Enquanto a maioria das pessoas ainda se recuperava das festas de fim de ano, com preocupações triviais como metas de perder peso e fazer academia, os Estados Unidos assassinaram o chefe da Elite da Guarda Iraniana, escalando o conflito no Oriente Médio a um nível antes nunca visto.
Na última sexta-feira, dia 3 de dezembro, o mundo acordou atônito com a notícia do assassinato do general iraquiano, Qassim Suleimani, pelos Estados Unidos. O presidente Donald Trump, mesmo fora da Casa Branca, passando os feriados de fim de ano no seu resort Mar-a-Lago, na Flórida, deu a ordem decisiva autorizando o ataque por drones.
A partir de então a política internacional está em reviravolta: o parlamento iraquiano votou uma resolução determinando a retirada das tropas estrangeiras do país; o Irã anunciou que a morte de Soleimani será vingada; Donald Trump já reagiu por Twitter dizendo ter 52 alvos já predeterminados para atacar no Irã, sendo eles bens culturais protegidos pelo direito internacional público.
Ao mesmo tempo, teorias das mais variadas são desenvolvidas nas mídias tradicionais, como jornais e televisão, e nas mídias não-tradicionais, como WhatsApp e outras redes sociais. Uma teoria é a de que uma terceira guerra estaria por explodir. Vamos tentar entender isso melhor: todos devem estar lembrados que a I Guerra Mundial iniciou-se, justamente, com o assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, herdeiro do trono austríaco, e sua esposa, no dia 28 de junho de 1914, por um estudante sérvio.
O assassinato desencadeou a ativação de uma série de acordos de alianças secretas entre as potências da época, de modo que a guerra tornou-se inevitável. O grande Império Austro-Húngaro e os seus aliados contra a Sérvia e seus aliados. O problema naquela época eram os acordos de aliança secretos, havia países que mantinham alianças com muitos outros, sem que uns soubessem dos outros. Desde a criação da Liga das Nações com o fim da Primeira Guerra, esses acordos não são mais permitidos. Assim, todas as alianças atuais são abertas e conhecidas.
No Iraque, estão estacionados cerca de 5.000 soldados estrangeiros, a maioria norte-americana, mas em aliança com o Reino Unido e Alemanha, parceiros nos americanos na Otan, que apoiam as iniciativas americanas no Iraque.
De outro lado, temos o Irã, apoiado pela Rússia, que faz o contrapeso na região, tendo apoiado recentemente o ditador e governante da Síria, Assad Bashar al-Assad, que resistiu com o apoio desses dois países à invasão da Síria por tropas estrangeiras e também pelo Estado Islâmico.
Tanto as tropas aliadas sob a bandeira da Otan, quanto às apoiadas pela Rússia e Irã, tinham como inimigo comum nos últimos tempos o Estado Islâmico, milícia fundamentalista que havia se instalado na Síria e no Iraque a fim de criar um califado muçulmano, a qualquer custo. Felizmente, o IS foi neutralizado, mas outros problemas foram surgindo a partir de então.
Os EUA deixaram os seus aliados curdos à mercê do governo de Recep Tayyip Erdoğan, depois de terem ajudado os americanos na luta contra o IS. O problema é que para Erdoğan, os curdos são um grupo terrorista que tem que ser eliminado. Trump foi muito criticado interna e internacionalmente por esse ato de desprezo aos seus aliados locais, mas isso não o abalou de forma alguma.
Durante os feriados de fim de ano em 2019, a Embaixada dos Estados Unidos sofreu uma tentativa de ataque por parte de uma milícia iraquiana, à qual se atribuiu o apoio do Irã, fato que, ao que tudo indica, foi a gota d'água para justificar o ataque do dia 3 de janeiro de 2020 ao general Suleimani. Mas, sabemos, há muito mais em jogo nesse xadrez do Oriente Médio: há uma nova grande reserva de petróleo descoberta no Irã recentemente; aproxima-se a eleição presidencial nos EUA; e o presidente Trump está sofrendo um processo de impeachment em casa.
Ora, nada melhor do que reforçar a animosidade da população nacional contra um inimigo externo, e assim tirar os olhos dos norte-americanos do processo de impeachment no Congresso. Apontar e criar a imagem maligna de um inimigo externo é conhecida estratégia de política interna, já indicada por diversos autores, sendo o mais proeminente Carl Shmitt, jurista constitucionalista alemão, às vésperas e durante a II Grande Guerra.
Um item final antes de terminar esta coluna para que todos reflitamos: as guerras não são mais as mesmas; tanto o ataque de drone pelos EUA quanto às formas de possíveis retaliações do Irã não se encaixam no formato de uma Guerra Mundial. Mary Kaldor, em seu livro New and Old Wars: Organized Violence in a Global Era (sem tradução para o português), fala de uma nova forma de violência na era em que vivemos.
Trata-se de uma violência organizada – podendo ser estatal ou não-estatal – realizada de forma pontual, por ataques cirúrgicos e contra alvos específicos. Os EUA usam de drones, evitando riscos aos seus nacionais, os países do Oriente e do Oriente Médio usam seus mártires, os quais dão a vida em nome de um objetivo maior por meio de ataques suicidas.
Esse tipo de violência organizada é a que devemos esperar para os próximos dias, tanto por parte do Irã e seus aliados, quanto por parte dos EUA e de seus aliados. Será uma guerra por procuração, com baixas civis e de bens culturais, tudo isso sem declaração formal de guerra e sem aviso prévio.