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Vitor Vogas

Paulo Hartung entra na campanha estadual... do jeito dele

Falando em “paralisia”, “acomodação” e “arrogância”, ex-governador opinou que o ES “não está preparado para o futuro”. Disse, ainda, não estar “satisfeito” com o que está sendo feito no Estado

Publicado em 26 de Agosto de 2026 às 05:00

Públicado em 

26 ago 2026 às 05:00
Vitor Vogas

Colunista

Vitor Vogas Vitor Vogas
Paulo Hartung é economista e ex-governador do Estado do Espírito Santo
Paulo Hartung é economista e ex-governador do Estado do Espírito Santo Divulgação

O ex-governador Paulo Hartung “entrou” na campanha eleitoral do Espírito Santo. “Entrou” assim, entre aspas, do jeito dele: de forma enviesada e emitindo “sinais” (palavra dele), que requerem interpretação. Em um vídeo postado em seu perfil no Instagram, sem citar nome algum, Hartung fez afirmações que podem ser lidas como críticas indiretas ao grupo instalado no poder no Espírito Santo: o do governador Ricardo Ferraço (MDB) e o do ex-governador Renato Casagrande (PSB).

Falando em “paralisia”, “acomodação” e “arrogância”, o ex-governador opinou que o Espírito Santo “não está preparado para o futuro”. Disse, ainda, não estar “satisfeito” com o que está sendo feito hoje no Estado. 

O poeta nos ensinou: o futuro é o que estamos fazendo hoje. E, quando olho o que estamos fazendo hoje, eu não estou satisfeito.

Paulo Hartung (PSD), ex-governador do ES

No vídeo, Hartung não aborda diretamente o processo eleitoral. Ele não é candidato a nenhum cargo. Anteriormente, já declarou apoio ao ex-prefeito de Vitória Lorenzo Pazolini (Republicanos) para governador.


Em rodas empresariais realizadas nos últimos meses e em entrevistas concedidas em maio do ano passado e fevereiro deste ano, o ex-governador defendeu abertamente a “renovação política” e criticou a perpetuação do mesmo grupo político no poder.


No vídeo em questão, Hartung começa falando do passado. Relembra o estado de coisas em que se encontrava o Espírito Santo quando ele chegou ao Palácio Anchieta, em 2003. Cita um Estado falido, com a máquina pública sucateada, devendo aos servidores e sofrendo com a corrupção, a violência e o crime organizado. “E nós conseguimos colocar o Estado de pé. [...] O estado que devia a todo mundo virou exemplo de finanças, de capacidade de investimentos com recursos próprios.”


Em seguida, ele chega ao presente para se questionar sobre o futuro. Aí é que vêm as críticas veladas.


“As pessoas me perguntam: e o futuro, Paulo? Estamos preparados para o futuro? Eu acho que não. Eu sou sincero. Acho que o futuro, nós precisamos construí-lo com ações no presente.”


Destacando a queda na produção de petróleo (e, por conseguinte, dos royalties e participações especiais para os cofres capixabas) e o fim dos incentivos fiscais que atraíram cadeias produtivas para o Estado (em consequência da reforma tributária), Hartung afirma que “falta um olhar para o futuro”.


“Quem se acomoda tropeça nas próprias pernas”, alfineta. “Quem fica contando vantagem daquilo que foi feito num passado, às vezes até um pouco distante, tem um encontro marcado com o fracasso”, “profetiza”.


“Tem companhias que não são boas. Meu pai falava assim: a arrogância é a antessala do fracasso. É mais ou menos parecido.”


Segundo ele, até se podem comemorar feitos em áreas como saúde, educação, sistema prisional e combate ao crime organizado, mas não se pode ficar só no “oba-oba”. “Podemos comemorar, mas sem arrogância e sem paralisia. A vida é muito dinâmica.”


