Publicado em 8 de fevereiro de 2026 às 13:09
Théodore se lembra do conteúdo "desleixado" de inteligência artificial (AI slop, na expressão em inglês) que o tirou do sério.>
A imagem mostrava dois meninos sul-asiáticos magérrimos e pobres. Por alguma razão, apesar de seus traços infantis, elas tinham barbas volumosas. Um deles não tinha mãos e tinha apenas um pé. O outro segurava um cartaz dizendo que era seu aniversário e pedindo curtidas (likes).>
Inexplicavelmente, os dois estavam sentados no meio de uma rua movimentada, sob chuva intensa, com um bolo de aniversário. A imagem reunia diversos indícios de que havia sido criada usando inteligência artificial (IA). Ainda assim, no Facebook, viralizou, com quase 1 milhão de curtidas e emojis de coração.>
Algo 'estalou' em Théodore.>
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"Aquilo me deixou perplexo. As imagens absurdas feitas por IA estavam por toda parte no Facebook e recebiam [um] monte de engajamento, sem qualquer escrutínio; era insano para mim", disse o estudante de 20 anos, de Paris (França).>
Théodore criou então uma conta na rede social X, antes conhecida como Twitter, chamada "Insane AI Slop" ("Desleixo Insano de IA", em tradução livre), e passou a expor e a ironizar publicações que encontrava e que enganava os usuários. Outros perceberam, e sua caixa de entrada logo ficou lotada de mensagens com contribuições repletas de exemplos do chamado AI slop.>
Com o tempo, temas recorrentes ficaram evidentes: religião, militares ou crianças pobres fazendo ações comoventes.>
"Crianças do terceiro mundo fazendo coisas impressionantes sempre fazem sucesso, assim como um menino pobre na África criando uma estátua insana a partir de lixo. Acho que as pessoas consideram isso edificante, então os criadores pensam: 'Ótimo, vamos inventar mais coisas desse tipo'", disse Théodore.>
A conta de Théodore logo ultrapassou 133 mil seguidores.>
A enxurrada de AI slop, que ele define como vídeos e imagens falsos, pouco convincentes e produzidos rapidamente, parece impossível de ser contida atualmente. Empresas de tecnologia abraçaram a inteligência artificial. Algumas afirmam estar começando a coibir certas formas desse tipo de conteúdo, embora muitos feeds de redes sociais ainda parecem dominados por esse tipo de conteúdo.>
Em apenas alguns anos, a experiência de usar as redes sociais mudou de forma profunda. Como isso aconteceu e que efeito terá sobre a sociedade?>
E, talvez a questão mais urgente de todas: o quanto os bilhões de usuários de redes sociais realmente se importam?>
Em outubro, durante mais uma animada teleconferência de resultados, o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, declarou com entusiasmo que as redes sociais haviam entrado em uma terceira fase, agora centrada na inteligência artificial.>
"A primeira foi quando todo o conteúdo vinha de amigos, familiares e contas que você seguia diretamente", disse. "A segunda foi quando adicionamos o conteúdo dos criadores. Agora, à medida que a IA torna mais fácil criar e remixar o conteúdo, vamos acrescentar ainda mais um grande conjunto de conteúdos", disse ele aos acionistas.>
A Meta, que controla as redes sociais Facebook, Instagram e Threads, não apenas permite que usuários publiquem conteúdo gerado por IA, como também lançou produtos para possibilitar a criação de ainda mais desse material. Geradores de imagem e vídeo e filtros cada vez mais poderosos passaram a ser oferecidos de forma ampla nas plataformas.>
Quando a BBC procurou a empresa para comentar, a Meta direcionou para a teleconferência de resultados de janeiro. Nela, o bilionário afirmou que a empresa estava apostando ainda mais em IA e não mencionou qualquer iniciativa para coibir o AI slop.>
"Em breve, veremos uma explosão de novos formatos de mídia, mais imersivos e interativos, e possíveis graças aos avanços da IA", disse Zuckerberg.>
O CEO do YouTube, Neal Mohan, escreveu em seu blog de perspectivas para 2026 que, apenas em dezembro, mais de 1 milhão de canais do YouTube usaram as ferramentas de IA da plataforma para criar conteúdo.>
"Assim como o sintetizador, o Photoshop e o CGI revolucionaram o som e o visual, a IA será uma dádiva para os criadores que estiverem prontos para adotá-la", escreveu.>
Mohan também reconheceu que há preocupações crescentes com "conteúdo de baixa qualidade, também conhecido como AI slop". Segundo ele, sua equipe trabalha em formas de aprimorar os sistemas para identificar e remover "conteúdo repetitivo e de baixa qualidade".>
Mas ele também descartou fazer qualquer julgamento sobre o que deveria ou não ter espaço para prosperar. Ele ressaltou que conteúdos antes de nicho, como ASMR (sons relaxantes projetados para fazer o "couro cabeludo formigar") e jogos de videogame ao vivo, agora são populares.>
