O ex-governador Paulo Hartung “entrou” na campanha eleitoral
do Espírito Santo. “Entrou” assim, entre aspas, do jeito dele: de forma enviesada
e emitindo “sinais” (palavra dele), que requerem interpretação. Em um vídeo
postado em seu perfil no Instagram, sem citar nome algum, Hartung fez afirmações
que podem ser lidas como críticas indiretas ao grupo instalado no poder no Espírito
Santo: o do governador Ricardo Ferraço (MDB) e o do ex-governador Renato
Casagrande (PSB).
Falando em “paralisia”, “acomodação” e “arrogância”, o
ex-governador opinou que o Espírito Santo “não está preparado para o futuro”.
Disse, ainda, não estar “satisfeito” com o que está sendo feito hoje no Estado.
O poeta nos ensinou: o futuro é o que estamos fazendo hoje. E, quando olho o que estamos fazendo hoje, eu não estou satisfeito.
Paulo Hartung (PSD), ex-governador do ES
No vídeo, Hartung não aborda diretamente o processo
eleitoral. Ele não é candidato a nenhum cargo. Anteriormente, já declarou apoio
ao ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) para governador.
Em rodas empresariais realizadas nos últimos meses e em
entrevistas concedidas em maio do ano passado e fevereiro deste ano, o
ex-governador defendeu abertamente a “renovação política” e criticou a
perpetuação do mesmo grupo político no poder.
No vídeo em questão, Hartung começa falando do passado.
Relembra o estado de coisas em que se encontrava o Espírito Santo quando ele
chegou ao Palácio Anchieta, em 2003. Cita um Estado falido, com a máquina pública
sucateada, devendo aos servidores e sofrendo com a corrupção, a violência e o
crime organizado. “E nós conseguimos colocar o Estado de pé. [...] O estado que
devia a todo mundo virou exemplo de finanças, de capacidade de investimentos
com recursos próprios.”
Em seguida, ele chega ao presente para se questionar sobre o
futuro. Aí é que vêm as críticas veladas.
“As pessoas me perguntam: e o futuro, Paulo? Estamos preparados
para o futuro? Eu acho que não. Eu sou sincero. Acho que o futuro, nós
precisamos construí-lo com ações no presente.”
Destacando a queda na produção de petróleo (e, por
conseguinte, dos royalties e participações especiais para os cofres capixabas)
e o fim dos incentivos fiscais que atraíram cadeias produtivas para o Estado (em
consequência da reforma tributária), Hartung afirma que “falta um olhar para o
futuro”.
“Quem se acomoda tropeça nas próprias pernas”, alfineta. “Quem fica contando vantagem daquilo que foi feito num passado, às vezes até um pouco distante, tem um encontro marcado com o fracasso”, “profetiza”.
“Tem companhias que não são boas. Meu pai falava assim: a arrogância
é a antessala do fracasso. É mais ou menos parecido.”
Segundo ele, até se podem comemorar feitos em áreas como
saúde, educação, sistema prisional e combate ao crime organizado, mas não se
pode ficar só no “oba-oba”. “Podemos comemorar, mas sem arrogância e sem
paralisia. A vida é muito dinâmica.”
“Meu papel, pela minha experiência, pela minha trajetória, é justamente emitir bons sinais. Eu estou aqui emitindo um bom sinal. Para um bom entendedor, um sinal desse significa ‘olha, vamos descruzar os braços, vamos parar com o oba-oba e vamos olhar o que nós precisamos fazer para que o nosso estado, daqui a 10, 15, 20 anos, possa ter uma jornada muito melhor que a do presente’.”
Contexto
O vídeo de Hartung alcançou números tímidos de engajamento
nas redes sociais. Os “sinais” dados por ele (talvez os primeiros de uma série)
podem ser pouco: uma participação bem modesta e indireta na campanha eleitoral.
Mas já é mais do que ele fez nas últimas duas eleições estaduais.
Em 2018, Hartung era o governador do Estado, habilitado a
disputar a reeleição. Não o fez. Em julho daquele ano, a cerca de um mês do início
da campanha, anunciou que não seria candidato. Durante a campanha, manteve-se
distante, não lançou candidato e não apoiou ninguém para a própria sucessão.
Já em 2022, sem mandato havia quase quatro anos, Hartung
também se manteve bem distante do processo e não fez nenhuma manifestação a
favor ou contra ninguém, muito menos emitiu opiniões ou “sinais” pelas redes sociais
ou por outras vias.
Desta vez, no período que antecedeu a campanha oficial,
Hartung se mexeu mais nos bastidores. Em maio do ano passado, após mais de seis
anos sem filiação partidária, entrou no Partido Social Democrático (PSD),
voltando a ficar apto para disputar mandatos. Em entrevistas dadas por ele dias
antes da filiação, não descartou eventual candidatura em 2026.
Em meados do primeiro semestre, interlocutores do
ex-governador diziam vê-lo animado a voltar a disputar um mandato majoritário
(o de senador). Para dar um exemplo, em maio, o ex-prefeito de Guarapari Edson
Magalhães chegou a dizer que Hartung era o melhor nome para o Senado no
Espírito Santo – em entrevista publicada pelo próprio ex-prefeito.
No dia 16 de julho, a pesquisa da Quaest publicada por A
Gazeta mostrou um Hartung com recall político elevado, bastante competitivo
tanto para o Senado como para o Governo do Estado.
Após muitas especulações, Hartung anunciou, no dia 3 de agosto, que não seria candidato a nada – também do jeito dele, sem o dizer diretamente. Proclamou que seguiria com sua “incansável militância cidadã”.
“Sigo com meus passos de incansável
militância cidadã por uma realidade mais próspera, inclusiva e sustentável, no
Espírito Santo e no Brasil.”
Conforme o período de definições se afunilou, a conjuntura estadual ficou muito pouco propícia a eventual candidatura de Hartung.
No cenário eleitoral capixaba, o PSD, partido de Hartung,
ficou isolado. A coligação majoritária liderada por Pazolini definiu outros
dois candidatos ao Senado: Maguinha Malta (PL) e Evair de Melo (Republicanos). Não
sobrou espaço ali para um candidato do PSD (nem Hartung nem Sérgio Meneguelli).
No fim, para cumprir um acordo com Meneguelli, o presidente
estadual do PSD, Renzo Vasconcelos, homologou a candidatura do deputado estadual
ao Senado, mas numa chapa independente. É Meneguelli por si só, sem partidos
aliados nem grandes apoiadores.
Enquanto isso, Hartung preferiu manter-se como um observador
do cenário. E agora, ao seu modo, parece começar a exercitar o que chamou de “militância
cidadã”.
Leia mais colunas de Vitor Vogas