Publicado em 17 de outubro de 2025 às 15:32
O Ministério do Comércio da China publicou na semana passada o documento "Anúncio nº 62 de 2025". Este não era, porém, um simples comunicado burocrático. O texto conseguiu abalar a frágil trégua tarifária da China com os Estados Unidos.>
Ao detalhar amplas restrições às exportações de terras raras — grupo de 17 elementos químicos, como neodímio, lantânio, ítrio e cério, usados na fabricação de produtos tecnológicos e equipamentos de alta precisão —, o documento em certa medida reforça o controle de Pequim sobre o fornecimento global desses minerais essenciais e lembra o presidente americano, Donald Trump, do quanto a China ainda detém poder de influência na guerra comercial.>
A China detém quase o monopólio da extração das terras raras e seu refino, que é o processo de sua separação de outros minerais. As terras raras são cruciais para a produção de diversas tecnologias, incluindo smartphones, painéis solares, carros elétricos e equipamentos militares. Um caça F-35, por exemplo, requer mais de 400 quilos de terras raras em seus revestimentos furtivos, motores, radares e outros componentes.>
Pelas novas regras, empresas estrangeiras precisarão de autorização do governo chinês para exportar produtos que contenham até pequenas quantidades de terras raras e deverão declarar o uso pretendido.>
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Em resposta, o presidente americano ameaçou impor uma tarifa adicional de 100% nos produtos chineses e colocar controles de exportação em softwares estratégicos.>
"Isso é a China contra o mundo. Eles apontaram uma bazuca para as cadeias de suprimentos e a base industrial de todo o mundo livre, e nós não vamos permitir isso", disse o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent.>
Na quinta-feira (16/10), a China disse que os EUA "provocam deliberadamente desentendimentos e pânico desnecessário" sobre os controles chineses acerca de terras raras.>
"Se os pedidos de licença de exportação estiverem em conformidade e forem destinados a uso civil, serão aprovados", afirmou um porta-voz do Ministério do Comércio da China.>
Nesta semana, as duas maiores economias do mundo (EUA e China) também impuseram novas taxas portuárias sobre navios uma da outra.>
A intensificação da guerra comercial encerra meses de relativa calmaria após a trégua acertada em maio por autoridades americanas e chinesas.>
Ainda neste mês, Trump e o presidente da China, Xi Jinping, devem se reunir para discutir esses assuntos.>
Especialistas ouvidos pela BBC afirmam que as restrições às terras raras darão vantagem à China na negociação.>
As novas medidas da China devem "abalar o sistema" ao atingir vulnerabilidades das cadeias de suprimento americanas, disse o professor de negócios internacionais, Naoise McDonagh, da Universidade Edith Cowan (Austrália). "O momento frustrou o cronograma de negociações que os americanos esperavam", afirmou.>
As exportações chinesas desses materiais respondem por cerca de 70% do fornecimento mundial dos metais usados em imãs de motores de veículos elétricos, segundo Natasha Jha Bhaskar, da consultoria Newland Global Group.>
A China tem trabalhado intensamente para conquistar sua posição dominante no processamento global de terras raras globais, afirmou Marina Zhang, da Universidade de Tecnologia de Sydney (Austrália).>
O país formou uma base de especialistas na área e tem uma rede de pesquisa e desenvolvimento anos à frente dos concorrentes, acrescentou.>
Embora os EUA e outros países estejam investindo pesado para reduzir a dependência da China no fornecimento de terras raras, eles ainda estão longe de atingir esse objetivo.>
Com grandes reservas próprias, a Austrália é vista como uma potencial rival da China, mas sua infraestrutura de produção ainda é pouco desenvolvida, o que torna o processamento caro, explicou Zhang.>
"Mesmo que os EUA e todos os seus aliados transformem o processamento de terras raras em um projeto nacional, eu diria que levará pelo menos cinco anos para alcançarem a China.">
Nessa corrida global, o Brasil também tem um papel importante: o relatório U.S. Mineral Commodity Summaries estima que o país detenha até 23% das reservas conhecidas de terras raras no mundo.>
O professor Sidney Ribeiro, do Instituto de Química da Unesp (Universidade Estadual Paulista), explicou à BBC News Brasil que o país acumula décadas de pesquisas acadêmicas sobre esses minérios e já faz a mineração de terras raras em Estados como Minas Gerais e Goiás.>