De acordo com pesquisa da empresa de inteligência artificial Kapwing, 20% do conteúdo mostrado a uma conta recém-criada no YouTube é agora "vídeo de IA de baixa qualidade".>
O vídeo de formato curto, em particular, foi um ponto crítico: a Kapwing descobriu que estava presente em 104 dos primeiros 500 clipes de YouTube Shorts exibidos para uma conta nova criada pelos pesquisadores.>
A economia dos criadores parece ser um grande impulsionador, já que pessoas e canais podem ganhar dinheiro com engajamento e visualizações. A julgar pelas visualizações de alguns canais e vídeos de IA, as pessoas de fato se interessam pelo conteúdo, ou, pelo menos, os algoritmos que ditam o que vemos se interessam.>
Segundo a Kapwing, o canal de AI slop com mais visualizações é o indiano Bandar Apna Dost, que acumula 2,07 bilhões de visualizações, rendendo aos criadores um ganho anual estimado de 4 milhões de dólares (cerca de R$ 21,05 milhões).>
Mas já existe uma espécie de reação contrária em curso.>
Sob muitos vídeos virais de IA, é agora comum ver uma enxurrada de comentários furiosos condenando o conteúdo.>
Théodore, o estudante de Paris mencionado no início deste texto, ajudou a impulsionar essa onda de críticas.>
Usando sua influência recém-adquirida no X, ele reclamou a moderadores do YouTube sobre a enxurrada de desenhos animados estranhos gerados por IA que acumulavam um grande número de visualizações. Na avaliação dele, eram perturbadores e prejudiciais e, em alguns casos, pareciam ser direcionados a crianças.>
Os vídeos tinham títulos como Mum cat saves kitten from deadly belly parasites (Gata mãe salva filhote de parasitas intestinais mortais, em tradução livre) e exibiam cenas explícitas.>
Outro clipe curto (conhecido como Short) mostrava uma mulher de camisola que ingeria um parasita e depois se transformava em um monstro gigante e furioso, que acabava sendo curada por Jesus.>
O YouTube removeu os canais, informando à reportagem que tomou a medida porque eles violavam suas diretrizes da comunidade. A empresa afirmou estar "focada em conectar nossos usuários a conteúdo de alta qualidade, independentemente de como ele foi feito", e disse trabalhar para "reduzir a disseminação de conteúdo de IA de baixa qualidade".>
Mas essa experiência, somada a muitas outras semelhantes, acabou desgastando Théodore.>
Até sites de estilo de vida aparentemente acolhedores, como o Pinterest, um fórum de receitas e ideias de decoração, foram afetados.>
Os usuários ficaram tão frustrados com a enxurrada de AI slop que a empresa introduziu um novo sistema de exclusão desse tipo de conteúdo. A medida, porém, depende de que os próprios usuários admitam que as imagens de casas perfeitas que publicam foram feitas por IA.>
No meu feed, e estou ciente de que o feed de cada pessoa é diferente, inclusive os comentários, a reação adversa ao AI slop se tornou incessante.>
Seja no TikTok, no Threads, no Instagram ou no X, parece haver um movimento de pressão popular contra esse tipo de conteúdo.>
Em alguns casos, o número de curtidas em comentários críticos ao AI slop supera em muito o do post original. Foi o que ocorreu com um vídeo recente que mostrava um praticante de snowboard resgatando um lobo de um urso. O vídeo teve 932 curtidas, contra 2.400 curtidas em um comentário que dizia: "Levante a mão quem está cansado dessa m**da de IA".>
Mas, claro, tudo isso alimenta o monstro.>
Para as plataformas de redes sociais, todo engajamento é bom engajamento, manter as pessoas rolando a tela é o essencial.>
Então, afinal, importa se o vídeo incrível, comovente ou chocante que aparece no seu feed é real ou não?>
Emily Thorson, professora associada da Syracuse University (EUA), especializada em política, desinformação e percepções equivocadas, afirma que a questão depende do que as pessoas fazem na plataforma de rede social.>
"Se uma pessoa está em uma plataforma de vídeos curtos apenas para entretenimento, então o critério para avaliar se algo vale a pena é simplesmente 'é divertido?'", disse. "Mas, se alguém usa a plataforma para aprender sobre um tema ou para se conectar com membros de uma comunidade, pode perceber o conteúdo gerado por IA como mais problemático.">
A forma como o AI slop é apresentado também influencia a reação do público.>
Quando algo é claramente feito como piada, tende a ser recebido dessa forma. Mas, quando o AI slop é criado especificamente para enganar, pode provocar indignação das pessoas.>
Vi um vídeo recentemente gerado por IA que é emblemático: um registro extremamente realista, no estilo de documentário de história natural, de uma impressionante caçada de leopardo. Nos comentários, alguns espectadores foram enganados; outros ficaram em dúvida.>
