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Reabertura de escolas é nova disputa política entre Pazolini e Casagrande

Sob expectativa de abertura das escolas na próxima semana, que deve ser anunciada pelo governo estadual nesta sexta, prefeito divulgou vídeo em que defende o retorno das aulas presenciais

Vitória
Publicado em 06/05/2021 às 12h29
Vídeo compartilhado nas redes sociais
Pazolini defende o retorno das aulas presenciais em vídeo divulgado nas redes sociais. Crédito: Reprodução

Na semana em que o governo estadual se prepara para atualizar a classificação dos municípios no Mapa de Risco para a Covid-19, o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos), divulgou um vídeo, nas redes sociais, na terça-feira (4), afirmando que a Capital está pronta para retomar as aulas nas escolas. 

Na gravação, em que também aparece o presidente da Assembleia Legislativa do Espírito SantoErick Musso (Republicanos), Pazolini adota, em alguns trechos, um tom de insatisfação, quando diz que "não dá para aceitar esta condição", referindo-se ao modelo remoto de aulas. 

A declaração soa como uma afronta ao governo estadual, que é responsável por estabelecer as medidas de isolamento e funcionamento de atividades no Estado por meio do Mapa de Risco. Atualmente, Vitória se encontra em risco alto para a Covid-19 e o atendimento nas escolas somente pode ser feito de forma individual.

No entanto, há uma expectativa para que a classificação do município mude para o risco moderado, a partir da próxima semana, o que vai permitir o retorno das aulas presenciais. 

A antecipação de Pazolini a uma decisão que deve ser anunciada pelo Palácio Anchieta nesta sexta-feira (7) é vista por interlocutores do governo do Estado e até da própria prefeitura como conveniente. Atitude semelhante foi adotada pelo presidente da Assembleia, Erick Musso, quando no mês passado ele se manifestou a favor da abertura do comércio dias antes de o governador Renato Casagrande (PSB) divulgar flexibilizações no setor.

Para articuladores políticos do Estado, a manifestação do prefeito faz parte de um movimento do partido Republicanos para marcar uma posição de diferença da do governo e buscar protagonismo político, em um momento em que as medidas de restrição para conter a Covid-19 têm sido alvo de críticas de diferentes setores da sociedade.

O VÍDEO DE PAZOLINI

vídeo divulgado por Pazolini é bem produzido, editado, mas não tem autor. Apesar de ter sido compartilhado pelo prefeito e por aliados dele nas redes sociais, a prefeitura não informa se é uma posição oficial da administração municipal.

Na gravação, o prefeito afirma que se reuniu com representantes de escolas e que Vitória estará preparada "para receber os alunos na próxima segunda-feira", inferindo que as aulas seriam retomadas.

No mesmo vídeo, Erick Musso elogia a atitude de Pazolini e diz que "Vitória se torna o primeiro município capixaba a retomar de forma gradual, com responsabilidade, respeitando todos os protocolos, as regras sanitárias, as aulas", ressaltando um suposto pioneirismo da cidade em retomar as atividades nas escolas. 

Vídeo compartilhado nas redes sociais
O presidente da Assembleia, Erick Musso, e o prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini, em reunião com representantes das escolas. Crédito: Reprodução

As declarações foram feitas antes do posicionamento do governador Renato Casagrande sobre a reabertura das escolas, mas sob a expectativa de que isso vai acontecer devido à queda de casos de Covid-19 na Capital e do número de leitos ocupados. A avaliação de interlocutores do Palácio Anchieta é que o posicionamento tenta colher louros políticos em cima de uma decisão que cabe apenas ao governo.

"Pazolini se aproveita politicamente de uma decisão que não cabe a ele, mas que ele sabe que deve ser anunciada nos próximos dias e vai agradar parte da população. Ao antecipar esse anúncio, sem fazer qualquer referência à Matriz de Risco, ele passa a ideia de que houve algum tipo de pressão e que foi algo decidido pela gestão municipal", avalia um aliado de Casagrande, sob a condição de anonimato.

Desde que o vídeo foi compartilhado, na terça, A Gazeta tem entrado em contato, em diferentes momentos do dia, com assessores da prefeitura e com o próprio prefeito, para saber qual a intenção em divulgar a manifestação. Os questionamentos, contudo, não foram respondidos.