“Meu papel, pela minha experiência, pela minha trajetória, é justamente emitir bons sinais. Eu estou aqui emitindo um bom sinal. Para um bom entendedor, um sinal desse significa ‘olha, vamos descruzar os braços, vamos parar com o oba-oba e vamos olhar o que nós precisamos fazer para que o nosso estado, daqui a 10, 15, 20 anos, possa ter uma jornada muito melhor que a do presente’.”

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O vídeo de Hartung alcançou números tímidos de engajamento nas redes sociais. Os “sinais” dados por ele (talvez os primeiros de uma série) podem ser pouco: uma participação bem modesta e indireta na campanha eleitoral. Mas já é mais do que ele fez nas últimas duas eleições estaduais.


Em 2018, Hartung era o governador do Estado, habilitado a disputar a reeleição. Não o fez. Em julho daquele ano, a cerca de um mês do início da campanha, anunciou que não seria candidato. Durante a campanha, manteve-se distante, não lançou candidato e não apoiou ninguém para a própria sucessão.


Já em 2022, sem mandato havia quase quatro anos, Hartung também se manteve bem distante do processo e não fez nenhuma manifestação a favor ou contra ninguém, muito menos emitiu opiniões ou “sinais” pelas redes sociais ou por outras vias.


Desta vez, no período que antecedeu a campanha oficial, Hartung se mexeu mais nos bastidores. Em maio do ano passado, após mais de seis anos sem filiação partidária, entrou no Partido Social Democrático (PSD), voltando a ficar apto para disputar mandatos. Em entrevistas dadas por ele dias antes da filiação, não descartou eventual candidatura em 2026.


Em meados do primeiro semestre, interlocutores do ex-governador diziam vê-lo animado a voltar a disputar um mandato majoritário (o de senador). Para dar um exemplo, em maio, o ex-prefeito de Guarapari Edson Magalhães chegou a dizer que Hartung era o melhor nome para o Senado no Espírito Santo – em entrevista publicada pelo próprio ex-prefeito.


No dia 16 de julho, a pesquisa da Quaest publicada por A Gazeta mostrou um Hartung com recall político elevado, bastante competitivo tanto para o Senado como para o Governo do Estado.


Após muitas especulações, Hartung anunciou, no dia 3 de agosto, que não seria candidato a nada – também do jeito dele, sem o dizer diretamente. Proclamou que seguiria com sua “incansável militância cidadã”.

Sigo com meus passos de incansável militância cidadã por uma realidade mais próspera, inclusiva e sustentável, no Espírito Santo e no Brasil.

Conforme o período de definições se afunilou, a conjuntura estadual ficou muito pouco propícia a eventual candidatura de Hartung.

No cenário eleitoral capixaba, o PSD, partido de Hartung, ficou isolado. A coligação majoritária liderada por Pazolini definiu outros dois candidatos ao Senado: Maguinha Malta (PL) e Evair de Melo (Republicanos). Não sobrou espaço ali para um candidato do PSD (nem Hartung nem Sérgio Meneguelli).

No fim, para cumprir um acordo com Meneguelli, o presidente estadual do PSD, Renzo Vasconcelos, homologou a candidatura do deputado estadual ao Senado, mas numa chapa independente. É Meneguelli por si só, sem partidos aliados nem grandes apoiadores.

Enquanto isso, Hartung preferiu manter-se como um observador do cenário. E agora, ao seu modo, parece começar a exercitar o que chamou de “militância cidadã”.  

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Vitor Vogas Vitor Vogas

Vitor Vogas é jornalista com atuação na imprensa capixaba há quase 20 anos. Cobriu várias eleições. De 2008 a 2021, trabalhou na Rede Gazeta, como repórter e colunista de Política. Também foi comentarista da CBN. Em 2026, após passagens por veículos da Rede Capixaba e do Grupo Sim, voltou a assinar esta coluna. Aqui, diariamente, você encontra informações de bastidores e análises em profundidade sobre o cenário político do Espírito Santo.

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