"De que documentário isso é?", perguntou um comentarista. "Por favor, é a única maneira de [provar] que não é IA.">
Alessandro Galeazzi, da Universidade de Padova (Itália), pesquisa o comportamento nas redes sociais e as chamadas câmaras de eco (grupos de usuários em bolhas informacionais).>
Segundo Galeazzi, verificar se um vídeo foi ou não gerado por IA exige esforço mental e, no longo prazo, teme que as pessoas simplesmente deixem de checar.>
"Minha impressão é que a enxurrada de conteúdos sem sentido e de baixa qualidade gerados com IA pode reduzir ainda mais a capacidade de atenção das pessoas", afirmou.>
Galeazzi distingue o conteúdo criado com a intenção de enganar daquele AI slop mais cômico e obviamente falso, como peixes usando sapatos ou gorilas levantando peso na academia.>
Mas mesmo esse material mais fantasioso pode ter efeitos nocivos. Ele aponta o risco do brain rot (apodrecimento cerebral, em tradução livre), conceito que associa a exposição constante às redes sociais ao prejuízo das capacidades intelectuais.>
"Eu diria que o AI slop intensifica o efeito do brain rot, fazendo com que as pessoas consumam rapidamente conteúdos que sabem não apenas ser improváveis de reais, mas provavelmente sem significado ou interesse", disse.>
Além do AI slop, parte do conteúdo produzido por IA pode ter implicações bem piores.>
Empresas controladas por Elon Musk, incluindo a xAI e a rede social X, foram recentemente obrigadas a alterar suas regras depois que o chatbot Grok estava sendo usado para despir digitalmente mulheres e crianças na rede X.>
Após o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, vídeos falsos se espalharam mostrando pessoas chorando nas ruas e agradecendo aos EUA. Conteúdos assim podem moldar a opinião pública e dar a impressão de que a ação dos EUA foi mais popular do que de fato pode ter sido.>
Analistas dizem que isso é especialmente preocupante, já que tantas pessoas usam redes sociais como sua única fonte de notícias.>
Manny Ahmed, CEO da OpenOrigins, uma empresa que busca distinguir entre imagens geradas por IA e imagens reais, afirma que é necessário um novo método para que quem posta conteúdo autêntico possa provar que seus vídeos e fotos são genuínos.>
"Já chegamos ao ponto em que não é possível afirmar com confiança o que é real apenas pela inspeção", afirmou. "Em vez de tentar detectar o que é falso, precisamos de uma infraestrutura que permita que conteúdos autênticos provem publicamente sua origem.">
Pode parecer que essa seja uma tarefa que as empresas de redes sociais poderiam assumir. Mas muitas delas, incluindo a Meta e a X, reduziram suas equipes de moderação e adotaram uma abordagem mais coletiva. Hoje, tendem a confiar nos próprios usuários para rotular conteúdos como falsos ou enganosos.>
Se as grandes empresas de tecnologia parecem, em linhas gerais, satisfeitas em deixar o AI slop circular livremente, seria possível que uma nova rede social surgisse prometendo uma alternativa livre desse tipo de conteúdo e, com o tempo, desafiasse as plataformas dominantes?>
Isso parece improvável, porque a detecção de conteúdo gerado por IA está se tornando cada vez mais difícil. As máquinas já não conseguem identificar com precisão se um vídeo ou uma imagem são definitivamente falsos, e teriam ainda mais dificuldade para fazer o julgamento subjetivo sobre se determinado conteúdo pode ou não ser classificado como slop.>
Ainda assim, se uma nova rede social surgir e as pessoas "votarem com os pés", ou, mais precisamente, com os olhos e os polegares, isso pode provocar alguma mudança. Me lembro do surgimento da rede social concorrente BeReal, um aplicativo francês que ganhou popularidade durante a pandemia ao incentivar os usuários a mostrarem versões autênticas de si mesmos por meio de selfies sem filtros, feitas em horários aleatórios.>
O BeReal ainda não alcançou o mesmo patamar de gigantes como Facebook e Snapchat, e provavelmente nunca alcançará. Mas conseguiu chamar a atenção das outras plataformas, que, em alguns casos, copiaram a ideia.>
Talvez isso volte a acontecer se surgir um concorrente com uma proposta explícita contra o AI slop.>
Quanto a Théodore, ele sente que a batalha está perdida e que o AI slop veio para ficar.>
Apesar de ainda receber contribuições em sua caixa de mensagens, enviadas por seus atuais 133 mil seguidores, ele já não publica com a mesma frequência e, em grande medida, se resignou ao novo normal da vida online.>
"Ao contrário de muitos dos meus seguidores, não sou dogmaticamente contra a IA", disse. "Sou contra a poluição online de AI slop, feita para entretenimento rápido e para gerar visualizações.">
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