Publicado em 19 de outubro de 2025 às 20:32
Por cerca de cinco décadas, um romance de ficção científica fez seus leitores desejarem ter um peixe na sua orelha.>
Os personagens do Guia do Mochileiro das Galáxias (Ed. Arqueiro, 2021), de Douglas Adams (1952-2001), compreendem qualquer idioma graças ao pequeno (e, infelizmente, fictício) peixe Babel.>
"Se você introduzir no ouvido um peixe Babel, poderá compreender imediatamente tudo o que for dito a você, em qualquer língua", escreveu Adams.>
Agora, esse sonho da ficção científica está chegando mais perto da realidade com os novos AirPods Pro 3 da Apple, que prometem tradução ao vivo.>
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A empresa afirma que os usuários podem escutar conversas em diversos idiomas estrangeiros e ouvir as palavras traduzidas no ouvido, com a transcrição simultânea na tela do celular. Tudo sem a necessidade de transplante de um peixe alienígena.>
À primeira vista, esta função tem o potencial de deflagrar uma nova onda de viagens mais tranquilas, alterando a forma como visitamos restaurantes em outros países, fazemos amigos no exterior ou pedimos orientações em uma cidade desconhecida.>
Mas será que esta fluência instantânea traz custos escondidos?>
A reação dos especialistas foi de satisfação.>
"Isso é profundo", definiu uma crítica no jornal The New York Times, referindo-se à inovação da Apple como "um dos mais fortes exemplos de como podemos usar a inteligência artificial de forma prática e integrada para melhorar a vida das pessoas".>
Mas a tecnologia, atualmente, está longe de ser perfeita. Uma análise de tecnologia do portal CNET relatou que o software, ocasionalmente, inseriu palavrões dispersos na tradução.>
Mas estes deslizes ocorrem com frequência nos primeiros modelos das novas tecnologias. E as falhas podem ser rapidamente corrigidas quando o desenvolvedor publica atualizações, sem falar em todas as outras marcas que, agora, irão trabalhar furiosamente para lançar ferramentas similares.>
Ainda assim, mesmo neste estágio inicial, a tradução ao vivo no seu bolso poderá incentivar milhões de pessoas a viajar mais e com mais frequência.>
Uma pesquisa do fornecedor de cursos de idiomas Preply, realizada em 2025, concluiu que um terço dos norte-americanos pesquisados seleciona intencionalmente destinos onde eles não terão problemas com um idioma estrangeiro.>
Dentre os que se aventuraram a visitar países que não falam inglês, cerca de 25% afirmam terem se comunicado simplesmente falando "mais alto e lentamente", o que raramente gera uma recepção calorosa.>
A pesquisa também observou que 17% dos participantes, temendo o labirinto de um menu estrangeiro, se restringem às redes americanas de fast food para as refeições no exterior.>
Mas a tradução instantânea poderá fazer mais do que ajudar os indivíduos a mergulhar em novas culturas e iniciar conversas. >
Ela poderá renovar setores inteiros da economia, levando as pessoas além das cadeias familiares e das armadilhas para os turistas, canalizando renda para pequenos fornecedores locais, cujo domínio do inglês é imperfeito.>
A executiva de serviços financeiros Gracie Teh conta a dificuldade que enfrentou para encaminhar sua bagagem para um novo hotel, quando visitou uma minúscula cidade no Japão.>
Apesar de não falar inglês, o concierge "se recusou a usar o Google Tradutor ou ler o que estávamos digitando nele", lamenta ela. >
Teh relembra as horas que passou sem saber ao certo se teria suas roupas disponíveis nos próximos dias.>
"Conseguir entendê-lo em tempo real pela tradução do AirPod teria sido uma boia de salvação", segundo ela.>
A tradução em tempo real também poderá ser de enorme ajuda para os profissionais do setor de transporte.>
O Aeroporto John F. Kennedy em Nova York, nos Estados Unidos, emprega dezenas de milhares de profissionais de atendimento a clientes. Eles atendem viajantes que falam dezenas de idiomas.>
Uma única interação que saia dos trilhos devido às barreiras de idioma pode criar um gargalo que irá paralisar o fluxo de passageiros em outras partes. Este fenômeno é tão comum que tem uma expressão para defini-lo: propagação de atrasos.>
Estudos demonstraram que uma retenção de uma hora em um único voo de uma companhia aérea de manhã pode rapidamente resultar em um atraso de sete horas em toda a sua frota, devido ao efeito dominó do atraso das suas conexões.>
Outra pesquisa indica que o orçamento dos aeroportos menores, mesmo reconhecendo a necessidade de funcionários multilíngues em terra, simplesmente não é suficiente para oferecer o ensino formal de idiomas.>
Isso pode fazer com que os funcionários pratiquem seu inglês ouvindo músicas no idioma ou assistindo a filmes com legendas.>
Durante o voo, os riscos são ainda maiores. Diversos acidentes fatais já foram relacionados a mal-entendidos entre o controle de tráfego aéreo e os pilotos.>
O que pode ser difícil de entender no dia a dia, como um forte sotaque ou uma gíria estranha, passa a ser mortal quando o assunto são vetores de voo e a pista de aterrissagem correta.>
Às vezes, as confusões chegam a ocorrer até mesmo entre duas pessoas que falam o mesmo idioma. >
Um estudo indica que, "em dois relatos, um sotaque do sul dos Estados Unidos e outro de Nova York aumentaram a dificuldade de compreensão das comunicações da aviação".>
As traduções assistidas por inteligência artificial poderão ajudar neste cenário, mas o treinamento humano provavelmente ainda será necessário para fornecer às ferramentas de IA o diálogo mais claro para trabalhar.>
Da mesma forma que as calculadoras reformularam nosso relacionamento com a matemática, a tradução por IA poderá reduzir nossa motivação para falar outras línguas. >
Por isso, as empresas que oferecem cursos de idiomas podem enfrentar dificuldades no futuro.>
Ying Okuse é a fundadora da empresa Lingoinn, que organiza estadias em residências que falam mandarim na China, Taiwan e Singapura.>
Ela conta que os tutores de IA já são populares entre seus clientes. Mas ela considera que esta é uma tendência positiva que, na verdade, poderá ampliar a demanda.>
Para Okuse, "existe uma grande diferença entre o que a IA pode oferecer e a experiência imersiva no mundo real de uma estadia no exterior". Afinal, os aplicativos ainda não conseguem decodificar indicações não verbais.>
Seu italiano médio pode dizer muito com um movimento desdenhoso do queixo, equivalente a dizer non me ne frega, "não me importo", levantando as pálpebras ("tenha cuidado") ou beijando a ponta dos dedos.>
Já os britânicos e australianos costumam usar seus mais fortes insultos como uma espécie de "cola social", para gerar conexão com seus amigos próximos. Tudo isso exige experiência de campo para apreciar.>
"Este tipo de aprendizado vai além das telas", explica Okuse. "O idioma, em última análise, é questão de conexão, de entender as pessoas, a cultura e as emoções.">
Bernardette Holmes é uma ativista que promove o multilinguismo. Ela defende seus benefícios cognitivos.>
Aprender um idioma, para ela, resulta em "funcionamento executivo mais forte, maior controle da atenção, maior flexibilidade cognitiva e memória funcional".>
Ela destaca que a tradução em tempo real pela tecnologia tem os seus usos, "mas não pode substituir a alegria de se fazer entender em um novo idioma".>
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Travel.>
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