Mais da metade dos moradores do Espírito Santo (61%) se autodeclaram negros, grupo formado por pretos e pardos, segundo classificação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O dado é do Censo de 2022 da entidade.
Apesar disso, há disparidade na ocupação de espaços de liderança e poder. Nas Eleições 2026, que teve primeiro turno realizado no dia 4, pouco mais de 5% dos candidatos que se declararam negros tiveram sucesso nas urnas.
Dos 580 candidatos do Espírito Santo, 303 se declararam negros, mas apenas 17 deles se elegeram. Ou seja, somente 5,61% dos candidatos negros saíram vitoriosos no pleito no Estado. No primeiro turno, no geral, foram eleitos 42 candidatos.
- Na disputa das 30 vagas para deputado estadual, 12 dos eleitos são negros.
- Das 10 cadeiras para deputado federal, quatro ficaram com candidatos que se declaram desse grupo.
- Das duas vagas para senador, uma foi conquistada por um negro.
Os números das disputas eleitorais mais recentes mostram que o índice vem aumentando desde as eleições gerais de 2014, ano em que se tornou obrigatório ao candidato declarar a cor ou raça. Mas a subida do indicador ainda é lenta e mensura a sub-representatividade dessa parcela da população.
Em 2022, foram 399 negros em busca de um mandato eletivo e apenas 19 foram bem-sucedidos, ou seja, 4,76%. Em 2018, foram 422 concorrentes e 16 ganharam, isto é, 3,79%. E em 2014, dos 350 que afirmaram ser pretos ou pardos, apenas 13 se elegeram, o equivalente a 3,71% do grupo.
Considerando apenas a representatividade de raça entre os eleitos no primeiro turno, os negros são 40,47%, enquanto eram 52% dos candidatos.
Na avaliação do cientista político João Victor Santos, apesar do número reduzido de eleitos, observou-se um aumento no volume de candidaturas negras em relação a pleitos anteriores.
Esse movimento decorre de uma maior adesão dos partidos à pauta e, sobretudo, das regras de incentivo do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que bonifica o fundo partidário e eleitoral dos partidos que elegem representantes negros. Como a ampliação do fundo e das bancadas é um dos objetivos prioritários das legendas, a inclusão de candidaturas negras tornou-se estrategicamente atraente.
“A gente vê uma crescente no número de candidatos. Isso é fundamental, mesmo que tímido, mas ainda não está acompanhando o percentual de pessoas negras do Estado”, lembra.
Santos lembra que a conversão de votos esbarra em barreiras de financiamento e visibilidade. Ele avalia que a falta de recursos financeiros e de infraestrutura de campanha limita o alcance social dessas candidaturas, impedindo que atinjam grandes multidões. Somado a isso, candidaturas negras raramente são posicionadas como cabeças de chapa, o que diminui a centralidade e o peso político desses nomes nas disputas majoritárias e proporcionais.
Para Santos, mais do que a ocupação física do espaço, o impacto dessa representatividade se consolida quando os mandatos são acompanhados de uma agenda explícita de igualdade racial, equidade e direitos humanos.
“A democracia brasileira necessita ter pessoas negras eleitas para ser de fato uma democracia plena. Ter pessoas negras eleitas, com agenda de negritude, da igualdade racial, da equidade, dos direitos humanos, é fundamental para a sociedade brasileira. São essas agendas que fazem a melhoria da qualidade de vida das pessoas”, defende.
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