 18, quando as duas perceberam que cinco adultos as fotografavam.>
Nisha logo descobriu o motivo do interesse: todos eram da mesma família e incluíam um casal à procura de esposa para o filho.>
A mãe de Nisha, que também estava ali, se mostrou favorável à possibilidade de casamento.>
O grupo seguiu para a casa da família Vaishnav, na aldeia de Padampura, no estado de Rajastão, no noroeste da Índia.>
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"Minha mãe me pediu que tocasse os pés deles em sinal de respeito", diz Nisha. "Eu me recusei.">
Embora a lei proíba o casamento de meninas com menos de 18 anos e de meninos com menos de 21 na Índia, o casamento infantil ainda é comum na prática.>
Cerca de 25% das mulheres que vivem na Índia se casaram antes da idade legal, segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef).>
Ainda assim, a proporção de casamentos infantis caiu de forma significativa nos últimos 30 anos.>
Em 1992-93, cerca de 66% das mulheres na Índia estavam casadas antes de completar 18 anos, de acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde da Família, realizada pelo governo.>
No Rajastão, onde Nisha vive, as taxas de casamento infantil superam a média nacional, e as meninas raramente se sentem capazes de recusar propostas ou desafiar a vontade dos pais.>
No entanto, Nisha desenvolveu confiança para se afirmar depois de descobrir o futebol — esporte ao qual atribui a mudança em sua vida.>
Ela foi apresentada ao jogo em 2022 por Munna, que havia conhecido o esporte um ano antes por meio do Football for Freedom (Futebol pela Liberdade, em tradução livre), parte de uma organização sem fins lucrativos com atuação em todo o estado, destinada a promover melhorias na vida de meninas por meio do esporte.>
Munna foi a principal defensora do projeto em sua aldeia, liderando a luta por autorização para viajar a torneios e vestir shorts em campo, em vez de túnicas longas e calças largas — um passo significativo em uma comunidade onde mulheres casadas cobrem o rosto na presença de homens em público.>
"Nos primeiros dois ou três dias, as mulheres da aldeia apontavam para nós e diziam: 'Olhem aquelas meninas mostrando as pernas'", afirma Munna.>
"Nós as ignoramos, decidimos que não nos importávamos e continuamos usando shorts.">
Nisha rapidamente se destacou no esporte e passou a integrar a seleção do estado de Rajastão no Campeonato Nacional de Futebol, em 2024.>
Ela também cortou o cabelo curto, em um gesto de desafio em uma aldeia onde se espera que meninas usem os cabelos longos.>
Quando surgiu a proposta de casamento da família que a observava no treino de futebol, Nisha resistiu.>
Ela deixou claro que era jovem demais para se casar e que queria continuar perseguindo seus sonhos no futebol.>
Cerca de um mês depois, aquela família retirou a proposta.>
Em 2025, Nisha e Munna também rejeitaram uma proposta de casamento conjunto feita por outra família, que envolvia as duas e o irmão mais novo.>
As irmãs se opõem firmemente ao casamento infantil e querem se concentrar em carreiras no esporte.>
Quando o pai delas perguntou a Nisha se havia um namorado esperando por ela no treino de futebol, ela diz ter respondido: "Não há namorado. Eu vou jogar futebol — esse é o meu amor.">
Meninas que se casam na infância enfrentam maior risco de coerção sexual, gravidez precoce, desnutrição e problemas de saúde, segundo diversos estudos.>
Também tendem a abandonar a escola mais cedo, o que reduz suas chances de melhorar suas condições de vida.>
Padma Joshi, do Football for Freedom, iniciativa ligada à organização de direitos das mulheres Mahila Jan Adhikar Samiti, afirma que quer conscientizar as famílias sobre esses riscos.>
Ela diz que o Football for Freedom treinou cerca de 800 meninas em 13 aldeias de Rajastão desde sua criação, em 2016.>
"Quando começamos a conversar com os pais, nunca dissemos que estávamos introduzindo o futebol para impedir o casamento infantil", afirma Joshi.>
Mas "quando trabalhamos com as meninas e elas aprendem sobre os seus direitos e os efeitos nocivos do casamento infantil", elas passam a conseguir se posicionar, acrescenta.>
