Publicado em 24 de novembro de 2025 às 16:04
Qual era o seu sonho de infância?>
Para algumas pessoas, o sonho era se tornar astronauta. Mas existem poucos sonhos profissionais mais difíceis de realizar do que este.>
"Eu me lembro da primeira vez em que realmente pensei em me tornar astronauta e a pergunta que me fiz foi 'como faço?'", conta a estudante americana Katie Mulry, de 24 anos. Ela cursa Mestrado em engenharia aeroespacial no Instituto Superior de Aeronáutica e Espaço (Isae-Supaero) em Toulouse, na França.>
"Comecei a procurar saber a qual universidade deveria ir e o que poderia estudar", ela conta, "e a verdade é que não existe um caminho muito claro a respeito.">
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Mulry é chefe de projetos da Asclepios, a primeira e a maior iniciativa espacial internacional liderada por estudantes, que promove anualmente missões espaciais simuladas.>
Ela participou da segunda missão da Asclepios, em 2021-2022, como "aprendiz de astronauta", e realizou uma missão simulada nas profundezas de uma montanha na Suíça.>
Desde 2024, Mulry ajudou a organizar a Asclepios 5, a quinta missão do projeto.>
Sua "tripulação" de nove estudantes internacionais passou mais de duas semanas isolada no local antes conhecido como a fortaleza militar ultrassecreta de Gotthard em Ticino, na Suíça, entre o final de julho e o mês de agosto deste ano.>
Na mitologia grega, Apolo é o deus do Sol, do arco e flecha, do conhecimento, da profecia, da poesia e da música.>
A lenda diz que Apolo cruzava os céus com sua carruagem dourada, puxada por cavalos.>
Esta visão requintada inspirou o diretor de desenvolvimento de voos espaciais da agência espacial americana Nasa, Abe Silverstein (1908-2001), a batizar com o nome Apollo o programa de voos espaciais tripulados destinado a levar seres humanos à Lua pela primeira vez, na década de 1960.>
"Asclépio [ou Esculápio] era filho de Apolo", explica Mulry. "É como seguir os passos do programa Apollo e retornar à Lua.">
Quando cheguei pela primeira vez à base da montanha de Sasso San Gottardo para conhecer a tripulação e o local onde estava sendo recriada uma plataforma de lançamento e sua base lunar, não consegui encontrá-los.>
A densa névoa que cobria o local e o fato de que ele está escondido sob os Alpes deixaram claro por que o governo suíço, mesmo com a sua política de neutralidade, construiu uma fortaleza naquele local durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).>
Escavada na montanha, fica uma rede de 3,5 km de túneis que se mantêm à temperatura de 6 °C por todo o ano, a 2 mil metros de altitude.>
A fortaleza ainda conta com dois canhões. Quando estavam em atividade, eles conseguiam atingir alvos localizados a 26 km de distância.>
A caminhada pelo túnel a partir da entrada incrustada na montanha rochosa até o local onde me encontro com Mulry parece interminável, como um sonho desorientador.>
O cenário frio, estreito e escuro foi escolhido intencionalmente para representar uma base localizada no interior de uma das "cavernas" da Lua (na verdade, elas são túneis de lava lunar).>
Ele foi projetado para imitar como seria a vida humana fora da Terra e explorar como as pessoas reagiriam ou se comportariam frente às condições extremas da Lua ou de Marte, que representam complexos desafios físicos, tecnológicos e psicológicos.>
"A questão é entender estes desafios e conseguir estudá-los aqui na Terra, para que, quando as pessoas forem ao espaço, as agências espaciais estejam mais preparadas para ajudar os astronautas", explica Mulry.>
"Adoro explorar os voos espaciais tripulados. Meu objetivo é ajudar a melhorar a vida das pessoas no espaço e, talvez, também ir ao espaço, algum dia.">
O programa Asclepios é formado por pessoas de 60 países.>
Ele foi criado para que estudantes de todo o mundo tivessem uma ideia de como é tentar se tornar astronauta e ir para o espaço, reproduzindo os processos de treinamento da Nasa e da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês). >