Na tarde desta quarta-feira (5), um membro do secretariado de Pazolini informou, por telefone, que o vídeo não foi produzido pela prefeitura e que representa uma opinião do prefeito.

"Não é posicionamento da prefeitura, aquilo foi uma opinião pessoal do Pazolini. Não há qualquer manifestação no sentido de contrariar o decreto estadual. Existe um entendimento que é preciso aguardar a matriz de risco, mas a expectativa é que Vitória entre no risco moderado e com isso as aulas sejam liberadas a partir de segunda-feira."

RELAÇÃO ENTRE CASAGRANDE E REPUBLICANOS

Pazolini e Casagrande nunca foram próximos. Durante o mandato como deputado estadual, o delegado, que se classificava como independente, assumiu uma postura de oposição ao governo estadual.

Em 2020, protagonizou um dos episódios de maior conflito com o Executivo estadual, ao fazer uma "visita surpresa" ao Hospital Dório Silva para verificar a ocupação de leitos. A visita foi classificada como invasão pelo governo do Estado, e teria sido motivada pelo discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) – que incentivou que apoiadores entrassem nos hospitais para verificar a situação dos leitos –, o que Pazolini nega.

Depois de eleito prefeito, contudo, Pazolini pregou um discurso de trabalho conjunto com o governo do Estado para o enfrentamento da pandemia. Junto com o partido, chegou a sentar com Casagrande e até falar sobre uma possível aliança entre Republicanos e PSB em 2022.

Essa aproximação já vinha sendo feita pelo presidente da Assembleia Erick Musso, correligionário de Pazolini. Erick e Casagrande, que também viveram momentos de rompimento, se reaproximaram no último ano, e o parlamentar conseguiu apoio do governador para reeleição na presidência da Casa. No discurso de posse, pregou união e disse que estaria ao lado do governo.

Um mês depois, no entanto, o presidente da Assembleia se movimentou na contramão do governo do Estado. Nas redes sociais, divulgou um vídeo apoiando a abertura do comércio, que estava fechado sob decreto estadual.

A manifestação aconteceu dias antes da atualização da Matriz de Risco do governo estadual, que seguindo dados técnicos, passou grande parte dos municípios de risco extremo para alto, flexibilizando o funcionamento da atividade.

A atitude de Erick veio acompanhada de um vídeo de Pazolini. Em um tom mais duro que o correligionário, mas sem citar o governador Renato Casagrande, disse que não aceitaria a condução que estava sendo feita em relação ao comércio. E avisou "vamos nos manifestar com mais veemência".

Para o cientista político João Gualberto Vasconcellos, é claro o reposicionamento do Republicanos no cenário político, por meio das duas principais lideranças no partido no Estado. 

"Independentemente do objetivo, se ele é eleitoral ou não, uma leitura é certa: eles querem marcar uma diferença em relação ao governador Renato Casagrande e criar uma identidade que os diferencie do governo estadual", destacou.

A percepção também é que essas manifestações se tornaram mais fortes à medida que as críticas em relação ao governo estadual aumentaram. Com isso, Pazolini e Erick acabam fortalecendo, ainda que de forma mais sutil, um movimento de oposição ao Executivo.

"As pessoas estão desgastadas. Elas sabem que o isolamento é importante, mas há um desgaste. Alguns atores políticos têm se aproveitado disso para defender medidas populares e se autopromover, como abertura de escolas, comércio. Eles se colocam ao lado da sociedade e o governador contra", afirmou um articulador político local.

No Palácio Anchieta, esses movimentos não devem ser enfrentados como um embate pelo governador, apesar de serem vistos como frequentes e desagradáveis e apontarem para um possível rompimento político.

"Não tem sido algo pontual, o governo tem ciência disso, mas se o governador partir para o embate, ele perde o foco que é o enfrentamento à pandemia. O governo vai continuar fazendo o trabalho que é preciso, tomando as medidas necessárias, deixando bem claro que elas se baseiam em dados técnicos e não sob pressão de agentes políticos", afirmou um membro do primeiro escalão.

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