Joshi também ressalta aos pais que se destacar no futebol pode, no futuro, ajudar as meninas a conseguir um emprego, já que estados indianos reservam parte de cargos no setor público para atletas.>
A pobreza, além da tradição, está entre as razões pelas quais as famílias na Índia continuam a casar suas filhas, frequentemente vistas como um peso financeiro.>
Às vezes, os casamentos são com rapazes de idade semelhante; em outros casos, com homens adultos.>
Em geral, as meninas passam a morar com o marido logo após o casamento, deixando de ser responsabilidade financeira de suas próprias famílias.>
Nisha e Munna têm uma irmã mais velha que se casou em 2020, aos 16 anos, e a mãe delas, Laali, também foi noiva quando criança.>
Ao defender suas decisões, Laali afirma: "Eu me preocupo com as minhas filhas. Os moradores dizem que, se as meninas saem de casa, ficam expostas a más influências e podem fugir com rapazes, por isso temos de casá-las cedo.">
Questionada se sabia que casar a filha mais velha aos 16 anos era ilegal, ela confirma com a cabeça e explica que ninguém é pego: "Fazemos tudo em silêncio, não imprimimos convite de casamento, não decoramos a casa nem montamos tenda.">
A lei, porém, é clara — facilitar o casamento infantil é crime.>
Adultos que realizam as cerimônias, assim como pais ou responsáveis que autorizam o casamento infantil ou negligenciam sua interrupção, podem ser condenados a até dois anos de prisão e multa de 100 mil rúpias (cerca de R$ 5.760).>
No entanto, Anjali Sharma, presidente do comitê de bem-estar infantil da cidade de Ajmer, no Rajastão, afirma que, na prática, é difícil obter condenações porque testemunhas raramente se dispõem a fornecer provas às autoridades.>
"Se as famílias descobrem que sabemos [sobre um casamento infantil], eles mudam a data para antes ou depois da que esperávamos", diz Sharma, ao explicar que aldeias inteiras colaboram para ocultar os casamentos.>
Se a noiva ou o noivo denunciarem à polícia, um casamento envolvendo menor de idade pode ser anulado, mas é difícil que façam a denúncia contra os próprios pais, sabendo que isso pode resultar em multa ou prisão.>
Se o casamento infantil não for denunciado, ele pode ser posteriormente registrado quando o homem e a mulher atingem a idade legal, e ninguém será processado.>
O número de casos de casamento infantil notificados em toda a Índia vem aumentando gradualmente à medida que a conscientização e a fiscalização melhoram.>
Foram registrados 1.050 casos em 2021, ante 395 em 2017, segundo o Ministério da Mulher e do Desenvolvimento Infantil.>
Ainda assim, esse total representa uma fração mínima das cerca de 1,5 milhão de meninas com menos de 18 anos que se casam a cada ano na Índia, de acordo com a Unicef.>
Nisha, hoje com 15 anos e ainda na escola, espera um dia jogar pela seleção nacional da Índia.>
Se ela não conseguir (entrar para a seleção), obter um emprego no governo lhe permitirá alcançar independência financeira e liberdade.>
Para se qualificar a uma das vagas reservadas a atletas, ela precisa continuar competindo em nível estadual ou superior até concluir a universidade.>
Já Munna, agora com 19 anos, conseguiu escapar do casamento infantil, mas a possibilidade de um casamento arranjado persiste.>
Os sogros de sua irmã mais velha continuam pressionando por um casamento arranjado entre o filho deles e Munna.>
Ela resiste à proposta.>
Munna não alcançou o mesmo nível no futebol que Nisha, mas ajuda a treinar meninas no projeto Football for Freedom e cursa uma graduação na universidade.>
Ela espera se tornar professora de educação física em uma escola, função que lhe garantiria independência financeira e liberdade para tomar as próprias decisões.>
Enquanto isso, orienta as meninas que treina a não aceitarem o casamento infantil.>
"Consiga eu impedir o casamento delas ou não, quero ajudá-las a se tornar alguém na vida, a realizar seus sonhos.">
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