Há notícia (e fotos) de que a China está construindo um hospital na cidade de Wuhan para abrigar mil leitos e que, tal construção, será feita em assombrosos dez dias (falta conferir). Até a confirmação, vamos considerar, para efeito deste artigo, sem que mudem quaisquer das conclusões, que a obra durará dez semanas. Para nós, pouco importa. O espanto é do mesmo tamanho!
O hospital vai servir para abrigar doentes por infecção de um patógeno que seria um “novo” coronavírus; ou seja, o caso é de urgência mesmo. Certamente, não haverá discussões judicias sobre desapropriação de terreno, licitações intermináveis, sucessivos órgãos de controle, infinitas licenças ambientais e sanitárias, estudos de impacto de vizinhança e etc...
Ou, se houver tudo isso, será feito nos dez dias (ou dez semanas). É possível imaginar o grau de sofisticação no planejamento, gestão e execução de um projeto assim. Engenheiros e máquinas de alto nível, trabalhando afinados e coordenados na empreitada. Mas e a mão de obra? É também, segundo estudos, de enorme eficiência e elevado índice de produtividade.
Aí entra o tal do senso comum (que eu não gosto, mas utilizo): Meus Deus, moramos no mesmo planeta, temos acesso às mesmas informações, as leis da natureza funcionam lá como cá. O que é que há conosco? Qualquer um que já tenha reformado um simples banheiro na própria casa vai entender o que estou dizendo.
Construir por aqui é quase um trabalho de Hércules. Quando o problema não está na qualidade nem no custo, está no excesso de prazo. O mais triste é que conhecemos todos os sintomas, mas insistimos em não enxergar as causas. Perguntado, o brasileiro médio responderá: o problema do Brasil é a corrupção.
Pois é, estudos e rankings internacionais mostram paridade entre os índices de corrupção de Brasil e China. E agora? Não sendo isto, o que seria? É preciso, com urgência, compreendermos que nos falta eficiência, formação, planejamento e que os custos da incompetência são muito mais elevados do que os custos da corrupção.
Até porque ineficiência gera corrupção. Não o contrário. Fizemos um pacto de salvo conduto para “os bem-intencionados”. Eles estão livres de qualquer punição. Aqui proliferam frases como: não foi por maldade; Ele é meio limitado, mas é uma pessoa muito séria; A intenção foi boa. Enquanto isto, travamos uma luta vã, imaginária e cômoda contra os tais “corruptos”. Que não acabam nunca. Vão sendo presos, execrados publicamente e continuam a se multiplicar.
Escrevi aqui no dia 3 de novembro de 2019... Corruptos não morrem por prisão ou execração pública. Morrem por asfixia causada por transparência, fluidez, confiança e desregulamentação inteligente. A luta cega contra um tipo de corrupção, aflorou entre nós injustificável leniência com dois dos mais perversos destruidores do tecido social produtivo: a ineficiência e a incompetência, cujos percentuais de perdas ultrapassam, em muito, os usuais e lamentáveis 5% a 10% de propina.
Foi assim, com esse pega ladrão tropicalizado que saímos do execrável “rouba mas faz” para o igualmente pernicioso “se não rouba, tudo o mais lhe será perdoado”. O grande professor Roberto Campos, detentor de inteligência incomum, cunhou as seguintes frases: “O mundo não será salvo pelos caridosos, mas pelos eficientes” - “Deus nos livre dos bem-intencionados, eles causam danos irreparáveis”. Disse ainda, o professor, que “a burrice no Brasil tem um passado glorioso e um futuro promissor”. Com essa eu não concordo. Mas é uma bela provocação!