Ainda assim, responde por menos de 1% da produção, porque muitas das reservas inexploradas estão em áreas como a Amazônia. Então, é enorme o desafio de aproveitar o potencial mineral brasileiro e ao mesmo tempo manter de pé uma floresta já muito degradada.>
A maioria das terras raras é abundante na natureza. Mas elas são chamadas de "raras" porque é muito difícil encontrá-las em forma pura – e sua extração é muito arriscada. As terras raras frequentemente ocorrem junto a elementos radioativos, como tório e urânio, e separá-los exige o uso de muitos produtos químicos tóxicos, tornando o processo de extração às vezes difícil e caro.>
Vale lembrar que as terras raras também devem fazer parte das negociações entre Brasil e EUA sobre tarifas comerciais.>
As novas restrições chinesas ampliam medidas anunciadas pela China em abril, que haviam provocado uma escassez global antes de uma série de acordos com a Europa e os EUA aliviar o problema.>
Dados oficiais mais recentes mostram que as exportações chinesas desses minerais caíram mais de 30% em setembro em relação ao mesmo mês do ano anterior.>
Mas analistas dizem que a queda nas exportações dificilmente afetará a economia chinesa.>
As terras raras representam uma parcela mínima dos US$ 18,7 trilhões (cerca de R$ 106 trilhões) do Produto Interno Bruto (PIB, a soma de todas as riquezas produzidas) anual do país, disse a professora Sophia Kalantzakos, da Universidade de Nova York (EUA). A título de comparação, o PIB brasileiro atingiu R$ 11,7 bilhões em 2024.>
Algumas estimativas calculam o valor das exportações em menos de 0,1% do PIB chinês.>
Embora o peso econômico das terras raras para a China seja pequeno, seu valor estratégico é "enorme", afirmou Kalantzakos, já que o setor dá à China mais poder de pressão nas negociações com os EUA.>
Apesar de acusar a China de "traição", Bessent, secretário do Tesouro dos EUA, afirmou que ainda há espaço para diálogo.>
"Acredito que a China esteja aberta a discussões e sou otimista quanto à possibilidade de reduzir as tensões", disse Bessent.>
Durante uma reunião na quinta-feira (16/10) com o presidente do grupo americano de private equity Blackstone, Stephen Schwarzman, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, também destacou a necessidade de negociações.>
"Os dois lados devem manter comunicação efetiva, resolver adequadamente as divergências e promover um desenvolvimento estável, saudável e sustentável das relações entre China e EUA", disse Yi, segundo o site do ministério.>
As recentes medidas da China são uma forma de "organizar suas peças antes das negociações comerciais" com os EUA, afirmou Kalantzakos, da Universidade de Nova York.>
Ao restringir as exportações de terras raras, a China encontrou "seu melhor instrumento imediato" para pressionar Washington em busca de um acordo mais favorável, disse Bhaskar, da consultoria Newland Global Group.>
Jiao Yang, da Universidade de Administração de Singapura, afirma que, embora a China detenha as cartas no curto prazo, os EUA ainda têm algumas opções estratégicas à disposição.>
Os EUA poderiam, por exemplo, oferecer a redução de tarifas, algo que provavelmente interessa à China, já que a guerra comercial tem afetado fortemente seus fabricantes, disse Yang.>
A economia chinesa depende da receita obtida com os produtos que fabrica e exporta. Segundo dados oficiais recentes, as exportações do país para os EUA caíram 27% em relação ao ano anterior.>
Os EUA também podem ameaçar impor novas restrições comerciais para dificultar o avanço do setor tecnológico chinês, afirmou McDonagh, da Universidade Edith Cowan.>
Por exemplo, a Casa Branca já mirou a dependência chinesa de semicondutores avançados ao bloquear a compra dos chips mais sofisticados da Nvidia.>
Mas especialistas dizem que é provável que tenha apenas efeitos limitados.>
As medidas que miram a indústria tecnológica da China podem desacelerar o país asiático, mas não "paralisá-la completamente", disse McDonagh.>
A China já mostrou, com sua estratégia econômica recente, estar disposta a enfrentar dificuldades para alcançar seus objetivos a longo prazo, acrescentou.>
"A China pode continuar, mesmo se pagar muito mais pelos controles de exportação dos EUA. Mas se a China interromper o fornecimento de terras raras, pode de fato interromper a indústria de todos os outros. Essa é a grande diferença.">
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