Ao longo do ano, os participantes vêm para este lugar para se submeter a treinamentos presenciais em um ambiente extremo. Eles incluem passeios noturnos nos Alpes durante o inverno ou mergulhos nas frias águas de um lago congelado.>
Os estudantes participam de voos parabólicos com gravidade zero e aprendem técnicas de primeiros socorros, sobrevivência e resgate.>
Eles também recebem aulas de psicologia espacial e ouvem astronautas experientes.>
"Esperamos que isso inspire as pessoas e possa criar oportunidades para que os estudantes entrem no setor espacial em qualquer cargo de seu interesse, transformando-se nos profissionais do espaço de amanhã", destaca Mulry.>
É por este motivo que o brasileiro Mateus de Magalhães, de 27 anos, estudante do primeiro ano de PhD em engenharia aeroespacial na Isae-Supaero, pediu para fazer parte da missão Asclepios 5.>
Ele conta que é fascinado por aeronaves desde jovem. "E, com 12 ou 13 anos, descobri que é possível trabalhar com foguetes e que ser astronauta é uma profissão.">
Nesta missão da Asclepios, Magalhães recebeu o papel de capitão, a pessoa que está a cargo da supervisão da "base lunar" e da tripulação.>
Todos os aspirantes a astronautas desempenham papéis compartilhados específicos, mas ele é o responsável pela tomada de decisões.>
"Existem outras simulações da Lua e de Marte, mas a maioria é paga e o custo é muito alto", explica Magalhães. "Por isso, nem sempre é viável para os estudantes.">
Uma das características únicas da Asclepios é oferecer a experiência gratuitamente para os estudantes selecionados.>
A instituição não tem fins lucrativos e depende inteiramente de doações, crowdfunding e patrocínios para se manter, o que mantém Mulry e seus colegas ocupados o ano inteiro.>
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No Centro de Controle da missão, 25 a 30 estudantes estão agitados, administrando na Terra as operações da missão simulada.>
A emoção toma conta do ambiente nos momentos anteriores à contagem regressiva para o lançamento. Pelos alto-falantes, o som de "cinco, quatro, três, dois, um... fogo!" marca o início oficial da missão.>
Depois do lançamento, os astronautas "viajam" por um dia até a Lua. Seu "foguete" é apenas um pequeno quarto com camas dobráveis e sem banheiro. Por isso, eles precisam usar fraldas.>
Após a alunissagem, eles chegam à "base lunar", que será o seu lar pelos próximos 16 dias.>
Em pequenos alojamentos com apenas um banheiro, os nove tripulantes se alimentarão com "comida de astronauta" desidratada de verdade e realizarão os diversos experimentos científicos preparados anteriormente.>
Os astronautas passarão a maior parte do tempo na base, mas, em algum momento, irão realizar atividades extraveiculares, simulando uma caminhada na Lua, com toda a equipe e os trajes espaciais.>
É aqui que entram em ação os túneis de Sasso San Gottardo, que representam túneis de lava similares aos da Lua.>
Neste ano, os astronautas evitarão a luz solar durante toda a missão.>
As próprias "caminhadas lunares" simuladas, quando eles sairão da fortaleza para explorar as montanhas, serão feitas à noite, como preparação para as condições do polo sul da Lua.>
Basicamente, um dos experimentos que a tripulação irá realizar será o estudo do efeito da escuridão constante. Eles irão monitorar como a falta de luz natural influencia a qualidade do sono, o humor, o ritmo circadiano e a saúde em geral.>
Todos os anos, a Asclepios se associa a acadêmicos e pesquisadores do setor, para realizar experimentos científicos durante as missões simuladas.>
Este projeto específico se chama Kronoespazio ("Ritmos circadianos e sono no espaço simulado"). Sua direção está a cargo da pesquisadora de cronobiologia e do sono Maria Comas Soberats, do Hospital Universitário Vitoria-Gasteiz, na Espanha, ao lado de outros acadêmicos daquele país, da Austrália e da Suíça.>
"É inspirador observar como uma iniciativa estudantil como a Asclepios pode envolver pesquisadores de diferentes países em colaboração", destaca Comas.>
Para isso, os aspirantes a astronautas carregam dispositivos no pulso para acompanhar o sono e sua temperatura corporal, antes do início e ao longo de toda a missão.>
O experimento exige o recolhimento regular de amostras da tripulação, para avaliar seus níveis de melatonina e sua expressão genética circadiana.>
O primeiro relatório da missão foi divulgado no início de outubro e as conclusões serão publicadas em revistas científicas e apresentadas em conferências.>
A esperança é que estes resultados ajudem a definir futuras estratégias para proteger a saúde dos astronautas no espaço e possam também beneficiar as pessoas na Terra, que sofrerem problemas de alteração circadiana. Exemplos são os trabalhadores em ambientes complexos como hospitais, profissionais que trabalham no turno da noite e viagens de longa distância.>
O pesquisador britânico Matthew Acevski, de 23 anos, é aluno de PhD do Imperial College de Londres. Ele fez o papel de oficial de ciências durante a missão.>
"Meus antecedentes são muito teóricos", ele conta. "Concluí a graduação em Física e, agora, faço PhD em física de plasma espacial.">
"A Asclepios me deu a oportunidade de realizar uma tarefa prática real, o que é fantástico para alguém que pretende pesquisar temas espaciais ou viajar em uma missão espacial tripulada.">
Seus estudos até aqui incluíram a pesquisa de como as partículas procedentes do Sol interagem com os planetas situados nos confins do nosso Sistema Solar.>
"Esta foi uma experiência de formação para mim, uma das melhores da minha vida", comenta Acevski. "Ela me ofereceu maior clareza sobre o que eu gostaria de fazer.">
"Depois do término da Asclepios, estou cada vez mais inclinado à pesquisa de voos espaciais tripulados, para aprender mais sobre como podemos melhorar esses voos no futuro ou até participar de um centro de controle de missões de verdade.">
Tanto ele quanto a estudante britânico-americana Lauren Victoria Paulson, de 22 anos, comemorarão seus aniversários durante a missão, isolados do mundo exterior.>
Paulson é aluna de PhD em Engenharia Aeroespacial no Instituto Tecnológico da Georgia, nos Estados Unidos. Ela é a engenheira-chefe da tripulação, encarregada de solucionar qualquer problema mecânico, técnico ou de hardware que possa surgir.>
Além de pilotar aviões e mergulhar, Paulson tem interesse nos ambientes extremos, particularmente em como melhorar a forma em que os seres humanos podem viver nessas condições. E não há nada mais extremo que o espaço.>
"Um dos pontos fascinantes sobre o espaço é que não se pode desperdiçar nada, nem uma única gota d'água", destaca Paulson. "É preciso ser supereficiente.">
"Quando projetamos para o espaço, podemos adaptar essas tecnologias e idealizar projetos para pessoas que moram em ambientes de frio extremo, desertos e regiões com muito pouca água, permitindo que a humanidade viva em todos esses lugares hostis do planeta.">
"Como construir habitats se o clima passa a ser mais extremo a cada ano?", questiona ela.>
Paulson acredita que as missões espaciais podem ter efeitos tangíveis aqui na Terra e nos ensinar a reciclar diferentes materiais, reduzir o consumo de água na agricultura e maximizar a produção vegetal.>
"Muitas tecnologias se originaram no espaço e foram adaptadas às necessidades da Terra", destaca Paulson.>
"Nossos computadores não teriam chegado ao ponto a que chegaram sem o espaço. Todos os nossos telefones celulares usam satélites que estão no espaço.">
Em relação às dificuldades de preparação para missões espaciais simuladas ou reais, a estudante conta que se sente confortável na falta de conforto.>
"Cada vez que saio da zona de conforto, fico um pouco mais parecida com um astronauta e acredito que também uma pessoa melhor e mais resiliente", segundo ela.>
Os estudantes ficaram tão emocionados (e atarefados) com os preparativos de última hora antes da decolagem que não chegaram a perceber que eu estava deixando sua "base lunar".>
Enquanto saía do túnel e meus olhos começavam a se acostumar novamente com a luz do dia, eu me perguntei se, algum dia, eles se aventurariam a sair da sua base para explorar um mundo diferente do nosso.>
Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Innovation.>
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